A VULNERABILIDADE DO PRODUTOR RURAL BRASILEIRO É ESTRUTURAL — E O MODELO BASEADO EM VOLUME ESTÁ ALIMENTANDO O PRÓPRIO ENDIVIDAMENTO DO CAMPO
Por Celso RicardoColunistaPublicado em 06/10/2026, 09:05Atualizado em 06/10/2026, 09:05

A VULNERABILIDADE DO PRODUTOR RURAL BRASILEIRO É ESTRUTURAL — E O MODELO BASEADO EM VOLUME ESTÁ ALIMENTANDO O PRÓPRIO ENDIVIDAMENTO DO CAMPO
Por Celso Ricardo Ferreira – Consultor em Gestão Estratégica em Agronegócio
O agronegócio brasileiro aprendeu a produzir em escala, aumentar produtividade física, ampliar áreas cultivadas, conquistar mercados internacionais e estabelecer sucessivos recordes de produção. O problema é que essa extraordinária capacidade produtiva não significa, necessariamente, que o produtor rural esteja se tornando economicamente mais forte. Ao contrário, enquanto o modelo continuar avaliando o desempenho do campo predominantemente pela quantidade produzida, pela expansão da oferta e pelos recordes de safra, uma parcela importante dos produtores continuará exposta a uma vulnerabilidade econômica, financeira, jurídica e operacional que tende a se aprofundar a cada novo ciclo.
Produzir mais não significa necessariamente ganhar mais. A produção física pode crescer enquanto a margem econômica diminui, enquanto o custo do capital aumenta, enquanto o fluxo de caixa se deteriora e enquanto o produtor precisa recorrer novamente ao crédito para financiar uma atividade que deveria gerar recursos suficientes para sustentar sua própria operação. É nesse ponto que precisamos abandonar uma visão simplificada de sucesso baseada em toneladas, arrobas, litros, hectares produzidos e volume exportado, porque a verdadeira sustentabilidade da atividade rural está na capacidade de transformar produção em riqueza, caixa, margem e retorno sobre o capital empregado.
O produtor rural trabalha com um dos ambientes econômicos mais complexos existentes, carregando simultaneamente riscos climáticos, biológicos, mercadológicos, cambiais, financeiros, tributários, logísticos e operacionais. Quando esse conjunto de riscos encontra uma atividade cuja margem econômica é insuficiente, o crédito deixa de ser apenas uma ferramenta de expansão e passa a funcionar como mecanismo permanente de sustentação financeira. O produtor produz, precisa de capital, contrata crédito, assume juros, compromete parte da receita futura, enfrenta uma nova necessidade de capital e retorna ao sistema financeiro. Quando esse ciclo se prolonga, o endividamento deixa de ser consequência excepcional de uma crise e passa a ser consequência previsível de uma estrutura econômica fragilizada.
É justamente por isso que as renegociações de dívidas tendem a ocupar um espaço cada vez maior nas próximas safras se o modelo econômico do campo não for corrigido. Uma renegociação pode reorganizar prazos, reduzir a pressão imediata sobre o caixa e permitir que o produtor continue operando, mas ela não representa, por si só, a recuperação econômica da atividade. Quando a causa estrutural permanece intacta, a dívida simplesmente muda de prazo, enquanto a necessidade de geração de caixa continua existindo. O produtor pode ganhar tempo sem necessariamente recuperar capacidade de pagamento.
A vulnerabilidade financeira também produz vulnerabilidade jurídica. Quando o produtor não consegue transformar sua produção em caixa suficiente para honrar compromissos, aquilo que começou como um problema econômico pode avançar para cobranças, garantias, renegociações, execuções, comprometimento patrimonial e restrições ao acesso ao crédito. A fragilidade financeira passa a limitar a liberdade operacional do produtor e, em determinados casos, pode comprometer a própria continuidade da atividade rural.
A vulnerabilidade operacional surge pelo mesmo caminho. Um produtor sem margem financeira suficiente perde capacidade de decidir com liberdade econômica. O investimento é adiado, a manutenção é postergada, a tecnologia deixa de ser incorporada no momento adequado, a compra de insumos passa a ser condicionada à disponibilidade imediata de recursos, a comercialização pode ocorrer em momentos desfavoráveis e o patrimônio produtivo pode ser utilizado para cobrir necessidades financeiras de curto prazo. A consequência é extremamente perigosa: o produtor pode continuar produzindo enquanto sua capacidade econômica de permanecer produzindo se deteriora.
Por isso, o Brasil precisa mudar o centro da discussão. Não se trata de abandonar a produção em volume, porque o país precisa continuar produzindo e ampliando sua capacidade de oferta. O que precisa mudar é a forma como avaliamos o resultado dessa produção. O volume deve ser o meio para gerar riqueza, e não o indicador final de sucesso econômico do produtor rural.
Precisamos começar a medir com muito mais profundidade a receita por hectare, o custo por hectare, a margem por hectare, a geração de caixa, o retorno sobre o capital empregado, a capacidade de pagamento, a capacidade de reinvestimento e a eficiência financeira da propriedade. Uma atividade rural verdadeiramente sustentável precisa ser capaz de remunerar adequadamente a terra, o capital, o trabalho, o risco e o conhecimento utilizados para produzir.
Enquanto continuarmos celebrando recordes de produção sem avaliar com a mesma intensidade quanto dessa produção efetivamente permanece como riqueza nas mãos de quem produz, estaremos olhando apenas para uma parte da realidade do campo. O Brasil pode ser uma potência mundial na produção de alimentos e, simultaneamente, possuir milhares de produtores economicamente vulneráveis, financeiramente pressionados e cada vez mais dependentes de renegociações para permanecerem na atividade.
Esse é o grande paradoxo que precisa ser enfrentado.
O Brasil aprendeu a produzir. Agora precisa aprender a fazer com que produzir seja economicamente sustentável para quem está dentro da porteira.
Porque um produtor rural economicamente vulnerável não possui apenas um problema individual. A fragilidade econômica de quem produz compromete investimento, sucessão, patrimônio, emprego, arrecadação, oferta futura de alimentos e a própria capacidade produtiva do país.
O futuro do agronegócio brasileiro não pode ser medido apenas pelo quanto o campo consegue produzir. Precisa ser medido também pela capacidade econômica de quem produz continuar produzindo, crescendo, investindo e gerando riqueza.
Enquanto isso não acontecer, a cada nova safra poderemos continuar comemorando recordes de produção e, ao mesmo tempo, acumulando uma realidade que ninguém deveria comemorar: um produtor rural cada vez mais vulnerável e cada vez mais dependente de crédito e renegociação para permanecer de pé.
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