FMI REDUZ PROJEÇÕES DO BRASIL: O FRACASSO DE UMA ESTRATÉGIA ECONÔMICA QUE NÃO TRANSFORMA O POTENCIAL PRODUTIVO EM DESENVOLVIMENTO
Por Celso RicardoColunistaPublicado em 21/10/2026, 08:05Atualizado em 21/10/2026, 08:05

FMI REDUZ PROJEÇÕES DO BRASIL: O FRACASSO DE UMA ESTRATÉGIA ECONÔMICA QUE NÃO TRANSFORMA O POTENCIAL PRODUTIVO EM DESENVOLVIMENTO
Por Celso Ricardo Ferreira – Consultor em Gestão Estratégica em Agronegócio
O Fundo Monetário Internacional acaba de apresentar um sinal de alerta que deveria provocar uma profunda reflexão sobre os rumos da economia brasileira. As projeções de crescimento do Produto Interno Bruto foram reduzidas de 2,4% para 2,2% em 2026 e de 2,2% para 1,9% em 2027. Embora esses números não representem uma previsão de recessão, revelam a expectativa de desaceleração de uma economia que possui extraordinária capacidade produtiva, recursos naturais, potencial industrial e condições para alcançar resultados muito superiores aos atualmente projetados.
O problema brasileiro não está apenas na revisão dos indicadores econômicos, mas na persistência de dificuldades estruturais que atravessam governos e continuam sem respostas suficientemente eficazes. Juros elevados, endividamento público crescente, limitações fiscais, baixa produtividade em diferentes segmentos e dificuldades de financiamento comprometem a capacidade de investimento e restringem as possibilidades de crescimento sustentado.
O atual governo precisa responder por suas prioridades e pelos resultados de sua política econômica. Apesar das iniciativas anunciadas, dos programas de financiamento, dos investimentos públicos e das reformas em implementação, permanece uma questão fundamental: em que medida essas ações estão efetivamente fortalecendo a capacidade econômica e financeira da base produtiva brasileira?
A política econômica não pode ser avaliada exclusivamente pelo crescimento do consumo, pela arrecadação tributária, pela ampliação dos gastos públicos ou pela divulgação de programas governamentais. Seu desempenho também precisa ser medido pela capacidade de estimular investimentos privados, aumentar a produtividade, reduzir riscos, melhorar o ambiente de negócios e assegurar condições sustentáveis de crescimento para quem produz.
O Brasil não precisa apenas de políticas que movimentem temporariamente a economia. Precisa de uma estratégia nacional capaz de ampliar permanentemente sua capacidade de produzir riqueza.
Nesse contexto, o agronegócio representa um dos exemplos mais evidentes das contradições brasileiras. Enquanto o governo comemora safras recordes, exportações bilionárias e a participação do setor no Produto Interno Bruto, milhares de produtores enfrentam dificuldades relacionadas aos custos de produção, ao endividamento, aos juros, à volatilidade dos preços e à redução da capacidade de reinvestimento.
O crescimento da produção agropecuária não significa, necessariamente, crescimento da rentabilidade. O aumento das exportações não garante melhoria da situação financeira das propriedades rurais. Da mesma forma, a ampliação da oferta de crédito não representa desenvolvimento econômico quando o financiamento apenas permite a continuidade de atividades que não conseguem gerar resultados suficientes para cumprir seus compromissos financeiros.
Essa é uma deficiência que precisa ser enfrentada pelas políticas públicas brasileiras: a ausência de uma avaliação sistemática da capacidade econômica e financeira dos produtores rurais como referência central para o planejamento do setor.
O Plano Safra, os programas de renegociação de dívidas, os instrumentos de seguro rural e as políticas de financiamento precisam ser avaliados não apenas pelos recursos anunciados, mas pelos resultados efetivamente alcançados na recuperação da rentabilidade, na redução dos riscos e na capacidade de investimento das propriedades.
Não existe desenvolvimento econômico sustentável quando a base produtiva precisa aumentar continuamente sua produção apenas para tentar compensar custos crescentes, juros elevados e margens financeiras cada vez mais pressionadas.
Outro aspecto preocupante é a situação das contas públicas. O FMI tem alertado para a necessidade de maior esforço fiscal, melhoria da eficiência dos gastos e medidas capazes de colocar a dívida pública em uma trajetória sustentável. O endividamento governamental elevado reduz a margem de atuação do Estado, aumenta sua exposição ao custo de financiamento e pode comprometer a disponibilidade futura de recursos para investimentos e políticas públicas.
É necessário reconhecer que o crescimento da dívida pública não decorre exclusivamente das decisões do atual governo, assim como os juros elevados também refletem fatores monetários e internacionais. Entretanto, cabe à administração federal apresentar uma estratégia fiscal consistente, capaz de fortalecer a confiança, reduzir incertezas e criar condições para a expansão dos investimentos produtivos.
