O BRASIL SE DIZ CELEIRO DO MUNDO, MAS SUA VULNERABILIDADE SANITÁRIA EXPÕE AS FRAGILIDADES DA GESTÃO DO AGRONEGÓCIO
Por Celso RicardoColunistaPublicado em 22/10/2026, 08:43Atualizado em 22/10/2026, 08:43

O BRASIL SE DIZ CELEIRO DO MUNDO, MAS SUA VULNERABILIDADE SANITÁRIA EXPÕE AS FRAGILIDADES DA GESTÃO DO AGRONEGÓCIO
Por Celso Ricardo Ferreira – Consultor em Gestão Estratégica em Agronegócio
O Brasil consolidou-se como uma das maiores potências agropecuárias do planeta, alcançando posições de liderança na produção e exportação de alimentos. Entretanto, existe uma contradição que precisa ser enfrentada com responsabilidade técnica e administrativa: enquanto o país comemora recordes de produção, exportação e abertura de mercados, continua apresentando vulnerabilidades estruturais na gestão sanitária, na prevenção de riscos e na construção de uma política comercial internacional verdadeiramente estratégica. Somos frequentemente apresentados como o celeiro do mundo, mas essa condição produtiva não nos torna automaticamente uma potência em gestão, competitividade e geração de riqueza.
Nos últimos anos, diferentes ocorrências sanitárias demonstraram como o agronegócio brasileiro permanece exposto a interrupções comerciais, restrições internacionais e perdas econômicas. Em 2021, dois casos atípicos de encefalopatia espongiforme bovina, identificados em Mato Grosso e Minas Gerais, provocaram a suspensão das exportações de carne bovina à China. Em 2023, um novo caso atípico, identificado no Pará, novamente interrompeu temporariamente as exportações para aquele mercado. Embora a ocorrência atípica dessa enfermidade não caracterize necessariamente deficiência sanitária, os episódios evidenciaram a vulnerabilidade comercial brasileira diante de protocolos internacionais e da concentração das exportações em determinados compradores.
Na avicultura, o cenário também exige atenção. Em 2023, o Brasil confirmou seus primeiros registros de influenza aviária de alta patogenicidade em aves silvestres. Em 2024, foi identificado um foco da doença de Newcastle em estabelecimento avícola comercial no Rio Grande do Sul. Em maio de 2025, a confirmação de influenza aviária em uma granja comercial no município de Montenegro, também no Rio Grande do Sul, desencadeou restrições comerciais impostas por diferentes países importadores. Mais recentemente, em outubro de 2026, um novo foco da doença de Newcastle foi confirmado em uma granja comercial de perus em Santa Catarina, exigindo novamente medidas emergenciais de contenção e controle sanitário.
A suinocultura brasileira também apresenta desafios importantes. A persistência de ocorrências de peste suína clássica em áreas específicas do território nacional, especialmente em estados do Nordeste nos anos anteriores, demonstra a necessidade de ampliar a uniformidade da vigilância, fortalecer os sistemas regionais de defesa sanitária e garantir que os avanços alcançados nas zonas livres sejam acompanhados por uma estratégia nacional permanente de prevenção e controle.
Entretanto, um dos episódios mais expressivos da vulnerabilidade brasileira ocorreu em 2026, quando a União Europeia impôs restrições à entrada de proteínas animais e outros produtos brasileiros de origem animal, questionando a capacidade do sistema nacional de comprovar o cumprimento das exigências europeias relacionadas ao uso de antimicrobianos.
A decisão europeia, anunciada em maio e implementada em setembro de 2026, atingiu produtos como carne bovina, carne de aves, carne suína, ovos, mel e pescados. O impacto potencial foi estimado em até US$ 2 bilhões anuais em exportações brasileiras. A justificativa apresentada pelas autoridades europeias não foi a comprovação de contaminação de lotes brasileiros por resíduos antimicrobianos, mas a insuficiência das garantias oferecidas pelo sistema brasileiro de controle, rastreabilidade e certificação quanto ao cumprimento das normas estabelecidas pelo bloco.
Essa distinção é fundamental. O problema não estava necessariamente na qualidade sanitária do produto final, mas na capacidade institucional de demonstrar, documental e tecnicamente, que os procedimentos adotados ao longo da cadeia produtiva atendiam às exigências do mercado importador. Em outras palavras, mesmo dispondo de uma estrutura oficial de fiscalização, o Brasil enfrentou questionamentos sobre a suficiência dos mecanismos utilizados para comprovar conformidade regulatória.
O governo brasileiro contestou a decisão europeia e defendeu a adequação de seus controles, enquanto auditorias posteriores reconheceram avanços importantes nas cadeias de aves e mel. Entretanto, a situação da carne bovina permaneceu mais complexa, especialmente pelas exigências de rastreabilidade do uso de medicamentos ao longo da vida dos animais.
O episódio europeu demonstra uma vulnerabilidade que precisa ser enfrentada: possuir capacidade produtiva, frigoríficos habilitados e produtos competitivos não é suficiente quando o país encontra dificuldades para demonstrar, de maneira antecipada e plenamente reconhecida pelos compradores, a conformidade de seus sistemas de fiscalização e certificação.
