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Brasil

O Ministério da Defesa que o Brasil precisa: de coordenação burocrática a emprego bélico eficaz

Gerson Gomes

Por Gerson GomesColunistaPublicado em 16/10/2026, 00:23Atualizado em 16/10/2026, 00:23

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O Ministério da Defesa que o Brasil precisa: de coordenação burocrática a emprego bélico eficaz

Confirmada a vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno, o Brasil estará diante de uma questão que vai além da política: como transformar o Ministério da Defesa de um órgão de coordenação burocrática em uma máquina de comando e controle capaz de operar no Escudo das Américas?

O problema é estrutural. O Ministério da Defesa brasileiro, criado em 1999, nunca recebeu poder e atribuição real de emprego conjunto dos meios bélicos. Cada Força mantém autonomia administrativa, orçamentária e financeira — cada uma com escritório próprio de compras no exterior e assessoria parlamentar independente no Congresso.

Nos Estados Unidos, o Departamento de Guerra funciona de forma oposta. A Goldwater-Nichols, lei federal promulgada em 1986 que promoveu a maior reorganização das Forças Armadas desde a criação do Departamento de Defesa em 1947, separou quem prepara de quem emprega: os departamentos militares recrutam, formam e equipam; os comandos operacionais executam. O secretário de Guerra, um civil, comanda de fato uma força de dois milhões de cidadãos voltados ao emprego bélico. O Brasil precisa evoluir para algo equivalente — adaptado à sua missão constitucional de defesa da pátria e projeção de poder dissuasório em seu entorno geopolítico.


A comparação numérica de generais revela o tamanho do problema

O Brasil tem 322 generais para 341 mil militares — um general para cada 1.060 combatentes. Os Estados Unidos têm 851 para 1,3 milhão — um para cada 1.531, e com o corte de 20% ordenado pelo Secretário Hegseth, chegará a um para cada 1.914. O Exército brasileiro possui 149 generais nos três graus hierárquicos (com duas, três e quatro estrelas); a Marinha e a Aeronáutica, com efetivos bem menores, operam com 86 e 87 respectivamente.

Soluções para nossa adequação já foram exaustivamente estudadas. Tomando-se a Marinha como exemplo, o comandante de operações navais (CON) é um almirante de quatro estrelas, com os meios bélicos sob seu comando direto. Os distritos navais, onde esses meios estão fisicamente posicionados, são comandados por almirantes de três estrelas, facilitando o comando e controle. O Exército, por sua vez, opera de forma distinta: o Comando de Operações Terrestres (COTER) é comandado por um quatro estrelas, mas sem tropa permanente. O país é dividido por Comandos Militares de Área, também comandados por generais de quatro estrelas, que abarcam os meios e efetivos de sua área.

A reestruturação é postergada há décadas pelo Ministério da Defesa e as Forças Armadas conservam sua estrutura formal, seus comandos, escolas e organizações em uma estrutura sem capacidade bélica efetiva, baixíssima interoperacionalidade, mantendo uma aparência de prontidão "em tempos de paz".

Lembro-me de uma solução onde os Comandos Militares de Área seriam comandados por Generais de Divisão (três estrelas), enquanto os três comandos de operações — Terrestres, Navais e Aeroespaciais — seriam comandados por quatro estrelas, tendo as tropas prontas e meios bélicos em suas mãos. Essa padronização traria uma substancial redução (em cascata) no número de oficiais generais, nas três Forças. Quero crer que ainda esteja sobre a mesa desde que deixei o serviço ativo, em 2013.

Um enxuto Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas (EMCFA) deve planejar e coordenar — é o cérebro, não a mão. Os comandantes de operações executam, enquanto os Comandantes das três Forças formam, preparam e equipam suas tropas, tendo voz ativa na formulação da Política de Defesa e avaliações das prioridades orçamentárias.

O chefe do EMCFA, o mais antigo dos quatro estrelas em atividade, deve ser o conselheiro militar principal do ministro — o equivalente brasileiro ao papel do general Caine nos Estados Unidos. O ministro da Defesa , por sua vez, o elo político entre o Presidente a República e a máquina de guerra.


