Áudio liga dinheiro de negociação envolvendo Fávaro a pagamento de campanhas
Gravação cita pagamento de “contas das campanhas”, dinheiro movimentado “por fora”, cheque atribuído ao ex-ministro e recibo assinado por Irajá Lacerda
Por Deborah SenaColunistaPublicado em 02/10/2026, 06:13Atualizado em 02/10/2026, 06:13

Um áudio anexado ao processo sobre o empreendimento de mineração envolvendo o ex-ministro da Agricultura Carlos Fávaro (PSD-MT) abre uma nova frente no caso. Na gravação, empresários ligados ao negócio afirmam que parte do dinheiro teria sido usada para pagar “contas das campanhas”.
A conversa reúne os empresários Fabrício Stevan, Márcio Domingos Menegatti e Cláudio Henrique Teodoro de Almeida, todos envolvidos no negócio de minério localizado no estado do Mato Grosso. O ponto da discussão era o dinheiro: os três tentavam estabelecer como comprovar os valores investidos no empreendimento.
Stevan tinha transferências bancárias para demonstrar seus aportes. Menegatti e Cláudio estavam em situação diferente. Os dois afirmavam ter colocado R$ 20 milhões cada um no negócio e discutiam como comprovar a origem e a movimentação desses recursos.
É nesse momento que Cláudio fala em campanhas:
“Foi com dinheiro, que nós passou para pagar as contas das campanhas, temos os recibos, tá tudo nos recibos.”
Na sequência, Menegatti introduz o nome de Fávaro na conversa:
“Até o cheque do Fávaro tá com nós?”
Cláudio responde fazendo referência a “confissões de dívida”. Menegatti quer saber, então, se o cheque havia sido devolvido. Cláudio afirma acreditar que sim.
A gravação deixa pontas importantes em aberto. O áudio não identifica as campanhas mencionadas nem informa quanto dinheiro teria sido destinado a elas. Também não esclarece qual seria a relação entre o suposto cheque atribuído a Fávaro e o pagamento de despesas eleitorais.
O contexto em que essas referências aparecem, porém, é objetivo: os empresários discutiam como comprovar os aportes que dizem ter feito no empreendimento.
Dinheiro “por fora”
A conversa avança e a discussão passa à forma como o dinheiro teria circulado. Cláudio afirma que parte dos valores foi entregue em espécie. Menegatti diz ter chegado a enviar dinheiro de avião e afirma que o registro do voo poderia ser localizado na Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
Os interlocutores também mencionam vídeos de saques e da entrega de dinheiro.
É ao comparar sua situação à de Stevan que Menegatti reconhece não ter movimentado os recursos da mesma maneira:
“Porque você tem como provar que mandou o dinheiro. E eu? Foi por fora...”
A discussão sobre como provar os aportes traz à conversa outro nome ligado a Fávaro: Irajá Lacerda, que na época da conversa era secretário-executivo do Ministério da Agricultura.
Cláudio afirma:
“E outra coisa, nós temos o recibo assinado pelo Irajá, por tudo.”
Mais uma vez, a gravação não fecha a história. O áudio não informa o valor desse recibo, qual operação ele documentaria nem quem teria entregado ou recebido os recursos.
Irajá, porém, tem ligação direta com o empreendimento. Ele é sócio da Emplan Mineração, empresa que recebeu os R$ 80 milhões investidos por Stevan.
Stevan diz ter sido vítima de golpe
A discussão sobre a origem e a comprovação do dinheiro faz parte de uma disputa maior.
Stevan afirma que Menegatti e Cláudio o atraíram para o empreendimento por meio de uma relação de confiança e da promessa de que também investiriam milhões de reais de recursos próprios.
Ele sustenta que R$ 30 milhões foram desviados para uma empresa controlada por Menegatti e Cláudio, a MCL, e afirma que extratos bancários anexados ao processo comprovam o caminho do dinheiro.
A disputa já produziu decisões judiciais contra parte dos réus. A Justiça determinou o arresto de bens, imóveis, veículos e ativos. O Tribunal de Justiça do Paraná manteve as medidas ao apontar indícios de desvio de recursos e ocultação patrimonial.
Em nota enviada à reportagem, Stevan afirmou:
“Fabrício Stevan foi vítima de um golpe coordenado por Márcio Domingos Menegatti e Cláudio Henrique Teodoro de Almeida. Aproveitando-se de uma relação de confiança, eles o atraíram a investir em uma suposta operação de recuperação de ouro em Aripuanã (MT), à qual conferiram aparência de legitimidade — inclusive com a falsa promessa de que também aportariam vários milhões de reais em recursos próprios . Tudo muito bem pensado e elaborado, inclusive com uma visita técnica ao local.
Confiando nessa estrutura, Stevan aportou cerca de R$ 80 milhões. Parcela relevante desse valor (quase 30 milhões) foi desviada para empresa controlada por Márcio e Cláudio, tudo comprovado por extratos bancários de demonstram, de forma inequívoca, essa fraude.
A prova da fraude é tão contundente que o Poder Judiciário já se pronunciou e determinou o arresto de bens, imóveis, veículos e ativos dos responsáveis e das empresas a eles vinculadas; e o Tribunal de Justiça do Paraná manteve o bloqueio, reconhecendo fortes indícios de desvio e ocultação de patrimônio.
Permanecemos à disposição para os esclarecimentos adicionais que se fizerem necessários”
Conversa ocorreu em ano eleitoral
Há ainda um dado cronológico relevante para a compreensão da conversa: ela ocorreu no fim de 2022, ano de eleições gerais.
Naquele ano, Irajá Lacerda disputou uma vaga de deputado federal pelo PSD em Mato Grosso.
A gravação não associa o dinheiro à campanha de Irajá nem identifica qualquer candidatura como beneficiária dos valores. A coincidência de datas, portanto, não comprova uma relação entre o dinheiro e a candidatura.
Fávaro já aparecia nas negociações
O cheque mencionado no áudio não é a única referência a Fávaro no caso.
Como mostrou a primeira reportagem, documentos do processo citam o ex-ministro em diferentes momentos das negociações. Segundo os autos, Fávaro participou de um jantar ligado às tratativas do empreendimento e também apareceu em conversas sobre uma visita técnica à mineração.
Seu nome volta a surgir quando Stevan decide assumir o controle da operação para tentar recuperar o investimento.
Segundo a petição, em maio de 2024, Stevan e Fávaro organizaram um almoço com os envolvidos no empreendimento. Nesse encontro, o grupo concordou em retirar da Emplan o comando da operação e entregá-lo a Stevan.
Fávaro não é réu nem alvo das medidas cautelares determinadas no processo.
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