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Brasil

QUEM SUBSIDIA QUEM? O AGRO GERA TRILHÕES, MAS CONTINUA DEPENDENDO DO GOVERNO PARA FINANCIAR SUA PRÓPRIA PRODUÇÃO

Celso Ricardo

Por Celso RicardoColunistaPublicado em 17/10/2026, 07:17Atualizado em 17/10/2026, 07:17

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QUEM SUBSIDIA QUEM? O AGRO GERA TRILHÕES, MAS CONTINUA DEPENDENDO DO GOVERNO PARA FINANCIAR SUA PRÓPRIA PRODUÇÃO

QUEM SUBSIDIA QUEM? O AGRO GERA TRILHÕES, MAS CONTINUA DEPENDENDO DO GOVERNO PARA FINANCIAR SUA PRÓPRIA PRODUÇÃO

Por Celso Ricardo Ferreira – Consultor em Gestão Estratégica em Agronegócio

O agronegócio brasileiro precisa enfrentar uma das maiores contradições da sua estrutura econômica e financeira: embora seja responsável pela geração de trilhões de reais em riqueza, pela entrada expressiva de divisas internacionais e por uma importante contribuição à arrecadação tributária nacional, continua submetido a um modelo de financiamento no qual o governo federal anuncia linhas de crédito, subvenções e programas de renegociação de dívidas como se estivesse concedendo benefícios extraordinários a um setor incapaz de sustentar suas próprias necessidades. Essa narrativa precisa ser questionada, porque existe uma diferença fundamental entre o Estado administrar recursos provenientes da atividade econômica e apresentar a aplicação de parte desses recursos como uma demonstração de generosidade governamental.

Os números ajudam a compreender a dimensão dessa contradição. Segundo o Cepea/Esalq-USP e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o Produto Interno Bruto do agronegócio brasileiro alcançou R$ 3,20 trilhões em 2025, representando 25,13% da economia nacional. No mesmo período, as exportações do setor atingiram US$ 169,2 bilhões, aproximadamente metade das exportações brasileiras, com superávit comercial de US$ 149,07 bilhões. Além desses resultados, toda a cadeia agroindustrial participa da formação da arrecadação tributária por meio de impostos, contribuições e demais obrigações fiscais incidentes sobre suas atividades. Estamos diante de um sistema econômico de dimensões extraordinárias, cuja capacidade de geração de riqueza, movimentação financeira e contribuição fiscal exige uma política de financiamento compatível com sua importância.

É necessário esclarecer que PIB, exportações e tributos representam dimensões distintas da contribuição econômica do setor e não podem ser simplesmente somados como riqueza líquida adicional, pois existem sobreposições contábeis. Entretanto, essa distinção não altera o fato central: o agronegócio brasileiro movimenta uma estrutura econômica de trilhões de reais e participa decisivamente da sustentação da economia nacional. O verdadeiro problema não está na insuficiência de capacidade econômica do setor, mas na ausência de mecanismos suficientemente robustos para transformar parte dessa capacidade em capital permanente de financiamento, proteção e desenvolvimento da própria atividade produtiva.

A crítica central é que o governo federal arrecada recursos de uma economia fortemente sustentada por atividades produtivas como o agronegócio, mas não oferece ao setor um modelo de retorno financeiro, previsibilidade e proteção compatível com os riscos e as necessidades da produção rural. O produtor enfrenta juros elevados, dificuldades de acesso ao crédito, insuficiência de cobertura securitária, limitações de armazenagem e renegociações recorrentes de dívidas. Enquanto isso, os anúncios oficiais destacam bilhões de reais disponibilizados em planos e programas, frequentemente sem esclarecer à sociedade que grande parte dos financiamentos anunciados corresponde a recursos de instituições financeiras e de outras fontes de captação, e não a dinheiro entregue gratuitamente pelo Tesouro Nacional.

