NOS ESTADOS UNIDOS, O GOVERNO PROTEGE A RENDA DO PRODUTOR RURAL. NO BRASIL, O GOVERNO OFERECE MAIS CRÉDITO PARA QUEM JÁ NÃO CONSEGUE PAGAR AS DÍVIDAS.
Por Celso RicardoColunistaPublicado em 23/10/2026, 07:50Atualizado em 23/10/2026, 07:50

NOS ESTADOS UNIDOS, O GOVERNO PROTEGE A RENDA DO PRODUTOR RURAL. NO BRASIL, O GOVERNO OFERECE MAIS CRÉDITO PARA QUEM JÁ NÃO CONSEGUE PAGAR AS DÍVIDAS.
Por Celso Ricardo Ferreira – Consultor em Gestão Estratégica em Agronegócio
A diferença entre a política agrícola dos Estados Unidos e a política agrícola brasileira não está simplesmente no volume de recursos disponibilizados, mas na maneira como cada governo compreende a importância econômica do produtor rural. Enquanto os americanos possuem instrumentos permanentes de proteção de renda, compensação de perdas, gestão de riscos e conservação remunerada, o Brasil continua excessivamente dependente de uma política baseada na concessão de crédito, na ampliação da produção e na renegociação de dívidas que se acumulam ao longo dos anos. O resultado dessa diferença aparece na realidade financeira de quem produz: de um lado, mecanismos que procuram amortecer os prejuízos; do outro, produtores que frequentemente precisam assumir novos compromissos financeiros para continuar trabalhando.
No dia 19 de outubro de 2026, o governo americano anunciou, por intermédio do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a disponibilização de US$ 8 bilhões em auxílio emergencial aos produtores rurais, por meio do Harvest Fuel Relief Program. A medida foi apresentada como resposta ao aumento dos custos dos insumos, especialmente dos combustíveis, e às dificuldades econômicas enfrentadas pelos agricultores durante a safra. O programa prevê pagamentos calculados com base em parâmetros econômicos, incluindo área cultivada, custos estimados de produção, produtividade e preços agrícolas. Em outras palavras, o governo reconheceu que o aumento dos custos compromete a rentabilidade e decidiu utilizar recursos públicos para compensar parte dessas perdas.
E não estamos falando de uma iniciativa isolada. Segundo o próprio USDA, anteriormente foram destinados US$ 12 bilhões ao Farmer Bridge Assistance, beneficiando mais de 560 mil agricultores, além de aproximadamente US$ 14 bilhões em pagamentos brutos vinculados aos programas Agriculture Risk Coverage (ARC) e Price Loss Coverage (PLC). Esses mecanismos possuem regras e finalidades distintas, mas revelam uma característica importante da política agrícola americana: o governo dispõe de instrumentos para intervir financeiramente quando as condições econômicas ameaçam a renda dos produtores.
Os Estados Unidos também mantêm o Conservation Reserve Program (CRP), que remunera produtores e proprietários rurais pela retirada voluntária de determinadas áreas ambientalmente sensíveis da produção agrícola, mediante compromissos de conservação. Embora seu objetivo oficial seja ambiental, e não a sustentação artificial dos preços, o programa demonstra que o Estado americano reconhece economicamente serviços prestados pelo produtor que vão além da comercialização de alimentos. Historicamente, os americanos também utilizaram políticas de redução de área cultivada para administrar excedentes e sustentar preços agrícolas.
Enquanto os Estados Unidos possuem instrumentos que remuneram a conservação, compensam perdas e protegem parte da renda agrícola, o Brasil continua tratando a capacidade de endividamento como se fosse sinônimo de desenvolvimento rural.
O governo brasileiro anunciou R$ 525,1 bilhões em crédito para a agricultura empresarial no Plano Safra 2026/2027. O número impressiona quando apresentado em solenidades oficiais, mas esconde uma questão fundamental: crédito não é renda, financiamento não é lucro e dinheiro emprestado não representa necessariamente fortalecimento econômico. O produtor recebe recursos que precisam ser devolvidos com juros, enquanto continua exposto às oscilações de preços, às perdas climáticas, aos custos financeiros e às dificuldades de comercialização.
O problema não é a existência do Plano Safra, mas a insistência em apresentá-lo como principal resposta às necessidades econômicas do campo. De que adianta disponibilizar bilhões em financiamentos quando uma parcela dos produtores já está financeiramente comprometida e encontra dificuldades para atender às exigências bancárias? De que adianta anunciar recursos para investimento quando a renda gerada pela atividade não consegue sustentar os compromissos anteriormente assumidos?
O governo brasileiro precisa compreender que não se recupera um produtor endividado simplesmente oferecendo a possibilidade de contrair novas dívidas. Sem recuperação da capacidade de pagamento, reestruturação financeira e condições efetivas de rentabilidade, o crédito pode apenas prolongar uma crise que deveria estar sendo enfrentada em sua origem.
E aqui está uma das minhas críticas mais contundentes ao Ministério da Agricultura e Pecuária. Na minha avaliação, o MAPA precisa deixar de funcionar predominantemente como um balcão de atendimento às demandas comerciais, aos interesses empresariais e às negociações políticas que cercam o agronegócio. O Ministério não pode continuar concentrando sua atuação em abertura de mercados, registros, fiscalização, defesa sanitária e anúncios de financiamento, enquanto a estabilidade econômica e financeira do produtor permanece sem uma política nacional suficientemente abrangente.
