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O BRASIL NÃO PRECISA SER O MAIOR PRODUTOR E EXPORTADOR DE COMMODITIES. PRECISA SER ECONOMICAMENTE MAIS EFICIENTE.

Celso Ricardo

Por Celso RicardoColunistaPublicado em 19/10/2026, 07:19Atualizado em 19/10/2026, 07:19

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O BRASIL NÃO PRECISA SER O MAIOR PRODUTOR E EXPORTADOR DE COMMODITIES. PRECISA SER ECONOMICAMENTE MAIS EFICIENTE.

O BRASIL NÃO PRECISA SER O MAIOR PRODUTOR E EXPORTADOR DE COMMODITIES. PRECISA SER ECONOMICAMENTE MAIS EFICIENTE.

A liderança mundial em produção e exportação não pode continuar sendo confundida com prosperidade econômica, especialmente quando o crescimento produtivo não se traduz proporcionalmente em rentabilidade, estabilidade financeira e geração de riqueza para o produtor rural.

Por Celso Ricardo Ferreira – Consultor em Gestão Estratégica em Agronegócio

O Brasil consolidou sua posição entre as maiores potências mundiais na produção e exportação de commodities agropecuárias. Safras recordes, expansão da produtividade, crescimento das exportações e ampliação da participação no comércio internacional são frequentemente apresentados como demonstrações incontestáveis do sucesso do agronegócio brasileiro. Entretanto, essa interpretação precisa ser submetida a uma avaliação econômica e financeira mais profunda, pois a liderança em volume produzido e exportado não representa, necessariamente, liderança em rentabilidade, geração de riqueza, estabilidade financeira ou desenvolvimento econômico.

A questão central não está na capacidade brasileira de produzir, mas nos resultados econômicos efetivamente alcançados a partir dessa produção. O Brasil precisa continuar perseguindo recordes de volume ou deveria concentrar seus esforços em produzir com maior rentabilidade, agregar valor, reduzir riscos e assegurar a sustentabilidade financeira das propriedades rurais? Sob a perspectiva da gestão econômica, a segunda alternativa deveria orientar a formulação das políticas públicas e das estratégias nacionais para o agronegócio.

Ser o maior produtor ou exportador não significa ser o mais eficiente economicamente. O Brasil poderia produzir e exportar volumes inferiores aos atuais e, ainda assim, alcançar resultados financeiros superiores, desde que conseguisse ampliar suas margens, agregar valor aos produtos e reduzir os custos e riscos envolvidos na atividade.

Essa possibilidade evidencia a necessidade urgente de modificar o paradigma que orienta o desenvolvimento do agronegócio brasileiro.

1. Os benefícios das exportações existem, mas não comprovam a prosperidade do produtor rural

É necessário reconhecer que a produção e a exportação de commodities proporcionam benefícios importantes à economia brasileira. A entrada de divisas internacionais contribui para o equilíbrio das contas externas, o desempenho exportador favorece o saldo da balança comercial, a atividade agropecuária movimenta cadeias industriais, logísticas, comerciais e financeiras, além de gerar empregos, renda e arrecadação tributária.

Entretanto, esses resultados macroeconômicos não demonstram que os produtores rurais estejam obtendo retornos financeiros compatíveis com os investimentos realizados, os riscos assumidos e o capital imobilizado nas propriedades.

O ingresso de bilhões de dólares em receitas de exportação não corresponde, automaticamente, à geração de bilhões de dólares em lucros para os produtores. Da mesma forma, o crescimento do Produto Interno Bruto do agronegócio não significa que todas as atividades integrantes da cadeia estejam financeiramente saudáveis.

Existe uma diferença fundamental entre o crescimento econômico agregado de uma cadeia produtiva e a rentabilidade individual das empresas que a compõem. Essa distinção precisa ocupar o centro das discussões sobre o futuro do agronegócio brasileiro.

2. O paradoxo brasileiro: recordes econômicos acompanhados de dificuldades financeiras

Os indicadores recentes evidenciam uma contradição que merece atenção nacional.

Em 2025, as exportações brasileiras do agronegócio alcançaram aproximadamente US$ 169,2 bilhões, estabelecendo um recorde histórico. No mesmo período, o PIB do agronegócio foi estimado em aproximadamente R$ 3,2 trilhões, representando cerca de 25,1% da economia brasileira, conforme estimativas do Cepea/CNA.