É justamente nesse ponto que a gestão do Ministério da Agricultura precisa ser questionada. As exigências europeias relacionadas ao controle de antimicrobianos não surgiram inesperadamente no momento da suspensão comercial. Tratam-se de requisitos regulatórios que demandam acompanhamento técnico, planejamento, adaptação dos procedimentos nacionais e negociação permanente entre as autoridades competentes. Portanto, é necessário avaliar se houve antecipação suficiente, comunicação adequada com os setores produtivos, orientação aos estabelecimentos envolvidos e atuação institucional capaz de reduzir o risco de interrupção das exportações.
Não se trata de afirmar que todas as exigências internacionais são necessariamente justificadas ou que inexistem interesses protecionistas nas relações comerciais. Trata-se de reconhecer que uma potência agropecuária precisa estar preparada tanto para cumprir requisitos tecnicamente legítimos quanto para contestar, com documentação e argumentos consistentes, medidas comerciais desproporcionais.
O mercado europeu é especialmente relevante porque remunera determinados cortes e produtos de maior valor agregado. Perder temporariamente o acesso a esse mercado não significa simplesmente transferir as mercadorias para outro comprador, pois diferentes destinos possuem padrões de consumo, especificações e estruturas de preços distintas. Consequentemente, as restrições podem comprometer estratégias industriais, reduzir alternativas comerciais e exercer pressão sobre a formação de preços ao longo da cadeia produtiva.
Esse é o paradoxo brasileiro: temos capacidade para produzir e exportar em escala mundial, mas continuamos vulneráveis a exigências internacionais que deveriam fazer parte de um planejamento sanitário e comercial permanente, conduzido com antecedência, rigor técnico e inteligência de mercado.
É fundamental esclarecer que a identificação de uma enfermidade não comprova, isoladamente, incompetência dos serviços veterinários oficiais. A detecção pode, inclusive, demonstrar a capacidade de funcionamento dos sistemas de vigilância. Entretanto, a sucessão de emergências e seus efeitos comerciais impõem uma avaliação rigorosa da qualidade da gestão preventiva, dos investimentos em biosseguridade, da integração entre os serviços estaduais e federais, da capacidade laboratorial, da fiscalização e da velocidade das respostas institucionais.
O verdadeiro indicador de eficiência não pode ser apenas a capacidade de controlar uma doença depois de sua identificação, mas também a capacidade de reduzir os riscos de sua introdução, disseminação e impacto econômico. Da mesma forma, a eficiência da fiscalização não pode ser medida exclusivamente pelo número de inspeções realizadas, mas pela confiabilidade dos controles, pela capacidade de comprovação documental, pela rastreabilidade e pelo reconhecimento internacional dos procedimentos adotados.
O problema central do Brasil não está na ausência de capacidade produtiva, mas na insuficiência de uma gestão estratégica que transforme essa capacidade em segurança sanitária, competitividade internacional e rentabilidade para o produtor rural.
É justamente nesse contexto que a atuação do Ministério da Agricultura e Pecuária precisa ser profundamente reavaliada. O Brasil não pode continuar administrando um setor dessa dimensão predominantemente por meio de acordos políticos, negociações de cargos e prioridades institucionais que nem sempre correspondem às necessidades econômicas dos produtores rurais dos 26 estados e do Distrito Federal.
A condução de uma estrutura responsável por um dos setores mais importantes da economia nacional exige conhecimento técnico, experiência administrativa, capacidade de planejamento, visão internacional e compreensão das particularidades produtivas e sanitárias de cada região brasileira.
A escolha de um ministro da Agricultura não deveria ser tratada como instrumento de acomodação partidária ou atendimento de interesses setoriais. O cargo exige um profissional com capacidade comprovada de gestão, conhecimento das cadeias produtivas, domínio das exigências internacionais e condições de coordenar políticas públicas que ultrapassem os limites de um mandato presidencial.
Não basta anunciar mercados, apresentar resultados de exportação ou divulgar medidas emergenciais. É necessário construir uma estrutura permanente de inteligência sanitária, prevenção, orientação técnica, fiscalização eficiente, rastreabilidade e negociação comercial.
Um Ministério da Agricultura verdadeiramente estratégico precisa atuar antes que os problemas aconteçam, e não concentrar sua capacidade institucional em administrar as consequências depois que elas já comprometeram produtores, indústrias e exportações.
Essa mudança exige aproximar o Ministério dos produtores rurais, das propriedades, das cooperativas, das agroindústrias, das instituições de pesquisa e dos serviços veterinários estaduais. A defesa sanitária não pode ser compreendida exclusivamente como atividade fiscalizatória e punitiva. Ela precisa incorporar orientação permanente, capacitação, assistência preventiva, gestão de riscos e mecanismos de acompanhamento capazes de identificar vulnerabilidades antes que se transformem em emergências nacionais.
