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Brasil

DA CARNE COMMODITY À CARNE DE VALOR

Celso Ricardo

Por Celso RicardoColunistaPublicado em 02/10/2026, 07:48Atualizado em 02/10/2026, 07:48

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DA CARNE COMMODITY À CARNE DE VALOR

DA CARNE COMMODITY À CARNE DE VALOR: O QUE BRASIL PODE APRENDER COM URUGUAI, ARGENTINA, ESTADOS UNIDOS E AUSTRÁLIA

Por Celso Ricardo Ferreira – Consultor em Gestão Estratégica em Agronegócio

O Brasil possui uma das maiores cadeias de produção de carne bovina do mundo, um rebanho de enorme dimensão, capacidade produtiva reconhecida internacionalmente e uma indústria frigorífica altamente estruturada. Ainda assim, existe uma contradição econômica que precisa ser enfrentada com seriedade: o país é uma potência mundial na produção de carne, mas ainda encontra enormes dificuldades para transformar essa capacidade produtiva em uma percepção internacional de valor proporcional à qualidade, à diversidade e ao potencial de sua produção. Enquanto países como Estados Unidos, Austrália, Uruguai e Argentina construíram mecanismos capazes de transformar atributos de qualidade, origem, rastreabilidade, padrão de produto e reputação em instrumentos de diferenciação econômica, o Brasil permanece fortemente associado à lógica de escala, volume e commodity.

A diferença não está na ausência de legislação sanitária nos países utilizados como referência. Pelo contrário, Estados Unidos, Austrália, Argentina e Uruguai possuem sistemas de controle, inspeção, rastreabilidade e segurança dos alimentos extremamente estruturados. O que merece atenção é a maneira como esses países organizam a legislação e as instituições para permitir que diferentes escalas de produtores e empresas possam acessar mercados, processamento e mecanismos de diferenciação. Nos Estados Unidos, por exemplo, existem programas estaduais de inspeção para estabelecimentos pequenos e muito pequenos, submetidos a requisitos equivalentes aos padrões federais, além do Cooperative Interstate Shipment Program, que permite a determinados estabelecimentos estaduais de pequeno porte acessar o comércio interestadual sob condições específicas. O sistema americano, portanto, não abandona a segurança sanitária para favorecer o pequeno produtor; ele cria caminhos regulatórios distintos para que estabelecimentos menores possam entrar formalmente no mercado.

Essa arquitetura regulatória está diretamente relacionada à capacidade de transformar qualidade em valor. Nos Estados Unidos, a inspeção sanitária e a classificação de qualidade são funções distintas. A inspeção é obrigatória, enquanto a classificação de qualidade é voluntária e pode utilizar padrões nacionais como USDA Prime, Choice e Select, baseados, entre outros atributos, no grau de marmoreio e em características associadas à experiência de consumo. O próprio USDA reconhece que esses padrões funcionam como uma linguagem comum da cadeia e como instrumento de comunicação da qualidade ao consumidor, permitindo que diferenças objetivas do produto sejam reconhecidas comercialmente. A existência de padrões de qualidade capazes de orientar preços, marcas e decisões de compra cria uma ponte econômica entre aquilo que acontece dentro da propriedade e aquilo que o consumidor está disposto a pagar.

A Argentina apresenta outro elemento particularmente relevante para o debate brasileiro. A regulamentação argentina atualmente reconhece categorias específicas de operadores da cadeia, inclusive a figura do pequeno produtor que realiza a atividade de abate de bovinos de sua propriedade dentro de determinadas condições e limites. Isso demonstra uma concepção regulatória que reconhece a heterogeneidade da cadeia e procura enquadrar diferentes modelos produtivos dentro de regras específicas, em vez de estruturar toda a atividade exclusivamente a partir do modelo industrial de grande escala. Ao mesmo tempo, a Argentina vem trabalhando na modernização de seu sistema voluntário de tipificação de qualidade da carne bovina, utilizando parâmetros objetivos como pH, marmoreio, área de olho de lombo, espessura de gordura e coloração, alinhados aos sistemas internacionais mais reconhecidos.

O Uruguai talvez ofereça uma das referências mais interessantes para o Brasil porque não trata a carne apenas como produto agropecuário, mas como ativo econômico, institucional e de imagem nacional. O Instituto Nacional de Carnes estabelece explicitamente como visão posicionar o Uruguai como fornecedor confiável de carnes de alto valor agregado e trabalhar pelo reconhecimento da marca setorial de carnes e das marcas de suas empresas. O país desenvolveu a marca Uruguay Meats, com a identidade Uruguay Beef, associando atributos como sustentabilidade, biodiversidade, saúde, raças, conhecimento, tecnologia, rastreabilidade e inocuidade. O próprio INAC informa que reformulou sua estrutura normativa sob o paradigma de flexibilização das exigências, mantendo foco em inocuidade e transparência comercial. Isso é particularmente importante porque demonstra que flexibilidade regulatória não significa redução do controle sanitário, mas adaptação das exigências à realidade dos diferentes agentes da cadeia.

