O BRASIL PODE PRODUZIR MENOS NÃO POR FALTA DE CAPACIDADE, MAS POR FALTA DE VIABILIDADE FINANCEIRA
Por Celso RicardoColunistaPublicado em 20/10/2026, 06:04Atualizado em 20/10/2026, 06:04

O BRASIL PODE PRODUZIR MENOS NÃO POR FALTA DE CAPACIDADE, MAS POR FALTA DE VIABILIDADE FINANCEIRA
CRÉDITO CARO, ENDIVIDAMENTO RURAL E DESEQUILÍBRIO MACROECONÔMICO: OS RISCOS PARA A PRODUÇÃO DE ALIMENTOS E A ECONOMIA BRASILEIRA ENTRE 2027 E 2030
Por Celso Ricardo Ferreira – Consultor em Gestão Estratégica em Agronegócio
O agronegócio brasileiro poderá enfrentar, nos próximos quatro anos, um dos desafios mais complexos de sua trajetória econômica recente: preservar a capacidade produtiva em um ambiente de restrições financeiras, elevado endividamento, juros persistentes, maior seletividade bancária e crescente pressão sobre as contas públicas. O problema ultrapassa a disponibilidade de recursos para o financiamento das safras e alcança uma dimensão estrutural: a capacidade de transformar produção física em resultado econômico suficiente para remunerar o capital, sustentar os investimentos, cumprir compromissos financeiros e preservar o patrimônio dos produtores rurais.
A discussão sobre crédito rural precisa, portanto, abandonar a interpretação de que ampliar financiamentos representa necessariamente fortalecer o agronegócio. Em determinadas circunstâncias, o aumento do crédito pode contribuir para ampliar a produção, mas também acelerar a deterioração financeira de propriedades que já apresentam margens operacionais insuficientes. Quando o custo efetivo do capital supera a rentabilidade econômica da atividade, o financiamento deixa de funcionar como instrumento de expansão sustentável e passa a representar um mecanismo de transferência de resultados futuros para o pagamento de obrigações financeiras presentes.
1. O DESEQUILÍBRIO MACROECONÔMICO BRASILEIRO E SUAS CONSEQUÊNCIAS PARA O CRÉDITO
O cenário econômico brasileiro apresenta fatores que exigem atenção especial para o período de 2027 a 2030. Entre eles estão o crescimento da dívida pública, a rigidez das despesas governamentais, a persistência de déficits fiscais, o desequilíbrio das transações correntes e a necessidade de manutenção de condições monetárias restritivas para controlar a inflação.
Segundo o Relatório Focus de 19 de outubro de 2026, as expectativas de mercado apontam inflação de 5,22% em 2026, 4,32% em 2027, 3,75% em 2028 e 3,50% em 2029. Para a taxa Selic, as projeções indicam 13,25% ao final de 2026, 12% em 2027, 10,5% em 2028 e 10% em 2029. Embora representem uma trajetória esperada de redução dos juros, esses valores continuam indicando um ambiente de capital relativamente oneroso, especialmente para atividades que apresentam margens reduzidas e receitas sujeitas à volatilidade dos preços agropecuários.
A situação fiscal amplia essa preocupação. As estimativas divulgadas no relatório Prisma Fiscal de outubro de 2026 indicam dívida bruta do governo geral equivalente a aproximadamente 83,4% do PIB em 2026, com projeção de 87% em 2027, segundo a metodologia utilizada nesse levantamento. O crescimento da dívida, associado à necessidade de financiamento do setor público, pode pressionar os prêmios de risco, o custo de captação e as condições de crédito da economia, sobretudo se houver deterioração das expectativas fiscais.
É necessário distinguir a dívida bruta calculada pelo Banco Central daquela utilizada pelo Fundo Monetário Internacional, pois as metodologias e abrangências não são idênticas. Independentemente dessa diferença, a preocupação econômica fundamental está na trajetória da dívida, no custo de seu financiamento e na capacidade do Estado de produzir resultados fiscais suficientes para estabilizá-la.
Nas contas externas, o Banco Central projetava, em junho de 2026, déficit em transações correntes de US$ 56 bilhões, equivalente a aproximadamente 2,1% do PIB. O déficit externo não representa, isoladamente, uma situação de insolvência, especialmente quando financiado por investimentos diretos. Entretanto, sua persistência pode aumentar a exposição da economia brasileira às condições internacionais de financiamento, aos movimentos cambiais e às mudanças na percepção de risco.