O Escudo das Américas: coalizão sem tratado, com consequências reais

O Escudo das Américas foi lançado em março de 2026, numa cúpula no resort de Trump em Doral, na Flórida. Não é aliança militar em sentido jurídico — não há tratado, organismo internacional ou ratificação parlamentar. É uma coalizão ad hoc, liderada por Washington, com três pilares: econômico, segurança e coordenação multilateral.

Hoje reúne dezenove países: Estados Unidos, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru, Trinidad e Tobago, Bahamas, Belize, Guatemala e Jamaica. O Brasil não faz parte.
Em setembro, o grupo anunciou sanções coordenadas contra vinte e quatro organizações, incluindo PCC e Comando Vermelho, além de Tren de Aragua, Cartel de Los Soles, Sinaloa e Jalisco.

A operação é concreta: drones MQ-9 Reaper foram transferidos da África para Colômbia e Equador; centenas de soldados da 10ª Divisão de Montanha foram enviados para Panamá, Colômbia e Honduras; o general Donovan, do SOUTHCOM, visitou Bogotá em setembro; e o próprio Hegseth confirmou que a Colômbia solicitou operações conjuntas em seu território. O chefe do SOUTHCOM já declarou que "todas as opções estão em aberto", incluindo ataques em terra.

O detalhe que importa para o Brasil: a coalizão existe e já opera. Se Flávio vencer, o país não cria nada do zero — entra em uma estrutura em funcionamento, onde Colômbia e Estados Unidos, por exemplo, já compartilham inteligência, satélite e drones. Ou seja, a fronteira de 1.600 quilômetros com a Colômbia deixa de ser um problema apenas bilateral e pode se converter em teatro de operações da coalizão.

SISFRON e SisGAAz: da fronteira à Amazônia Azul

Com a adesão ao Escudo, o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON) e o Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAz) deixariam de ser programas nacionais isolados e passariam a alimentar e se valer de uma rede de inteligência hemisférica. Cabe a lembrança de que o termo "hemisférico" ganhou novo peso com a Estratégia de Segurança Nacional americana, de dezembro de 2025, que formalizou o que a imprensa chama de Doutrina Donroe — a retomada da Doutrina Monroe de 1823, tendo o Hemisfério Ocidental como perímetro estratégico contra cartéis, migração e presença/influência chinesa.

No SISFRON, o impacto se daria em três frentes:
Primeiro, a integração com os sistemas norte-americanos — os drones Reaper que os EUA transferiram para a região geram imagem satelital e inteligência que hoje não conversa com os radares e sensores térmicos brasileiros.
Segundo, a guerra eletrônica: os sensores de medidas de apoio do SISFRON detectam transmissões de rádio. Integrados ao Escudo, haveria compartilhamento em tempo real de dados com vizinhos e com o SOUTHCOM.
Terceiro, o gargalo financeiro: das nove fases previstas, só duas estão concluídas, com operação plena postergada para 2039. A adesão ao Escudo promete acesso a tecnologia americana que hoje é bloqueada por restrições de exportação.

No SisGAAz, o movimento já começou: o Comando de Operações Marítimas e Proteção da Amazônia Azul (COMPAAz) ativará, em três de novembro, o Information Fusion Center Atlântico Sul, um centro cooperativo de fusão de dados marítimos. Com o Brasil no Escudo, esse centro deixaria de ser um projeto limitado, se convertendo em elo dos sistemas americanos de vigilância marítima — protegendo o pré-sal, que responde por quatro quintos da produção nacional de petróleo, e as rotas do Atlântico Sul.

O ponto de tensão óbvio é a cessão de soberania: compartilhar dados de fronteira e do mar com Washington significa aceitar que a inteligência americana veja o que o Brasil enxerga. A contrapartida é que o Brasil passaria a ver o que os americanos veem — e hoje, nas fronteiras terrestres e no mar territorial, é exatamente o que nos falta.


Zona de Defesa e a fronteira tênue entre o bélico e o policial

A doutrina brasileira já prevê essa integração. O EMCFA define a Zona de Defesa (ZD) como estrutura que abarca Força Naval, Força Terrestre, Força Aérea, Comando Logístico — e, explicitamente, a Força dos Órgãos de Segurança Pública. O comandante da ZD exerce comando operacional sobre as tropas adjudicadas e controle operacional sobre os órgãos de segurança designados. Ele também coordena as atividades dos demais órgãos públicos federais, estaduais e municipais na área designada.

