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Brasil

DÉFICIT NAS CONTAS EXTERNAS E DÍVIDA PÚBLICA: A PRESSÃO SOBRE O PRODUTOR RURAL

Celso Ricardo

Por Celso RicardoColunistaPublicado em 05/10/2026, 08:11Atualizado em 05/10/2026, 08:11

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DÉFICIT NAS CONTAS EXTERNAS E DÍVIDA PÚBLICA: A PRESSÃO SOBRE O PRODUTOR RURAL

DÉFICIT NAS CONTAS EXTERNAS E DÍVIDA PÚBLICA: A PRESSÃO SOBRE O PRODUTOR RURAL

Por Celso Ricardo Ferreira – Consultor em Gestão Estratégica em Agronegócio

O déficit nas contas externas e o crescimento da dívida pública brasileira merecem atenção do agronegócio porque seus efeitos podem atingir diretamente os custos de produção, o acesso ao crédito e a capacidade de investimento dentro da porteira. A previsão do Banco Central de um déficit de US$ 60 bilhões em transações correntes em 2026 e a projeção do Fundo Monetário Internacional de uma dívida bruta equivalente a 104,8% do PIB em 2030, pela metodologia do organismo, apontam desafios distintos que podem ampliar a pressão financeira sobre quem produz.

No caso das contas externas, o risco aumenta quando a necessidade de financiamento do país encontra dificuldades para ser atendida pela entrada de investimentos e outros recursos estrangeiros. Se esse cenário pressionar a desvalorização do real, fertilizantes, defensivos e componentes importados podem ficar mais caros, elevando o dinheiro necessário para conduzir a produção. Ao mesmo tempo, condições externas de financiamento mais restritivas podem dificultar a compra de insumos, a realização de investimentos e o financiamento das operações comerciais das empresas que integram a cadeia do agronegócio.

A instabilidade cambial também compromete o planejamento da atividade, porque altera os custos de aquisição, as receitas das vendas e o valor das obrigações em moeda estrangeira. Embora a valorização do dólar possa beneficiar a receita em reais de quem exporta, esse ganho precisa ser confrontado com o aumento dos insumos importados e das despesas vinculadas à moeda americana. O resultado depende da estrutura de cada negócio, e o aumento da receita de exportação não assegura, por si só, uma margem maior para o produtor.

O crescimento da dívida pública atua por outro caminho, especialmente quando aumenta a desconfiança sobre a capacidade do governo de estabilizar suas contas. Essa percepção pode elevar os juros exigidos pelo mercado e encarecer o financiamento para custeio, investimento e renegociação, fazendo com que uma parcela maior da renda seja consumida pelas despesas financeiras. Para o produtor que já carrega dívidas de ciclos anteriores, o crédito mais caro pode aprofundar a dificuldade de recuperar o caixa e financiar a continuidade da atividade.

O peso dos juros e das despesas obrigatórias também reduz o espaço orçamentário para políticas públicas e investimentos produtivos. Para o agro, isso representa o risco de restrições aos recursos destinados à subvenção do seguro rural, à equalização dos juros e a iniciativas de recuperação financeira, além de limitações para melhorar estradas, portos e outras estruturas logísticas. A insuficiência desses investimentos mantém custos de transporte e comercialização elevados, comprometendo parte do resultado que o produtor constrói dentro da propriedade.

O problema das contas do país chega dentro da porteira quando o produtor precisa de mais dinheiro para produzir, paga mais pelo financiamento e encontra menos apoio para enfrentar os riscos da atividade. Esses efeitos não são inevitáveis, mas precisam ser considerados nas decisões econômicas e na formulação da política agrícola, sobretudo para quem já trabalha com margem apertada e pouca capacidade de absorver novos custos.

Responsabilidade com as contas públicas e atenção à vulnerabilidade externa também fazem parte da proteção de quem produz, porque a continuidade do agronegócio depende de condições para pagar as contas, remunerar o trabalho, investir e preservar o patrimônio. O Brasil precisa combinar sua capacidade produtiva com uma economia que permita ao produtor transformar produção em renda, evitando que uma nova safra termine apenas com mais compromissos financeiros acumulados.

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