Para o agronegócio, esses fatores são particularmente relevantes porque parte expressiva dos custos de produção está direta ou indiretamente vinculada ao câmbio, ao preço internacional de fertilizantes, defensivos, combustíveis, máquinas e equipamentos. A combinação entre instabilidade cambial, juros elevados e custos de produção crescentes pode comprometer a rentabilidade mesmo em safras de produtividade satisfatória.
2. O CRÉDITO RURAL ESTÁ SE TORNANDO UMA QUESTÃO DE RISCO, NÃO APENAS DE DISPONIBILIDADE
A concessão de crédito depende de uma avaliação econômica que envolve capacidade de pagamento, histórico financeiro, garantias, exposição ao risco, qualidade das informações e perspectivas de geração de caixa. Em ambientes de maior inadimplência e incerteza, as instituições financeiras tendem a reforçar seus critérios de análise, exigir garantias adicionais, reduzir limites de exposição e diferenciar as condições de financiamento conforme o perfil dos tomadores.
Esse comportamento pode produzir uma contradição relevante: justamente os produtores que mais necessitam de capital para recuperar sua capacidade produtiva podem encontrar maiores dificuldades para obter novos financiamentos.
A situação é particularmente delicada quando o produtor apresenta passivos acumulados de safras anteriores, compromissos renegociados, operações vinculadas a CPRs, obrigações com fornecedores, cooperativas e revendas, além de financiamentos bancários tradicionais. Nesse contexto, avaliar apenas o endividamento registrado no Sistema Nacional de Crédito Rural pode produzir uma visão incompleta da exposição financeira da propriedade.
A análise correta deve considerar o endividamento consolidado, o fluxo de caixa projetado, o cronograma de vencimentos, o custo efetivo total das obrigações, a capacidade de geração operacional de recursos e a necessidade de capital de giro para manter a atividade.
Também é necessário reconhecer que o crédito rural brasileiro possui diferentes modalidades e condições. Linhas subvencionadas, operações com recursos controlados e financiamentos a taxas de mercado não apresentam o mesmo custo. O Pronaf, por exemplo, mantém modalidades com juros inferiores aos praticados no mercado financeiro. Portanto, a restrição não deve ser apresentada como uniforme para todos os produtores, mas analisada segundo porte, enquadramento, acesso efetivo às linhas, disponibilidade de recursos e perfil de risco.
A questão central deixa de ser quanto crédito o produtor consegue contratar e passa a ser quanto financiamento sua atividade consegue suportar sem comprometer a continuidade econômica da propriedade.
3. O PERIGO DE FINANCIAR UMA PRODUÇÃO QUE NÃO GERA RESULTADO FINANCEIRO
Durante décadas, grande parte das políticas de estímulo ao agronegócio brasileiro esteve associada ao aumento da produtividade, à expansão da área cultivada, à ampliação dos volumes exportados e à disponibilização de recursos para custeio e investimento. Entretanto, crescimento produtivo e eficiência financeira representam dimensões distintas.
Uma propriedade pode apresentar elevada produtividade por hectare e, simultaneamente, registrar rentabilidade insuficiente para remunerar o capital empregado. Da mesma forma, uma safra recorde pode coexistir com resultados financeiros negativos quando o preço recebido não cobre adequadamente os custos operacionais, os encargos financeiros, a depreciação e a remuneração do capital.
A utilização recorrente de crédito para financiar atividades estruturalmente deficitárias pode gerar um ciclo de endividamento cumulativo. O produtor contrata financiamento para custear a safra, comercializa sua produção em condições desfavoráveis, utiliza parte expressiva da receita para cumprir obrigações anteriores e precisa recorrer novamente ao sistema financeiro para iniciar o ciclo produtivo seguinte.
Nesse modelo, o crédito deixa de financiar exclusivamente a produção corrente e passa, indiretamente, a sustentar desequilíbrios acumulados.
A solução não consiste em eliminar indiscriminadamente o financiamento rural, mas em estabelecer critérios econômicos para sua utilização. O capital de terceiros deve ser empregado quando houver expectativa fundamentada de retorno compatível com seu custo, capacidade de pagamento e exposição ao risco. Quando essas condições não estiverem presentes, ampliar o financiamento poderá representar aumento de vulnerabilidade, e não fortalecimento produtivo.