A complexa fronteira entre o emprego bélico e as ações policiais não configura lacuna doutrinária — é, na verdade, a realidade de áreas como a Amazônia. Na Operação Ágata, o Exército atua com Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Receita Federal, Ibama e polícias estaduais. Na Ajuricaba, no Acre, mais de mil militares da 17ª Brigada de Infantaria de Selva operaram com PF, PRF, PMs do Acre e Rondônia, Receita e secretarias estaduais de meio ambiente. O mesmo pelotão de fronteira que apreende fuzil de traficante pode, no dia seguinte, apreender madeira ilegal ou combustível contrabandeado.

O problema é que essa integração é episódica — a Ágata funciona em pontos aleatórios, por períodos curtos, com fator surpresa. A Sentinela, a vertente policial permanente, foi desativada em 2016. O resultado é um sistema de segurança com uma vertente militar intermitente e uma policial quase inexistente nas áreas de selva.

Com esta reestruturação em estudo, a Zona de Defesa deixa de ter uma ativação rara e passa a instrumento permanente de integração: o comandante de operações coordena os meios da PF, PRF, Receita, Ibama e polícias estaduais sob um único centro de comando e controle. A inteligência militar e a policial deixam de operar em silos isolados.

O desafio constitucional é ainda relevante: o artigo 144 da Constituição atribui o comando das polícias aos governadores. A ZD não resolve isso por decreto — resolve por protocolo, com os estados designando quais meios entram sob controle operacional. É negociação federativa, não imposição.

Do lado norte-americano um modelo já existe: o SOUTHCOM criou em agosto a Joint Task Force Western Hemisphere, permanente, embutindo operadores com forças parceiras — no Equador, forças especiais americanas já operam embutidas em ações contra traficantes. O JIATF-S, em Key West, faz a fusão de inteligência marítima com dezoito países parceiros. O Brasil ainda está fora dessa rede.

A inteligência é a camada que nenhuma tropa resolve sozinha, especialmente em tempos de enorme movimentação financeira do crime organizado. A Operação Carbono Oculto revelou que o PCC controla pelo menos quarenta fundos de investimento com patrimônio de trinta bilhões de reais. A Operação Red Fox prendeu um operador financeiro em Tabatinga — na tríplice fronteira — que movimentou cento e cinquenta milhões de reais. O crime organizado não é apenas fuzil na selva: é fintech em São Paulo, criptoativo em Roraima, ouro lavado no garimpo.

O crime organizado urbano: a demanda que a reestruturação não pode ignorar

O crime organizado há muito tempo deixou de ser apenas um problema policial. Grupos armados controlam territórios, impõem regras, exploram atividades econômicas, intimidam populações, corrompem agentes públicos em todos os níveis e mantêm conexões internacionais.

O Comando Vermelho e o PCC foram rotulados como organizações narcoterroristas, e Flávio Bolsonaro promete formalizar essa classificação se eleito. Mas as facções e milícias não operam só na Amazônia — dominam grandes áreas urbanas (algumas densamente povoadas) no Rio de Janeiro, na Bahia, no Ceará, avançando para o norte e oeste.

As experiências recentes de emprego militar nas cidades se mostraram ineficazes. A ocupação do Morro do Alemão, em 2010, mobilizou cerca de dois mil e seiscentos militares por meses — e quando saíram, o tráfico voltou. A intervenção federal no Rio, durante quase o ano inteiro de 2018, custou bilhões e terminou sem resultado estrutural. Nos grandes eventos esportivos (Copa do Mundo e Jogos Olímpicos) as Forças Armadas coordenaram a segurança com sucesso, no entanto, em ações de curta duração e sem sustentabilidade.

A reestruturação do MD precisa contemplar o crime organizado urbano por extensão, não por exceção. A Zona de Defesa não precisa ser apenas amazônica, ou nas fronteiras: pode ser ativada em qualquer área do território onde o Estado perdeu o monopólio da força.
No RJ, por exemplo, isso significaria a presença de um comandante de operações coordenando tropas federais com meios estaduais (como o BOPE) sob controle operacional — a mesma estrutura da fronteira, adaptada ao emprego nas cidades. A solução deve passar pelo protocolo federativo — o estado designa quais meios passará ao controle operacional e o governo federal fornece a estrutura de comando, inteligência, tropas e logística que a polícia sozinha não possui.