A experiência uruguaia mostra também que legislação, qualidade e marketing podem fazer parte da mesma estratégia econômica. O país não se limita a produzir e exportar carne; investe na construção de uma identidade comercial associada à origem. O INAC possui representação de produtores e industriais em sua estrutura de governança, atua na promoção das carnes, trabalha com qualidade, transparência comercial, formalização e acesso a mercados, e utiliza campanhas específicas para aumentar o reconhecimento da marca Uruguay Beef em mercados internacionais. Entre 2023 e 2025, o país inclusive ampliou investimentos de marketing e promoveu ações junto a supermercados, restaurantes, chefs, consumidores e importadores em mercados como China, Japão, Coreia e Brasil.

A Austrália acrescenta outro componente fundamental: a transformação da rastreabilidade, da integridade e da experiência de consumo em ativos de marca. A Meat & Livestock Australia considera seus sistemas de integridade e rastreabilidade elementos capazes de fortalecer a confiança na carne australiana e contribuir para a percepção de prêmio no mercado. Estudos conduzidos pela própria organização mostram que a rastreabilidade pode funcionar como prova de origem e reforçar a credibilidade da carne australiana, enquanto iniciativas voltadas à qualidade sensorial são utilizadas para elevar os prêmios pagos ao longo da cadeia e fortalecer o reconhecimento das marcas australianas.

A legislação australiana também demonstra que é possível criar espaço regulatório para estruturas menores sem eliminar o controle sanitário. Em Victoria, por exemplo, foram adotadas mudanças para facilitar a implantação de microabatedouros em áreas rurais, especialmente para produtores de pequena e média escala, mantendo licenciamento, requisitos sanitários, ambientais e de bem-estar animal. A legislação e as orientações oficiais contemplam inclusive estruturas de pequeno porte e abatedouros móveis, permitindo que determinadas operações possam aproximar o processamento da propriedade rural. A mudança é economicamente relevante porque reduz uma das maiores barreiras enfrentadas pelos pequenos produtores: o acesso físico e econômico à estrutura de processamento.

Quando essa realidade é colocada ao lado do Brasil, surge uma diferença estrutural que merece muito mais atenção do que a simples comparação entre quantidade de normas. O Brasil possui uma legislação sanitária robusta e dispõe de mecanismos como SIF, SIE, SIM e SISBI-POA. O próprio MAPA estabelece que Estados, Distrito Federal, Municípios e consórcios municipais podem integrar seus serviços ao SISBI-POA desde que demonstrem equivalência de capacidade de inspeção e fiscalização. Portanto, seria tecnicamente incorreto afirmar que o Brasil não possui instrumentos para permitir a atuação de estabelecimentos menores ou regionais.

O problema brasileiro está em outra dimensão. Enquanto outros países vêm desenvolvendo, aperfeiçoando e integrando mecanismos de classificação, rastreabilidade, qualidade, identidade territorial, processamento de pequena escala e construção de marcas, o Brasil ainda apresenta uma dificuldade significativa em transformar esses instrumentos em uma arquitetura econômica capaz de fazer o produtor capturar parte maior do valor criado pela diferenciação da carne. Isso fica evidente no próprio debate oficial brasileiro sobre o CLASSIBOV. A proposta de criação de um Sistema Brasileiro de Classificação e Tipificação de Carcaças de Bovinos e Bubalinos e de um Selo Oficial de Qualidade vem sendo discutida há anos, mas documentos da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Carne Bovina mostram que, ainda em 2025, o tema permanecia em discussão e sem evolução suficiente para sua implementação definitiva.

Essa diferença é decisiva porque produzir qualidade e reconhecer economicamente a qualidade são duas coisas distintas. O Brasil pode produzir animais geneticamente superiores, sistemas de produção diferenciados, carne com excelente marmoreio, acabamento adequado, maciez, sabor, rastreabilidade e atributos ambientais relevantes, mas, se o sistema comercial não conseguir identificar, separar, certificar, comunicar e remunerar essas características, grande parte do valor econômico potencial desaparece dentro da cadeia. O produto continua sendo negociado predominantemente como matéria-prima, enquanto a diferenciação econômica acontece posteriormente nas etapas de industrialização, marca, distribuição, gastronomia e varejo.