4. PRODUZIR NO VOLUME ECONOMICAMENTE CORRETO PODE SER MAIS IMPORTANTE DO QUE PRODUZIR NO VOLUME MÁXIMO
Diante desse cenário, torna-se necessário incorporar à gestão rural um princípio fundamental: o volume economicamente adequado de produção não corresponde necessariamente ao maior volume tecnicamente possível.
A decisão de ampliar, manter ou reduzir a área plantada deve considerar a margem de contribuição esperada, os custos fixos e variáveis, o capital de giro disponível, o custo do financiamento, a capacidade operacional, os riscos climáticos e comerciais e a necessidade de preservação da liquidez.
Em determinadas situações, reduzir a área cultivada, concentrar recursos nas áreas de maior potencial econômico ou substituir atividades de menor margem pode contribuir para preservar o capital e evitar o crescimento do endividamento. Entretanto, essa decisão exige avaliação individualizada, pois a redução de escala também pode elevar o custo fixo por unidade produzida, comprometer contratos, diminuir receitas e reduzir a capacidade de diluição dos investimentos existentes.
Portanto, a redução da produção não deve ser apresentada como recomendação generalizada, mas como uma alternativa de gestão quando demonstrada sua superioridade econômica em relação à manutenção ou expansão da atividade.
O planejamento precisa identificar o ponto em que a receita marginal esperada de uma unidade adicional de produção deixa de compensar seu custo marginal, incluindo o financiamento e os riscos envolvidos.
A eficiência produtiva continuará sendo indispensável, mas deverá estar subordinada à viabilidade econômica e financeira. O produtor não pode ser estimulado a ampliar continuamente sua produção quando essa expansão compromete sua capacidade de pagamento e acelera a perda patrimonial.
5. OS IMPACTOS DE UMA POSSÍVEL CONTRAÇÃO DO CRÉDITO SOBRE A PRODUÇÃO DE ALIMENTOS
Caso as condições de financiamento permaneçam restritivas e a rentabilidade de determinadas atividades continue insuficiente, o agronegócio poderá enfrentar ajustes produtivos com consequências relevantes para a oferta de alimentos.
O primeiro impacto potencial é a redução dos investimentos em tecnologia, correção e fertilidade do solo, mecanização, irrigação, genética e infraestrutura. Mesmo quando a área plantada permanece estável, a restrição financeira pode reduzir a intensidade tecnológica e comprometer o potencial produtivo das safras seguintes.
O segundo impacto está na possibilidade de redução seletiva da área cultivada, especialmente entre produtores com menor liquidez, maior exposição financeira e dificuldade de acesso ao capital de giro. Esse movimento poderá ocorrer de maneira heterogênea, conforme cultura, região, estrutura de custos e condições comerciais.
O terceiro impacto envolve a reorganização da produção em favor de atividades que apresentem menor necessidade de capital, maior previsibilidade de receita ou melhores condições de comercialização. Essa substituição pode alterar a composição regional da oferta de alimentos e matérias-primas.
O quarto impacto está na concentração econômica. Produtores financeiramente mais estruturados poderão manter ou ampliar suas operações, enquanto agentes com menor capacidade de financiamento poderão reduzir atividades, arrendar propriedades ou deixar determinados segmentos produtivos.
O quinto impacto envolve o risco de maior volatilidade dos preços dos alimentos. Caso a retração da produção doméstica ocorra em proporção superior à capacidade de compensação por estoques, importações ou ganhos de produtividade, determinados produtos poderão apresentar pressões de preços. Contudo, esse efeito não será automático: dependerá da demanda, da produção internacional, do câmbio, das condições climáticas e da dinâmica de cada mercado.
Assim, a principal preocupação não é afirmar que o Brasil necessariamente produzirá menos alimentos, mas reconhecer que a deterioração financeira dos produtores pode comprometer sua capacidade de sustentar investimentos e responder às necessidades futuras de abastecimento.
6. AS CONSEQUÊNCIAS PARA A ECONOMIA BRASILEIRA ULTRAPASSAM AS PROPRIEDADES RURAIS
Uma eventual desaceleração da atividade agropecuária, provocada por restrições financeiras persistentes, não permaneceria limitada ao setor primário. Seus efeitos seriam transmitidos aos demais segmentos econômicos por meio das relações de produção, consumo, investimento, emprego e arrecadação.