Entretanto, esse desempenho convive com o agravamento das dificuldades financeiras de parcelas importantes do setor produtivo. Segundo levantamentos da Serasa Experian, foram registrados aproximadamente 1.990 pedidos de recuperação judicial relacionados ao agronegócio em 2025, crescimento de 56,4% em relação ao ano anterior. No primeiro trimestre de 2026, os pedidos também apresentaram crescimento de aproximadamente 21,9% na comparação anual.

Embora esses indicadores não permitam afirmar que todos os produtores estejam em crise, demonstram que os recordes agregados de produção e exportação não impedem a deterioração financeira de determinados segmentos.

O endividamento, a elevação dos custos de produção, os juros, as dificuldades de comercialização, a exposição às oscilações internacionais e a necessidade recorrente de renegociação de obrigações financeiras revelam fragilidades que não podem ser ignoradas pelas estatísticas de crescimento.

Como considerar plenamente bem-sucedido um modelo econômico que amplia continuamente sua produção e suas exportações, mas não consegue assegurar resultados financeiros satisfatórios a uma parcela relevante dos responsáveis pela atividade produtiva?

O problema não está necessariamente na quantidade produzida, mas na ausência de uma estratégia que condicione a expansão produtiva à viabilidade econômica e financeira.

3. Produzir mais pode significar faturar mais e lucrar menos

Um dos equívocos mais relevantes na avaliação do desempenho do agronegócio brasileiro consiste em utilizar o crescimento da produção e do faturamento como indicadores suficientes de eficiência econômica.

Em 2025, por exemplo, o crescimento do volume exportado pelo agronegócio foi acompanhado por uma redução dos preços médios de exportação, evidenciando que o aumento da quantidade comercializada pode ocorrer em um ambiente de menor remuneração unitária.

Em qualquer atividade empresarial, o crescimento da produção somente representa uma evolução economicamente desejável quando os resultados adicionais compensam os custos, os investimentos e os riscos necessários para alcançá-lo.

Uma propriedade rural pode elevar sua produção em 20%, ampliar seu faturamento e, simultaneamente, reduzir sua margem líquida, aumentar o endividamento e comprometer sua capacidade de investimento. Nesse cenário, houve crescimento produtivo, mas não necessariamente desenvolvimento econômico.

O mesmo raciocínio deve ser aplicado ao agronegócio brasileiro em escala nacional.

A expansão contínua da produção, quando não acompanhada de ganhos financeiros proporcionais, pode ampliar a necessidade de capital de giro, a exposição ao crédito, os custos logísticos e a vulnerabilidade às oscilações dos preços internacionais.

Produzir mais não representa, obrigatoriamente, ganhar mais. Exportar mais não significa, necessariamente, enriquecer mais.

A verdadeira eficiência econômica deve ser medida pelo resultado líquido obtido em relação aos recursos empregados, e não exclusivamente pela quantidade produzida ou comercializada.

4. O Brasil poderia produzir menos e alcançar resultados financeiros superiores

A possibilidade de reduzir volumes e aumentar resultados precisa ser compreendida a partir de fundamentos econômicos objetivos.

Considere dois modelos hipotéticos de produção e comercialização de commodities:

Indicador

Modelo baseado em volume

Modelo baseado em eficiência

Produção comercializada

100 milhões de toneladas

85 milhões de toneladas

Receita média por tonelada

R$ 1.000

R$ 1.400

Faturamento total

R$ 100 bilhões

R$ 119 bilhões

Margem líquida

5%

15%

Lucro líquido

R$ 5 bilhões

R$ 17,85 bilhões

Nesse exercício ilustrativo, uma redução de 15% no volume comercializado, acompanhada de maior valorização dos produtos e melhoria das margens, proporciona um crescimento de 257% no lucro líquido.

O exemplo não constitui uma projeção para a economia brasileira, tampouco significa que uma simples redução da produção provocaria automaticamente aumento de preços ou rentabilidade. Seu objetivo é demonstrar que o resultado financeiro depende da combinação entre volume, preço, custos, diferenciação comercial e eficiência operacional.

