Chamaram Bolsonaro de "negacionista", Fauci era "a ciência": Seis anos depois, a história virou
Seis anos depois, a pandemia começa a ser revisitada nos Estados Unidos de uma maneira que deveria provocar um terremoto também no Brasil.
Por Karina MichelinColunistaPublicado em 08/09/2026, 15:10Atualizado em 08/09/2026, 15:10

Anthony Fauci, o homem que durante a Covid-19 foi elevado à condição de referência mundial e chegou a declarar que representava “a ciência”, está no centro de uma investigação do Senado americano sobre sua atuação durante a pandemia e as origens do vírus. Em 29 de julho, convocado sob intimação, invocou repetidamente a Quinta Emenda para não responder às perguntas dos senadores. Em 6 de agosto, o Comitê de Segurança Interna e Assuntos Governamentais votou por considerá-lo em desacato ao Congresso e encaminhar o caso ao Departamento de Justiça. Fauci alega perseguição política e invocar a Quinta Emenda não significa admissão de culpa, mas o fato é monumental - a autoridade que durante anos simbolizou as certezas científicas da pandemia agora se recusa a responder, sob juramento, a perguntas sobre aquele período. (AP News)
No Brasil, porém, parece não existir o mesmo interesse em revisitar a história, porque fazer isso exigiria revisitar também Jair Bolsonaro.
Durante a pandemia, Bolsonaro foi chamado de “genocida”, “negacionista”, irresponsável e inimigo da ciência; foi massacrado por se opor aos lockdowns, ao fechamento prolongado das escolas, à vacinação compulsória, aos passaportes sanitários e à transformação de medidas emergenciais em restrições profundas à vida de pessoas saudáveis. Enquanto Fauci era tratado como a personificação da ciência, Bolsonaro era apresentado como o homem que precisava ser contido.
Só que algumas das perguntas pelas quais Bolsonaro foi condenado sobreviveram, enquanto muitas das certezas de seus acusadores, não.
Bolsonaro dizia que não se poderia combater uma doença destruindo simultaneamente empregos, empresas, educação e liberdade. Alertava para o custo de manter crianças fora das escolas e famílias impedidas de trabalhar. Isso era tratado como insensibilidade diante das mortes. Hoje, o prejuízo educacional é mensurável: estudos internacionais encontraram perdas maiores justamente entre estudantes submetidos a fechamentos mais prolongados. O Banco Mundial estima perdas de até 12 meses de aprendizagem nos países com fechamentos mais longos e, no Brasil, registrou que alunos em ensino remoto aprenderam quase 75% menos e apresentaram risco de abandono 2,5 vezes maior. (World Bank Blogs)
A conta chegou depois que Jair Bolsonaro foi removido à força da cena política.
O mesmo vale para a vacinação; Bolsonaro nunca impediu que o Brasil comprasse e aplicasse vacinas. Em março de 2021, seu governo já havia contratado ou assegurado mais de 562 milhões de doses para aquele ano. (Serviços e Informações do Brasil) Sua batalha política era, sobretudo, contra a obrigatoriedade e o passaporte sanitário. As “vacinas” nunca significaram que os vacinados fossem incapazes de contrair e transmitir o vírus - a própria evolução da pandemia tornou essa distinção impossível de esconder.
E havia os lockdowns; fechar negócios, impedir pessoas de trabalhar, restringir circulação e interromper atividades sociais não eram decisões médicas sem consequências. Eram escolhas políticas com custos econômicos, psicológicos, sociais e educacionais. Bolsonaro alertava para essa conta quando fazê-lo bastava para receber o rótulo de “negacionista”. Hoje sabemos que a pergunta nunca foi absurda: até que ponto era legítimo tentar salvar vidas de um vírus impondo medidas capazes de produzir danos profundos à própria sociedade? Era exatamente esse debate que Bolsonaro exigia.
E existe outro fato que a narrativa brasileira frequentemente omite: Bolsonaro nem sequer tinha poder para decidir sozinho como o país enfrentaria a pandemia.
Em abril de 2020, o STF assegurou a estados e municípios competência para adotar suas próprias medidas sanitárias. Governadores e prefeitos puderam fechar comércio, escolas e atividades e impor restrições independentemente da posição do presidente.
Bolsonaro combatia os lockdowns, enquanto governadores os decretavam. Bolsonaro defendia a reabertura do comércio, enquanto estados e municípios mantinham as restrições e multavam os “desobedientes” que insistiam em trabalhar para levar alimento para casa. Mas, quando chegou a hora de contar os mortos e distribuir responsabilidades, governadores desapareceram, prefeitos desapareceram e a divisão de competências desapareceu - sobrou apenas Bolsonaro.
Onde está essa revisão no Brasil? Onde está a mesma indignação? Onde estão os programas especiais perguntando o que sabíamos, o que não sabíamos e quem tinha o direito de decidir quais perguntas poderiam ser feitas?
A imprensa brasileira chegou a noticiar os novos episódios envolvendo Fauci de forma seletiva - o que não se vê na mesma proporção é o acerto de contas com a narrativa que ela própria ajudou a construir. Porque esse acerto de contas obrigaria a fazer uma pergunta proibida: e se Bolsonaro tivesse razão em pontos fundamentais pelos quais foi chamado de negacionista?
Era negacionismo alertar para o desastre educacional? Era negacionismo defender o direito ao trabalho? Era negacionismo questionar lockdowns indiscriminados? Era negacionismo rejeitar passaportes sanitários? Era negacionismo dizer que vacinados também poderiam transmitir o vírus? Era negacionismo perguntar sobre Wuhan? Ou “negacionismo” tornou-se simplesmente o rótulo utilizado para retirar do debate quem discordava do consenso dominante?
O homem apresentado como contraponto científico a figuras como Bolsonaro está sendo obrigado pelo Senado americano a responder sobre justamente aquele período negro. A comissão que o investiga quer respostas sobre origem da Covid, pesquisas financiadas pelos Estados Unidos, EcoHealth Alliance, transparência e declarações feitas ao Congresso. As acusações ainda precisam ser provadas, mas fingir que nada disso exige uma revisão seria jornalisticamente indefensável. (AP News)
Hoje não estamos mais em março de 2020, temos seis anos de distância, temos documentos, estudos, as consequências dos fechamentos, crianças que carregam perdas educacionais, milhares de vidas perdidas e auditorias sobre recursos americanos destinados a pesquisas envolvendo coronavírus em Wuhan. E temos Anthony Fauci diante do Senado americano, invocando a Quinta Emenda enquanto congressistas tentam obrigá-lo a responder por sua atuação naquele período.
Bolsonaro foi julgado e condenado durante a pandemia antes que tivéssemos todas as respostas. Agora que as perguntas chegaram até Fauci - tratado como dono delas - o mínimo que se esperaria seria a mesma disposição para revisitar o julgamento feito contra Bolsonaro.
Não para dizer que Bolsonaro acertou tudo, mas para admitir aquilo que seis anos de fatos tornaram impossível continuar escondendo: em questões centrais pelas quais foi massacrado, Bolsonaro tinha razão em exigir o livre debate.
E essa é justamente a notícia que parte da imprensa brasileira não quer dar: seis anos depois, os fatos começam a desmontar certezas que ela própria ajudou a transformar em verdades absolutas.
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