A questão não é simplesmente gastar mais ou gastar menos. É definir prioridades, avaliar resultados e garantir que os recursos públicos contribuam efetivamente para o aumento da capacidade econômica do país.
O governo Lula também precisa ser avaliado pela capacidade de transformar iniciativas econômicas em ganhos estruturais de produtividade e competitividade. A reforma tributária sobre o consumo representa uma mudança institucional relevante, mas seus benefícios dependem da implementação e não eliminam, por si só, os problemas de infraestrutura, financiamento, burocracia, insegurança regulatória e baixa eficiência econômica.
O Brasil necessita de uma política de desenvolvimento que integre agricultura, pecuária, indústria, infraestrutura, tecnologia, comércio exterior e serviços. Não podemos continuar tratando esses segmentos como estruturas isoladas, quando todos fazem parte de um sistema econômico profundamente interdependente.
Uma economia não se fortalece apenas porque produz mais. Ela se fortalece quando consegue transformar produção em renda, renda em investimento, investimento em produtividade e produtividade em desenvolvimento.
No agronegócio, essa transformação exige uma mudança profunda de paradigma. O Ministério da Agricultura precisa ultrapassar a lógica predominante de acompanhamento da produção, defesa sanitária, fiscalização e abertura de mercados, incorporando uma atuação estratégica voltada à geração de valor, à diversificação comercial, à rentabilidade e à estabilidade financeira dos produtores.
O país precisa de indicadores que revelem quanto os produtores efetivamente ganham, quanto devem, qual é sua capacidade de pagamento, quanto conseguem reinvestir e quais atividades estão perdendo viabilidade econômica. Sem essas informações, o planejamento governamental corre o risco de continuar priorizando o crescimento quantitativo sem compreender adequadamente suas consequências financeiras.
A redução das projeções do FMI não constitui, isoladamente, uma condenação da política econômica brasileira. O próprio Fundo reconhece avanços institucionais e a capacidade de resistência da economia diante de choques internacionais. Entretanto, suas avaliações também evidenciam desafios fiscais, monetários e estruturais que exigem respostas consistentes.
O que precisa ser questionado é se o conjunto das políticas econômicas atualmente adotadas possui força suficiente para enfrentar esses desafios e elevar de maneira duradoura o potencial de crescimento brasileiro.
O Brasil não pode se conformar com a perspectiva de crescer menos de 2% em 2027 sem discutir profundamente as razões que limitam sua capacidade de desenvolvimento. Muito menos pode continuar celebrando resultados isolados enquanto setores produtivos enfrentam dificuldades para transformar seu esforço econômico em rentabilidade, estabilidade e expansão dos investimentos.
O verdadeiro compromisso de um governo com o desenvolvimento nacional não deve ser medido pela quantidade de programas anunciados, mas pela capacidade de construir condições para que empresas, indústrias e produtores rurais cresçam de maneira economicamente sustentável.
O país possui condições de ampliar sua participação nos mercados internacionais, agregar valor às matérias-primas, desenvolver cadeias industriais, aumentar a produtividade e gerar riqueza em diferentes regiões. Entretanto, essas oportunidades exigem planejamento de longo prazo, estabilidade institucional, responsabilidade fiscal, segurança jurídica e políticas públicas orientadas por resultados econômicos verificáveis.
A responsabilidade do atual governo é apresentar respostas concretas a essas necessidades. Não basta atribuir o crescimento insuficiente aos juros, às crises internacionais ou às dificuldades herdadas de administrações anteriores. Esses fatores precisam ser considerados, mas não substituem a obrigação de formular e executar uma estratégia nacional de desenvolvimento.
O Brasil precisa deixar de administrar suas dificuldades econômicas como situações permanentes e começar a enfrentar suas causas estruturais.
A revisão das projeções do FMI deve servir como um alerta para uma mudança de prioridades. O país precisa de uma política econômica que fortaleça a produção, estimule investimentos, aumente a eficiência do gasto público, preserve a estabilidade fiscal e transforme sua extraordinária capacidade produtiva em prosperidade.
O maior problema do Brasil não é a falta de capacidade para produzir riqueza. É a dificuldade histórica de transformar essa capacidade em desenvolvimento econômico consistente, rentabilidade para quem produz e melhoria sustentável das condições de vida da população.
Enquanto o governo continuar medindo seus resultados principalmente pelos indicadores que consegue anunciar, sem avaliar com a mesma intensidade a saúde econômica de sua base produtiva, o Brasil continuará convivendo com uma contradição: possuir potencial de potência econômica e apresentar resultados de crescimento inferiores às suas possibilidades.
O Brasil não precisa apenas crescer. Precisa aprender a transformar crescimento em riqueza, riqueza em investimento e investimento em desenvolvimento nacional.
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