Essa é uma das mudanças mais importantes que precisam ser incorporadas à estratégia nacional do agronegócio.

O Brasil não precisa obrigatoriamente produzir mais para ganhar mais. Pode alcançar resultados superiores produzindo menos, desde que consiga capturar maior valor econômico por unidade produzida e ampliar sua rentabilidade.

Portanto, a liderança mundial em volume não deveria constituir o principal objetivo da política agropecuária brasileira. O objetivo estratégico deveria ser maximizar a riqueza gerada, a rentabilidade dos produtores e a sustentabilidade econômica de toda a cadeia.

5. Quem realmente captura a riqueza gerada pelas commodities brasileiras?

Outro aspecto fundamental envolve a distribuição do valor econômico produzido ao longo das cadeias agroindustriais.

Entre a produção primária e a comercialização internacional participam fornecedores de insumos, instituições financeiras, transportadoras, armazenadores, tradings, frigoríficos, agroindústrias, distribuidores e empresas comerciais.

Todos desempenham funções econômicas relevantes, mas não possuem necessariamente o mesmo poder de negociação, a mesma exposição aos riscos ou a mesma capacidade de apropriação das margens.

O produtor rural frequentemente assume riscos climáticos, sanitários, operacionais, financeiros e comerciais, enquanto enfrenta limitações para determinar os preços de venda de produtos comercializados em mercados internacionais.

Isso não significa que os demais participantes obtenham necessariamente lucros elevados, mas demonstra que o crescimento do faturamento da cadeia não garante uma distribuição proporcional dos resultados econômicos.

A situação torna-se ainda mais relevante quando o Brasil exporta produtos primários que posteriormente são industrializados, diferenciados, transformados e comercializados com maior valor agregado em outros países.

Nessas circunstâncias, parte das oportunidades de geração de empregos industriais, desenvolvimento tecnológico, criação de marcas e captura de margens comerciais pode permanecer no exterior.

A industrialização, evidentemente, também exige investimentos, competitividade, escala e mercados consumidores. Entretanto, deixar de avaliar essas possibilidades representa limitar a estratégia nacional à expansão da produção primária.

O Brasil precisa deixar de medir exclusivamente quanto vende ao mundo e começar a medir quanto da riqueza gerada por essas vendas permanece na economia nacional, especialmente na atividade produtiva rural.

6. Liderança produtiva não significa independência comercial

A posição brasileira entre os maiores fornecedores mundiais de commodities não elimina sua vulnerabilidade às decisões comerciais de países importadores.

Tarifas, barreiras sanitárias, exigências técnicas, restrições comerciais, mudanças nas políticas de importação e oscilações da demanda internacional podem afetar diretamente os preços recebidos pelos exportadores e, consequentemente, pelos produtores rurais.

A concentração das exportações em determinados produtos e mercados amplia a exposição a essas decisões externas.

Embora a capacidade de abastecimento em grande escala represente uma vantagem competitiva e uma fonte de influência internacional, ela não assegura autonomia na formação de preços ou na definição das condições de acesso aos mercados.

Essa realidade demonstra que a estratégia comercial brasileira precisa avançar além da conquista de volumes crescentes de exportação.

Diversificação de destinos, agregação de valor, diferenciação de produtos, fortalecimento de marcas, ampliação da industrialização competitiva e mecanismos de gestão de riscos devem integrar uma política econômica de longo prazo.

Não basta conquistar mercados pelo volume produzido. É necessário conquistar melhores condições econômicas de comercialização e reduzir a vulnerabilidade financeira do produtor brasileiro.

7. O crescimento do agronegócio precisa ser medido por indicadores financeiros

Uma transformação estrutural exige substituir a avaliação predominantemente quantitativa do agronegócio por um sistema que incorpore indicadores econômicos e financeiros.

Entre os principais indicadores deveriam estar:

  • Rentabilidade líquida por hectare produzido e por unidade animal.

  • Retorno sobre o capital investido e sobre os ativos produtivos.

  • Margem operacional e margem líquida das atividades.

  • Geração de caixa e capacidade de pagamento das obrigações financeiras.

  • Evolução do endividamento em relação à receita e à capacidade de geração de resultados.

  • Valor agregado por tonelada produzida e exportada.

  • Participação do produtor rural na distribuição do valor econômico da cadeia.

