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Brasil

O AGRO BRASILEIRO PRECISA MUDAR — E NÃO É NA PRODUÇÃO

Celso Ricardo

Por Celso RicardoColunistaPublicado em 01/10/2026, 10:15Atualizado em 01/10/2026, 10:15

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O AGRO BRASILEIRO PRECISA MUDAR — E NÃO É NA PRODUÇÃO

O AGRO BRASILEIRO PRECISA MUDAR — E NÃO É NA PRODUÇÃO

Por Celso Ricardo Ferreira – Consultor em Gestão Estratégica em Agronegócio

O agronegócio brasileiro construiu, ao longo das últimas décadas, uma extraordinária capacidade de produzir, aumentar produtividade, incorporar tecnologia e conquistar mercados. Entretanto, existe uma diferença fundamental entre reconhecer esses avanços e aceitar que o modelo atual seja suficiente para enfrentar os problemas econômicos e financeiros que continuam aparecendo dentro das propriedades rurais. Quando endividamento, renegociação de dívidas, dificuldade de acesso ao crédito, margens comprimidas e perda de capacidade de investimento voltam repetidamente ao centro das discussões, é necessário reconhecer que alguma coisa precisa mudar.

Há muito tempo venho defendendo justamente essa mudança de perspectiva. Meu trabalho deixou de se limitar à identificação dos problemas porque acredito que apontar aquilo que está errado, sem apresentar alternativas, pouco contribui para transformar a realidade. Por isso, tenho procurado construir propostas, modelos e caminhos relacionados à eficiência financeira, recuperação econômica dos produtores, seguro rural, assistência técnica, inteligência de mercado, agregação de valor, gestão, endividamento, crédito e planejamento de longo prazo para o agronegócio brasileiro.

Ao longo dessa caminhada, algumas dessas ideias chegaram a produtores rurais e também a pessoas que ocuparam posições importantes no agronegócio brasileiro. Tive a oportunidade de conversar sobre meu trabalho com nomes como Alysson Paolinelli, Roberto Rodrigues e Marcos Montes, além de outras lideranças e autoridades. Esse reconhecimento tem para mim um significado muito maior do que qualquer valorização pessoal: demonstra que existe espaço para discutir novas abordagens e que propostas construídas a partir da realidade econômica da propriedade rural merecem participar do debate nacional.

O Brasil precisa superar a ideia de que o sucesso da política agrícola pode ser medido principalmente pelo tamanho da safra, pelo volume exportado ou pelos bilhões anunciados em crédito. Esses números são importantes, mas não mostram, isoladamente, quanto permanece com o produtor, qual margem foi gerada, quanto do crescimento foi financiado por dívida, qual foi a geração de caixa ou se houve aumento real do patrimônio.

É exatamente nesse ponto que defendo uma mudança de comportamento também dentro do Ministério da Agricultura. O Ministério precisa continuar olhando para produção, sanidade, mercados e produtividade, mas precisa incorporar com muito mais força a economia da propriedade rural. Precisamos medir margem, liquidez, endividamento, capacidade de pagamento, retorno sobre o capital e geração de patrimônio. A política agrícola precisa começar a avaliar não somente quanto o produtor consegue produzir, mas se ele consegue permanecer economicamente saudável produzindo.

Da mesma forma, precisamos abandonar uma política predominantemente reativa, na qual os problemas se acumulam até que seja necessário discutir novamente prorrogações, renegociações e medidas emergenciais. Renegociar uma dívida pode ser necessário diante de determinadas circunstâncias, mas não pode substituir uma estratégia destinada a enfrentar as causas que levam produtores repetidamente à necessidade de renegociar.

É por isso que tenho insistido em propostas estruturantes. Inteligência de mercado antes da produção. Seguro rural capaz de reduzir efetivamente o risco. Assistência técnica que enxergue também o balanço financeiro. Diagnóstico nacional do endividamento. Programas permanentes de recuperação econômica. Indicadores de eficiência financeira. Agregação de valor e acesso a mercados capazes de remunerar qualidade. Crédito associado à capacidade econômica e ao planejamento, e não simplesmente ao aumento da dívida.

Não se trata de produzir menos. Trata-se de fazer com que toda a extraordinária capacidade produtiva construída pelo Brasil seja acompanhada pela mesma competência em gestão, estratégia, comercialização e geração de riqueza dentro da propriedade.

O agronegócio brasileiro não precisa abandonar aquilo que fez corretamente. Precisa ter coragem para corrigir aquilo que já não responde aos problemas atuais.

Talvez essa seja a principal mudança que venho defendendo em todos esses anos: sair da obsessão pela balança de peso e começar a olhar, definitivamente, para o balanço financeiro do produtor rural.

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