Cabe ressaltar que não nos falta a doutrina. A MINUSTAH, de 2004 a 2017, enviou cerca de trinta e sete mil militares em vinte e seis contingentes ao Haiti— e foi lá que o Exército foi empregado em combate urbano contra gangues armadas sob regras de engajamento do Capítulo VII da ONU.
O BRABATT, o batalhão brasileiro em Porto Príncipe, desenvolveu táticas de aproximação, patrulhas a pé e em blindados por vielas, controle de uso da força e coordenação com componentes civis. Essa experiência foi codificada no Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil (CCOPAB) e virou base doutrinária de operações de garantia da lei e da ordem (GLO) e das próprias UPPs no RJ. O que falta não é aprender — é institucionalizar.

Nossos vizinhos já estão se movendo nessa direção. No Peru, Keiko Fujimori anunciou, em 7 de outubro, um Comando Unificado de mil e trezentos e cinquenta efetivos — quinhentos do Exército, duzentos e cinquenta da Força Aérea, duzentos da Marinha, oitenta de forças especiais conjuntas e trezentos e vinte policiais de unidades especializadas — operando de um centro de controle no Quartel General do Exército, em Lima. No Equador, o governo Noboa já emprega militares nas ruas de Quito e Guayaquil, com apoio americano de dois Black Hawks e dois drones Reaper cobrindo a fronteira com a Colômbia, e oitenta e seis policiais treinados em Camp Shelby, no Mississippi. A Colômbia, com o Escudo, caminha na mesma direção.

A indústria de defesa brasileira: a maior beneficiária do Escudo

A Colômbia assinou em agosto um contrato de trezentos e sessenta e seis milhões de dólares com a Embraer para dois KC-390 Millennium — o primeiro cliente latino-americano fora do Brasil, com entregas em 2029 e 2030. Em outubro, o primeiro Gripen E fabricado fora da Suécia voou em Gavião Peixoto: a linha conjunta Embraer-Saab é a única fora da Suécia, e os quinze Gripen E encomendados pela Colômbia saem dela. Em julho, as duas empresas assinaram um protocolo de intenções para mais vinte Gripen em Gavião Peixoto — se virar contrato, a fábrica chega a trinta e cinco aeronaves.

O Super Tucano ganhou capacidade anti-drone: sensores eletro-ópticos, datalinks, foguetes guiados a laser e metralhadoras calibre ponto cinquenta, com o sistema de inteligência artificial Gunslinger da Valkyrie Aero. A demonstração com drones reais aconteceu em setembro, e a capacidade deve estar disponível no final deste ano. A Letônia já avalia o A-29 como interceptador de drones — o Brasil tem a plataforma certa para a ameaça certa.

O tema dos helicópteros Black Hawk merece destaque: o Brasil pagou cerca de vinte e um milhões de dólares por unidade na compra de onze UH-60L em 2025, enquanto a Argentina fechou quatro unidades por vinte e oito milhões no pacote total — com apoio colombiano. A Colômbia, com setenta Black Hawks, é o centro de manutenção da região e o terceiro maior operador do mundo. O Brasil compra o mesmo equipamento pagando muito mais caro e em condições contratuais piores.

Cabe a lembrança adicional de que o braço internacional do Departamento de Justiça dos EUA também está financiando equipamentos, treinamento e programas de segurança pública em toda a região. Helicópteros para as forças policiais, por exemplo, foram incluídos no pacote da coalizão. A indústria brasileira é a maior e mais organizada do hemisfério sul. O Escudo não é só aliança militar — é mercado garantido, financiamento acessível e interoperabilidade com o maior comprador do planeta.

Conclusão

A adesão ao Escudo das Américas nos lança um desafio ainda maior: operações combinadas com Estados Unidos e outros países exigem um nível de interoperabilidade que não se adquire com exercícios pontuais. O preparo conjunto precisa ser rotina — e a estrutura de comandos de operações permanente.

A reforma mencionada neste artigo não é inovadora. É estudada há décadas e sua implementação segue pendente do surgimento de lideranças políticas e militares dotadas de pensamento estratégico.
A vergonhosa alternativa segue posta: continuarmos com um ministério que burocraticamente coordena uma estrutura bélica ineficaz, preservada mais pela tradição que pela capacidade de cumprir seu papel constitucional.

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