  • Evolução patrimonial e capacidade de reinvestimento das propriedades.

  • Exposição aos riscos comerciais, climáticos e financeiros.

  • Sustentabilidade econômica das atividades no médio e longo prazo.

Esses indicadores permitiriam avaliar se o crescimento da produção está efetivamente contribuindo para fortalecer as empresas rurais ou apenas ampliando sua necessidade de financiamento e sua exposição aos riscos.

A produção deve ser tratada como instrumento de geração de riqueza, e não como finalidade econômica isolada.

8. A necessidade urgente de modificar o modelo de desenvolvimento do agronegócio brasileiro

O Brasil precisa abandonar a interpretação de que aumentar continuamente a produção e as exportações representa, por si só, desenvolvimento econômico.

O crescimento produtivo deve ser consequência de oportunidades economicamente viáveis, e não uma meta perseguida independentemente dos resultados financeiros.

Essa transformação exige uma política nacional orientada à eficiência econômica, contemplando gestão financeira das propriedades, redução dos custos estruturais, mecanismos permanentes de prevenção e recuperação do endividamento, inteligência de mercado, diversificação comercial, agregação de valor, infraestrutura, inovação tecnológica e fortalecimento da capacidade de negociação dos produtores.

Também exige que o crédito rural deixe de ser interpretado exclusivamente como instrumento de expansão produtiva e passe a considerar, de maneira mais rigorosa, a capacidade de geração de caixa, a rentabilidade dos investimentos e a sustentabilidade financeira das atividades financiadas.

O sucesso dessa política não deveria ser medido apenas pela quantidade de recursos disponibilizados, pelo número de operações de crédito ou pelo aumento da área cultivada, mas pela capacidade de transformar esses recursos em empresas rurais economicamente sustentáveis.

Uma economia agropecuária verdadeiramente competitiva não depende exclusivamente de produzir grandes quantidades, mas de gerar resultados suficientes para remunerar o capital, financiar novos investimentos, preservar o patrimônio e assegurar a continuidade da atividade.

CONCLUSÃO — O BRASIL PRECISA SER LÍDER EM RESULTADOS, NÃO APENAS EM VOLUME

O Brasil construiu uma extraordinária capacidade de produção agropecuária, conquistou relevância no abastecimento mundial e consolidou sua participação entre os principais exportadores internacionais. Essas conquistas possuem importância econômica, mas não podem continuar sendo utilizadas isoladamente como demonstração de prosperidade do agronegócio brasileiro.

A coexistência de recordes de produção e exportação com dificuldades financeiras, endividamento e crescimento dos pedidos de recuperação judicial demonstra a necessidade de revisar os critérios utilizados para avaliar o desempenho do setor.

Não se trata de defender a redução indiscriminada da produção brasileira, mas de reconhecer que a expansão dos volumes somente deve ser considerada economicamente vantajosa quando acompanhada de resultados financeiros capazes de justificar os investimentos e riscos assumidos.

O Brasil poderia produzir e exportar menos e, ainda assim, alcançar resultados econômicos superiores mediante maior agregação de valor, melhores margens, redução de custos, diversificação comercial e eficiência na utilização do capital.

O objetivo nacional não deveria ser simplesmente produzir e exportar mais do que os demais países, mas gerar mais riqueza, mais rentabilidade e maior estabilidade financeira a partir daquilo que produzimos.

O verdadeiro desenvolvimento do agronegócio não pode ser medido exclusivamente pela quantidade de toneladas produzidas, pelos bilhões de dólares exportados ou pela participação no PIB. Precisa ser medido, principalmente, pela capacidade de transformar essa atividade econômica em lucro, geração de caixa, valorização patrimonial, investimentos e prosperidade sustentável.

O Brasil não precisa ser o maior produtor e exportador de commodities do mundo para ser uma potência econômica do agronegócio. Precisa ser capaz de transformar sua produção em resultados financeiros superiores.

Enquanto continuarmos comemorando recordes de volume sem avaliar proporcionalmente os resultados econômicos de quem produz, estaremos confundindo crescimento produtivo com desenvolvimento econômico.

A mudança de paradigma é urgente: o agronegócio brasileiro precisa migrar da liderança em volume para a liderança em eficiência econômica e financeira.

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