A indústria de máquinas e equipamentos agrícolas poderia enfrentar redução de encomendas e adiamento de investimentos. Fabricantes e distribuidores de fertilizantes, defensivos, sementes e insumos estariam sujeitos à diminuição da demanda ou à alteração do perfil de consumo. Cooperativas, transportadoras, empresas de armazenagem e prestadores de serviços poderiam registrar menor movimentação econômica.
As agroindústrias também seriam afetadas por mudanças no volume, na regularidade e na composição do fornecimento de matérias-primas. Dependendo da cadeia produtiva, a redução da oferta poderia elevar custos industriais e diminuir a utilização da capacidade instalada.
Nos municípios cuja atividade econômica depende fortemente da agropecuária, a perda de renda dos produtores poderia repercutir sobre comércio, serviços, construção civil, empregos e arrecadação tributária.
No setor externo, uma eventual redução persistente dos excedentes exportáveis poderia comprometer parte da geração de divisas, embora seus efeitos sobre a receita dependessem também dos preços internacionais. O agronegócio possui papel relevante na balança comercial brasileira, mas esse resultado não elimina os desequilíbrios existentes nas demais contas externas.
O efeito agregado dependeria da intensidade, da duração e da abrangência regional e setorial das restrições. Ainda assim, a cadeia de transmissão econômica demonstra que a fragilidade financeira da produção rural constitui um risco que merece atenção nacional, e não apenas setorial.
7. A RENEGOCIAÇÃO DE DÍVIDAS NÃO RESOLVE O PROBLEMA SEM A RECUPERAÇÃO DA CAPACIDADE DE PAGAMENTO
A renegociação de obrigações financeiras pode representar instrumento necessário para evitar a interrupção de atividades economicamente recuperáveis. Entretanto, sua eficácia depende da compatibilidade entre os novos vencimentos e a capacidade efetiva de geração de caixa da propriedade.
Alongar prazos sem corrigir desequilíbrios operacionais, conceder carência sem avaliar necessidades de capital de giro ou incorporar encargos adicionais a passivos já excessivos pode apenas transferir o problema para exercícios futuros.
Uma política de recuperação financeira precisa distinguir produtores temporariamente ilíquidos daqueles cuja atividade apresenta insuficiência estrutural de rentabilidade. Também deve separar os efeitos de eventos climáticos extraordinários, choques de preços, investimentos inadequados e problemas permanentes de gestão.
O diagnóstico econômico-financeiro individualizado deve constituir a base para definir carência, prazo de amortização, estrutura de garantias, necessidade de novos recursos e capacidade de pagamento.
A recuperação do produtor rural não pode ser medida exclusivamente pela regularização formal de suas operações financeiras. Ela deve ser avaliada pela capacidade de produzir resultados positivos, recompor capital de giro, recuperar a liquidez e manter a atividade sem depender de renegociações sucessivas.
8. PERSPECTIVAS PARA 2027–2030: TRÊS TRAJETÓRIAS POSSÍVEIS
O período de 2027 a 2030 deverá ser analisado por cenários, e não por previsões determinísticas, considerando a elevada sensibilidade do agronegócio às condições macroeconômicas, climáticas e comerciais.
Cenário de estabilização: a redução gradual dos juros, a melhora das expectativas fiscais, a recuperação das margens e a normalização das condições de financiamento permitiriam a recomposição progressiva da capacidade de investimento. Nesse ambiente, a expansão produtiva poderia ocorrer de maneira mais seletiva e financeiramente sustentável.
Cenário de restrição prolongada: a persistência de juros relativamente elevados, o endividamento acumulado e a recuperação insuficiente das margens manteriam o crédito seletivo. Produtores mais capitalizados preservariam investimentos, enquanto aqueles com maior exposição financeira poderiam reduzir tecnologia, área cultivada ou escala operacional. O resultado seria uma reorganização heterogênea da produção, com maior pressão sobre os agentes financeiramente vulneráveis.
Cenário de deterioração: uma combinação de agravamento fiscal, choques cambiais, condições climáticas adversas, perda de rentabilidade e aumento da inadimplência poderia intensificar as restrições de crédito. Nesse caso, os riscos de retração de investimentos, descontinuidade de atividades e concentração produtiva seriam mais elevados, com possíveis repercussões sobre o abastecimento, os preços e a atividade econômica nacional.