É exatamente nesse ponto que a discussão sobre legislação se conecta à discussão sobre valor agregado. Uma legislação sanitária eficiente precisa proteger o consumidor e garantir a inocuidade do alimento, mas também precisa criar caminhos economicamente viáveis para que o produtor possa avançar na cadeia. O objetivo não deveria ser substituir o frigorífico industrial nem permitir abate comercial sem controle sanitário. O objetivo deveria ser construir uma escada regulatória capaz de permitir que o produtor, a associação de produtores, a cooperativa ou o empreendedor rural possa evoluir de uma pequena operação local para estruturas regionais e, posteriormente, para mercados mais amplos, conforme aumentem sua capacidade produtiva, seus investimentos, seus controles e sua conformidade.

O contraste fica ainda mais evidente quando se observa a relação entre legislação e marca. Nos Estados Unidos, a classificação USDA Prime, Choice e Select transformou atributos físicos da carne em uma linguagem comercial reconhecida pelo mercado. Na Austrália, sistemas de integridade, rastreabilidade e avaliação da qualidade sensorial são utilizados para fortalecer a confiança e sustentar a percepção de prêmio. No Uruguai, a estratégia nacional trabalha deliberadamente a origem, a rastreabilidade, a sustentabilidade, a qualidade e a marca Uruguay Beef como componentes de uma proposta de valor. Na Argentina, a tipificação busca aproximar o produto de parâmetros objetivos de qualidade reconhecidos internacionalmente.

O Brasil possui matéria-prima, escala, genética, tecnologia, diversidade de sistemas produtivos e capacidade industrial para fazer exatamente isso. O que ainda falta é uma arquitetura suficientemente integrada para transformar esses atributos em valor econômico reconhecido pelo mercado e, principalmente, em maior participação do produtor na margem gerada pela diferenciação. O próprio MAPA reconhece a necessidade de avançar em classificação e tipificação de carcaças, rastreabilidade e identificação individual, enquanto o setor discute há anos mecanismos para estabelecer critérios objetivos de qualidade.

A questão central, portanto, não é defender uma legislação brasileira menos rigorosa. É defender uma legislação mais inteligente, proporcional, escalonada e economicamente funcional. O Brasil precisa sair de uma lógica em que a legislação é percebida principalmente como instrumento de fiscalização e passar para uma concepção em que regulação, qualidade, rastreabilidade, processamento, identidade, marca e mercado façam parte de uma mesma estratégia de desenvolvimento da cadeia bovina.

O produtor rural precisa deixar de ser apenas o fornecedor da matéria-prima para se tornar também um participante da construção do produto de maior valor. Isso pode ocorrer por meio de propriedades especializadas, associações, cooperativas, marcas coletivas, pequenas unidades de processamento, microabatedouros, unidades regionais, programas de qualidade, protocolos privados, rastreabilidade e integração com frigoríficos e canais de comercialização. O ponto fundamental é que o sistema regulatório não deve fechar a porta para essas possibilidades antes mesmo que elas possam se tornar economicamente viáveis.

A experiência dos quatro países demonstra que carne de valor não nasce apenas dentro do frigorífico. Ela nasce na combinação entre genética, manejo, alimentação, bem-estar, sanidade, classificação, rastreabilidade, processamento, segurança alimentar, experiência sensorial, origem, comunicação e confiança. A legislação tem papel central nessa arquitetura porque determina não apenas aquilo que pode ser produzido, mas também quem consegue participar das etapas seguintes da cadeia e em quais condições.

O Brasil aprendeu a produzir carne bovina em escala mundial. O próximo salto não depende simplesmente de produzir mais toneladas ou abater mais animais. Depende de transformar qualidade em informação, informação em diferenciação, diferenciação em marca e marca em margem econômica. É nessa passagem que está uma parcela relevante do futuro da pecuária brasileira.

Enquanto o Brasil continuar vendendo predominantemente a matéria-prima e deixando que outros elos da cadeia construam a percepção de qualidade, definam a marca e capturem a maior parcela do valor agregado, continuará sendo reconhecido principalmente pela capacidade de produzir volume. Estados Unidos, Austrália, Argentina e Uruguai demonstram que a competitividade internacional da carne não depende somente da quantidade produzida, mas da capacidade de transformar atributos objetivos em confiança, confiança em reputação e reputação em preço.

A grande mudança necessária para a pecuária brasileira é, portanto, econômica e institucional: não basta produzir uma carne de qualidade; é necessário construir um sistema capaz de identificar essa qualidade, proteger sua origem, permitir sua transformação, comunicar seus atributos, criar marcas reconhecidas e remunerar economicamente cada etapa que acrescenta valor ao produto.

Essa é a diferença entre uma cadeia que simplesmente produz carne e uma cadeia que constrói valor com a carne.

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