O AGRONEGÓCIO COMO EIXO ESTRATÉGICO DO DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO BRASILEIRO
Por Celso RicardoColunistaPublicado em 10/10/2026, 07:52Atualizado em 10/10/2026, 07:52

O AGRONEGÓCIO COMO EIXO ESTRATÉGICO DO DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO BRASILEIRO
Por Celso Ricardo Ferreira — Consultor em Gestão Estratégica em Agronegócio
O planejamento econômico brasileiro precisa incorporar uma compreensão mais ampla do agronegócio: um sistema que articula produção, indústria, serviços, comércio, financiamento e relações internacionais, com efeitos sobre a geração de renda e o desenvolvimento territorial. Sua importância exige uma política pública capaz de conectar a competitividade das cadeias produtivas à viabilidade econômica de quem produz. A capacidade de colher, processar e exportar precisa ser acompanhada pela capacidade de remunerar o capital investido, sustentar empregos e financiar novos ciclos de desenvolvimento.
Essa compreensão atribui ao Ministério da Agricultura uma responsabilidade estratégica na condução econômica do país. Além das funções essenciais de defesa sanitária, fiscalização e acesso a mercados, a pasta deve produzir inteligência sobre custos, margens, endividamento, riscos e investimentos nas diferentes atividades agropecuárias. Essas informações precisam orientar uma atuação integrada com os órgãos responsáveis pelas políticas econômica, fiscal, comercial e de infraestrutura, permitindo que as decisões nacionais considerem seus efeitos sobre a base produtiva e sobre as atividades que dela dependem.
A conexão entre a situação financeira do produtor e a economia brasileira pode ser observada nos mecanismos de transmissão da renda. Uma propriedade com resultado econômico positivo e geração de caixa tem melhores condições de contratar serviços, adquirir equipamentos, conservar estruturas, incorporar tecnologia e ampliar investimentos. Esses gastos movimentam fornecedores, transportadoras, oficinas, comércio e serviços nos municípios. Quando a atividade acumula prejuízos, a redução das compras, o adiamento dos investimentos e a dificuldade de cumprir compromissos podem transmitir a crise para empresas, trabalhadores e credores. A intensidade desses efeitos varia conforme a atividade, a região e a dependência local da economia rural.
Por essa razão, os indicadores de produção precisam ser acompanhados de indicadores econômicos e financeiros. Volume produzido e produtividade revelam aspectos importantes do desempenho técnico, mas são insuficientes para demonstrar a sustentabilidade de um empreendimento. A avaliação deve considerar margem operacional, resultado líquido, geração de caixa, capacidade de pagamento, retorno sobre o capital e evolução do patrimônio. Uma atividade pode apresentar elevada produtividade e, simultaneamente, comprometer sua continuidade quando a receita não remunera adequadamente seus custos e investimentos.
Uma política agrícola orientada por resultados deve reconhecer essa diferença e estabelecer objetivos compatíveis com ela. O aumento da produção precisa estar associado à demanda, às condições de comercialização e à capacidade de capturar valor. A agregação de valor, por sua vez, exige qualidade, diferenciação, processamento, rastreabilidade e acesso a compradores dispostos a remunerar esses atributos. Seu resultado para o produtor dependerá também dos contratos, da organização das cadeias e dos mecanismos de distribuição da remuneração entre seus participantes.
A integração entre agricultura e política econômica deve começar por um diagnóstico que respeite a diversidade do setor. Agricultura e pecuária possuem ciclos, estruturas de custos, necessidades de capital e riscos distintos, assim como produtores de uma mesma atividade podem apresentar situações financeiras diferentes. Instrumentos de crédito, seguro e recuperação financeira precisam considerar essas particularidades. Financiar a próxima safra sem avaliar a capacidade de pagamento pode ampliar a exposição de um empreendimento já fragilizado; uma intervenção bem estruturada deve identificar a origem da dificuldade e oferecer condições compatíveis com sua recuperação.
Nesse contexto, o Plano Safra deve integrar uma estratégia mais ampla de viabilidade econômica. O crédito é indispensável, mas sua efetividade aumenta quando articulado à gestão de riscos, à assistência técnica e gerencial, à armazenagem, à comercialização e ao planejamento dos investimentos. O volume anunciado de financiamento precisa ser acompanhado de avaliações sobre acesso, custo efetivo, adequação dos prazos e resultados alcançados. A qualidade da política pública se expressa na capacidade de sustentar empreendimentos viáveis e melhorar suas condições de desenvolvimento.
O seguro rural também deve ocupar uma posição central nessa arquitetura, com atenção à disponibilidade de apólices, ao custo para o produtor, às coberturas contratadas e à efetividade das indenizações. A proteção contra perdas pode reduzir a vulnerabilidade financeira, mas precisa estar integrada aos demais instrumentos de gestão. Risco climático, risco de mercado e risco financeiro exigem respostas específicas e coordenadas, apoiadas por informações confiáveis e por uma avaliação transparente dos recursos públicos empregados.
A dimensão internacional completa esse planejamento. A diversificação de destinos comerciais, o atendimento a exigências sanitárias e técnicas, a negociação de condições de acesso e o desenvolvimento de produtos de maior valor influenciam as oportunidades das cadeias brasileiras. Abertura de mercado deve ser acompanhada de análise sobre demanda, concorrência, logística e remuneração. O ganho estratégico ocorre quando a presença internacional contribui para ampliar a competitividade e gerar resultados econômicos sustentáveis ao longo da cadeia.
Para executar essa agenda, o Ministério da Agricultura precisa de liderança técnica, capacidade de articulação institucional e compromisso com resultados verificáveis. A escolha de sua direção deve considerar conhecimento das cadeias produtivas, competência de gestão e capacidade de trabalhar com a equipe econômica. A participação de produtores, indústrias, cooperativas e demais agentes deve ocorrer com transparência, critérios públicos e mecanismos de avaliação que permitam identificar quem é atendido, quais resultados são obtidos e como os benefícios são distribuídos.
O Brasil pode utilizar a força do agronegócio para ampliar investimentos, oportunidades e desenvolvimento regional, desde que transforme capacidade produtiva em resultado econômico sustentável. Isso exige colocar a viabilidade financeira do produtor no centro de uma política integrada, com metas, instrumentos e responsabilidades bem definidos. Um produtor produtivo, competitivo e capitalizado fortalece a continuidade da produção e a economia que se movimenta a partir dela; por isso, profissionalizar a gestão pública do agro é uma decisão estratégica para o crescimento do país.
Comentários
Todos os comentários passam por moderação antes da publicação. Respeite as regras de convivência: não são permitidos discurso de ódio, ofensas ou spam.