Nenhum desses cenários deve ser considerado inevitável. Sua concretização dependerá das decisões de política econômica, das condições internacionais, da evolução dos custos e preços agropecuários e da capacidade de adaptação dos agentes.
9. UMA NOVA POLÍTICA DE CRÉDITO RURAL PRECISA FINANCIAR A VIABILIDADE ECONÔMICA, NÃO APENAS A PRODUÇÃO
O Brasil precisa avançar para uma concepção de crédito rural fundamentada na sustentabilidade econômica e financeira das atividades produtivas.
Essa transformação exige que o financiamento seja acompanhado de instrumentos de gestão, planejamento de caixa, avaliação de riscos, proteção contra perdas climáticas e comerciais, mecanismos de comercialização e acompanhamento de indicadores financeiros.
Entre os indicadores indispensáveis estão a margem operacional, a geração de caixa, a relação entre dívida e capacidade de pagamento, o índice de cobertura do serviço da dívida, o custo efetivo do capital, a rentabilidade sobre o capital investido e a exposição a riscos de preço, produção e mercado.
A política pública também deve distinguir financiamento produtivo, recuperação de passivos e investimentos estruturantes. São necessidades diferentes, que exigem instrumentos e critérios próprios.
É fundamental ampliar a capacidade de avaliação econômica das propriedades sem transformar exigências burocráticas excessivas em novas barreiras ao acesso ao crédito. A melhoria da análise de risco deve contribuir para identificar atividades viáveis, estruturar operações sustentáveis e recuperar produtores com potencial econômico, e não simplesmente excluir aqueles que apresentam dificuldades temporárias.
Da mesma forma, instrumentos de seguro rural, garantias, assistência técnica gerencial e comercialização devem atuar de maneira complementar ao financiamento. O crédito isolado não consegue compensar indefinidamente a ausência de rentabilidade.
A finalidade econômica do sistema deve ser permitir que o produtor rural utilize capital de terceiros para gerar riqueza, e não para acumular obrigações incompatíveis com sua capacidade produtiva e financeira.
CONCLUSÃO — O MAIOR RISCO DO AGRONEGÓCIO BRASILEIRO NÃO É PRODUZIR MENOS, MAS CONTINUAR PRODUZINDO SEM CAPACIDADE DE PAGAMENTO
O Brasil possui condições naturais, tecnológicas e empresariais para manter posição relevante na produção mundial de alimentos. Entretanto, essa capacidade não assegura, isoladamente, a sustentabilidade econômica dos produtores rurais.
O cenário projetado para 2027 a 2030 exige uma revisão profunda da relação entre produção, financiamento e resultado financeiro. A combinação de endividamento acumulado, capital oneroso, riscos fiscais, pressões cambiais e margens reduzidas pode comprometer a capacidade de investimento de parte do setor, mesmo sem provocar uma retração generalizada da produção nacional.
A resposta não deve ser simplesmente ampliar o crédito, incentivar novas safras recordes ou transferir vencimentos para exercícios futuros. É necessário estabelecer uma política de recuperação da capacidade financeira do produtor, na qual o volume de produção seja determinado pela viabilidade econômica, e não exclusivamente pelo potencial produtivo da propriedade.
O crédito deve financiar atividades capazes de gerar resultados, preservar capital e sustentar obrigações futuras. Quando utilizado para manter operações estruturalmente deficitárias, pode aprofundar o endividamento e comprometer a continuidade da produção.
O Brasil precisa compreender que a segurança alimentar e a competitividade internacional não dependem apenas da quantidade produzida, mas também da capacidade financeira de quem produz.
O país poderá continuar comemorando safras recordes enquanto parte de seus produtores perde liquidez, capacidade de investimento e patrimônio. Se essa contradição não for enfrentada, o problema deixará de ser exclusivamente o endividamento rural e poderá transformar-se em uma restrição estrutural ao desenvolvimento econômico brasileiro.
A política agrícola dos próximos quatro anos precisa deixar de medir seu sucesso apenas pelo volume de crédito concedido e pelas toneladas produzidas. Seu verdadeiro resultado deverá ser medido pela capacidade de transformar produção em renda, renda em investimento e investimento em sustentabilidade econômica.
Porque uma agricultura que depende continuamente de novas dívidas para sustentar sua produção não está necessariamente crescendo. Pode estar apenas financiando a própria fragilidade.
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