Também precisamos compreender que a fragilidade comercial brasileira não decorre apenas da ocorrência de enfermidades. A dependência de poucos mercados compradores, as limitações de rastreabilidade, as diferenças regionais de estrutura sanitária, a necessidade de reconhecimento de equivalência regulatória e a ausência de uma política suficientemente integrada de agregação de valor reduzem nossa capacidade de negociação.
Quando uma ocorrência localizada provoca restrições comerciais abrangentes, fica evidente a importância de acordos internacionais que reconheçam a regionalização sanitária e diferenciem adequadamente os riscos existentes. Quando um mercado exige comprovações adicionais sobre medicamentos veterinários, fica evidente a necessidade de sistemas de informação, controle e certificação capazes de demonstrar conformidade ao longo de toda a cadeia produtiva.
O Brasil precisa avançar na conquista de mercados que remunerem qualidade, regularidade, segurança, certificação e diferenciação de produtos. Países como Japão e Coreia do Sul possuem exigências específicas que demandam muito mais do que capacidade de produção em escala. Exigem negociações técnicas consistentes, rastreabilidade, equivalência de sistemas de inspeção, protocolos sanitários e adequação aos padrões comerciais estabelecidos.
A dificuldade de acesso a esses mercados não pode ser atribuída exclusivamente às doenças, mas também evidencia a necessidade de maior articulação entre política sanitária, estratégia comercial e desenvolvimento econômico.
O reconhecimento internacional do Brasil como país livre de febre aftosa sem vacinação, alcançado em 2025, representa uma conquista sanitária importante. Entretanto, conquistas dessa natureza precisam ser transformadas em oportunidades comerciais concretas, habilitação de novos mercados e melhores condições de remuneração. A obtenção de um reconhecimento sanitário não pode representar o encerramento de uma política pública, mas o início de uma estratégia de aproveitamento econômico de seus resultados.
Outro aspecto que merece atenção é a maneira como o Brasil mede o desempenho do agronegócio. Continuamos atribuindo enorme importância ao volume produzido, às toneladas exportadas e ao faturamento comercial, enquanto indicadores fundamentais, como rentabilidade do produtor, eficiência financeira, valor agregado, diversificação de compradores e exposição aos riscos sanitários, recebem atenção insuficiente.
Produzir mais não significa necessariamente ganhar mais, especialmente quando os custos de produção aumentam, os preços são determinados por compradores concentrados e as restrições comerciais reduzem as alternativas de comercialização.
A ausência de uma estratégia nacional integrada acaba transferindo ao produtor rural uma parcela significativa das consequências econômicas das deficiências de gestão. O produtor investe em genética, tecnologia, alimentação, instalações, mão de obra e produtividade, mas permanece sujeito a oscilações de preços, restrições de mercado e dificuldades de comercialização que frequentemente estão além de sua capacidade individual de intervenção.
Enquanto isso, a política pública continua comemorando indicadores agregados que nem sempre representam a realidade financeira de quem efetivamente produz.
O Brasil precisa deixar de administrar o agronegócio apenas como um grande fornecedor mundial de commodities e começar a administrá-lo como um sistema econômico estratégico, cuja finalidade deve ser gerar riqueza, estabilidade financeira e desenvolvimento nacional.
Para isso, a transformação do Ministério da Agricultura em uma instituição efetivamente estratégica deve começar pela profissionalização de sua liderança, pela continuidade das políticas sanitárias, pela integração das estruturas estaduais e federais e pela implantação de indicadores objetivos de desempenho.
Precisamos saber quanto o país investe em prevenção, quanto tempo leva para identificar e controlar uma emergência, quais vulnerabilidades permanecem sem solução, quantos mercados foram efetivamente conquistados, quantas restrições comerciais poderiam ter sido evitadas e quanto valor econômico adicional essas conquistas proporcionaram aos produtores brasileiros.
A responsabilidade de um ministro da Agricultura não se limita à defesa sanitária, à fiscalização, à abertura de mercados ou à interlocução com grandes organizações empresariais. Sua missão precisa compreender o desenvolvimento econômico de toda a cadeia agropecuária, garantindo que a capacidade produtiva brasileira seja acompanhada por segurança, competitividade, diversificação comercial e geração de resultados financeiros dentro das propriedades rurais.
O Brasil possui recursos naturais, conhecimento científico, tecnologia, capacidade empresarial e produtores capazes de competir com os melhores sistemas agropecuários do mundo. O que precisamos é transformar essas vantagens em uma política nacional de gestão profissional, com planejamento de longo prazo, metas verificáveis e responsabilidade pelos resultados.
Não podemos continuar sendo uma potência mundial na produção de alimentos e, ao mesmo tempo, permanecer economicamente vulneráveis a cada restrição comercial, emergência sanitária ou decisão de um grande país importador.
O Brasil não precisa apenas de um ministro que represente politicamente o agronegócio. Precisa de um ministro que compreenda tecnicamente o setor, administre profissionalmente seus riscos e transforme sua extraordinária capacidade produtiva em riqueza para os produtores rurais e para o país.
Porque ser o celeiro do mundo não é suficiente quando não conseguimos transformar toda essa capacidade de produção em segurança econômica, independência comercial e prosperidade nacional.
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