Essas atribuições são importantes, mas não substituem uma estratégia de desenvolvimento econômico dentro da propriedade rural. O Ministério da Agricultura precisa assumir responsabilidade não apenas pelas condições de produção e comercialização, mas também pela construção de políticas capazes de melhorar a renda, a margem operacional, o fluxo de caixa e a capacidade de investimento de quem produz.
Também é necessário enfrentar a influência dos grandes interesses econômicos sobre a definição das prioridades nacionais. Quando a política agrícola se orienta excessivamente pelas necessidades de comercialização, processamento e exportação, sem instrumentos equivalentes de proteção da renda na origem, corre-se o risco de fortalecer os demais elos da cadeia produtiva enquanto o produtor rural continua absorvendo uma parcela desproporcional dos riscos econômicos. É justamente essa distribuição de riscos e resultados que precisa ser colocada no centro do debate nacional.
Os Estados Unidos também enfrentam crises agrícolas, endividamento, oscilações de preços e dificuldades financeiras. Seus programas não eliminam esses problemas e tampouco garantem rentabilidade a todos os agricultores. Entretanto, existe uma diferença institucional que merece atenção: o USDA dispõe de mecanismos estruturados de acompanhamento econômico, estimativas de custos, monitoramento de mercados, cobertura de riscos e pagamentos de apoio à renda. A política agrícola americana não depende exclusivamente da disposição dos bancos em conceder novos empréstimos.
No Brasil, embora existam seguro rural, Proagro, subvenções, equalização de juros e mecanismos de renegociação, esses instrumentos ainda não constituem uma resposta suficientemente integrada à dimensão dos problemas financeiros enfrentados por muitos produtores. O país precisa abandonar a lógica de que basta anunciar recursos e esperar que o aumento da produção resolva as dificuldades econômicas.
O Brasil necessita urgentemente de um Programa Nacional de Recuperação Econômica e Financeira do Produtor Rural, com diagnóstico individualizado do endividamento, reestruturação dos passivos, carências compatíveis com a recuperação da capacidade de pagamento, instrumentos de proteção da renda, seguro rural mais abrangente, inteligência de mercado e indicadores permanentes de eficiência financeira.
Também precisamos de um sistema nacional que permita identificar quanto custa produzir, quanto efetivamente retorna ao produtor, qual é sua margem operacional, qual é o comprometimento de sua receita com dívidas e qual é sua capacidade real de investimento. Sem essas informações, o governo continuará medindo o desempenho do agronegócio por indicadores que não revelam necessariamente a situação econômica das propriedades.
O mais preocupante é que a discussão brasileira permanece excessivamente concentrada na disponibilidade de financiamento, quando deveria começar pela capacidade de gerar renda suficiente para remunerar o trabalho, o capital e o risco assumido pelo produtor. Essa inversão de prioridades ajuda a explicar por que as renegociações se repetem, os passivos se acumulam e tantas propriedades continuam financeiramente vulneráveis, mesmo mantendo suas atividades produtivas.
A experiência americana não deve ser copiada indiscriminadamente. Seus programas também possuem custos fiscais, limitações e efeitos sobre a concorrência internacional. Entretanto, o Brasil precisa compreender a lógica econômica que sustenta esses instrumentos: proteger a capacidade produtiva de um país exige, em determinadas circunstâncias, proteger financeiramente aqueles que assumem os riscos da produção.
O produtor rural brasileiro não precisa de discursos de reconhecimento, homenagens institucionais ou comemorações oficiais que não se traduzam em melhoria de sua situação econômica. Precisa de políticas públicas que reduzam seus riscos, recuperem sua capacidade financeira e permitam que produzir volte a representar uma atividade economicamente sustentável.
CONCLUSÃO
Os Estados Unidos demonstram, por meio de programas concretos, que a política agrícola pode ir além da oferta de crédito e atuar diretamente na proteção da renda. O Brasil, por sua vez, precisa romper com um modelo que continua tratando o financiamento como principal instrumento de desenvolvimento, mesmo diante do endividamento acumulado e da fragilidade financeira de parte expressiva da base produtiva.
O Ministério da Agricultura não pode ser avaliado apenas pelo número de mercados abertos, pelos financiamentos anunciados ou pelas negociações conduzidas com grandes grupos econômicos. Precisa ser cobrado pela contribuição efetiva de suas políticas para a estabilidade financeira, a rentabilidade e a capacidade de investimento do produtor rural.
A diferença fundamental é esta: enquanto os Estados Unidos possuem instrumentos para ajudar o agricultor a enfrentar perdas econômicas sem depender exclusivamente de novos empréstimos, o Brasil ainda precisa construir uma política capaz de impedir que a sobrevivência financeira do produtor dependa permanentemente do endividamento.
Um país que precisa renegociar continuamente as dívidas de quem produz não pode continuar apresentando a expansão do crédito como prova suficiente de sucesso de sua política agrícola.
O verdadeiro desenvolvimento do agronegócio não será medido pelo dinheiro que o produtor consegue tomar emprestado, mas pela riqueza que consegue gerar, preservar e reinvestir dentro de sua propriedade.
Comentários
Todos os comentários passam por moderação antes da publicação. Respeite as regras de convivência: não são permitidos discurso de ódio, ofensas ou spam.