Essa distinção é indispensável para desmontar uma interpretação equivocada sobre o financiamento rural. Quando o governo anuncia centenas de bilhões de reais para o Plano Safra, isso não significa que esteja subsidiando integralmente aquele montante. O crédito contratado constitui uma obrigação financeira que deverá ser paga pelo produtor, acrescida dos encargos estabelecidos. O subsídio público efetivo está concentrado em mecanismos específicos, como a equalização de juros e outras subvenções previstas na política agrícola. Portanto, apresentar o volume total de crédito disponibilizado como se fosse uma transferência de riqueza do governo para o agronegócio distorce a compreensão da sociedade sobre quem efetivamente financia a produção.

O mesmo raciocínio precisa ser aplicado às renegociações de dívidas rurais. Renegociar uma obrigação financeira não significa necessariamente perdoar a dívida ou conceder recursos gratuitos ao produtor. Em muitas operações, o que ocorre é a reorganização de vencimentos, a incorporação de encargos e a manutenção de compromissos financeiros que continuarão sendo pagos com a renda das safras futuras. A sucessão de programas emergenciais revela uma deficiência estrutural: o Brasil ainda não consolidou um sistema permanente de prevenção, recuperação e estabilização financeira do produtor rural. Em vez de enfrentar as causas econômicas do endividamento, frequentemente administra suas consequências, mantendo o setor dependente de decisões periódicas e negociações institucionais.

No seguro rural, essa deficiência torna-se ainda mais evidente. Um setor exposto a secas, enchentes, geadas, oscilações de preços, problemas sanitários e riscos comerciais necessita de instrumentos permanentes de proteção da renda e do patrimônio. Entretanto, a insuficiência de recursos públicos para subvenção ao prêmio limita a abrangência da cobertura. O resultado é uma estrutura produtiva que assume riscos elevados, mas não dispõe de um sistema de proteção proporcional à importância econômica de suas atividades. A ausência de cobertura adequada também aumenta a vulnerabilidade do crédito, porque perdas produtivas podem transformar operações originalmente viáveis em situações de inadimplência.

A armazenagem representa outra demonstração das limitações desse modelo. A insuficiência de capacidade estática obriga parte dos produtores a comercializar suas safras em períodos de maior oferta, quando os preços podem estar pressionados e os custos logísticos elevados. Isso compromete a capacidade de negociação, reduz a possibilidade de planejamento comercial e favorece a transferência de oportunidades econômicas para outros agentes da cadeia. O Brasil produz volumes expressivos de grãos, mas ainda não estruturou uma política de financiamento da armazenagem capaz de acompanhar adequadamente a expansão da produção. Não basta comemorar recordes de safra quando o produtor permanece limitado em sua capacidade de escolher o momento economicamente mais favorável para vender.

É nesse contexto que defendo a criação de um Banco do Agronegócio Brasileiro, estruturado para transformar a capacidade econômica do próprio setor em autonomia financeira, capacidade de investimento e proteção permanente da produção. Não se trata de criar mais uma instituição dependente de indicações políticas, recursos orçamentários imprevisíveis ou decisões governamentais de curto prazo. Trata-se de desenvolver uma arquitetura financeira especializada, com capitalização privada e cooperativa, participação de investidores institucionais, instrumentos de mercado de capitais, fundos garantidores, mecanismos de compartilhamento de riscos e governança profissional, transparente e independente.

Esse banco poderia atuar de maneira integrada no financiamento do custeio agrícola e pecuário, no crédito de investimento, na modernização tecnológica, na expansão da armazenagem, na industrialização, na agregação de valor e na recuperação financeira de produtores economicamente recuperáveis. Poderia também estruturar, em parceria com seguradoras e resseguradoras, instrumentos de seguro rural, proteção de renda e mitigação de riscos climáticos e comerciais. Um sistema dessa natureza permitiria desenvolver linhas de financiamento ajustadas aos ciclos produtivos, às características regionais, aos custos efetivos e à capacidade de pagamento dos produtores, substituindo parte da dependência de programas emergenciais por planejamento financeiro permanente.

Naturalmente, a viabilidade desse modelo dependeria de capital próprio, captação de recursos, gestão prudencial, supervisão do Banco Central, reservas de liquidez, controle de inadimplência e critérios rigorosos de concessão de crédito. A riqueza produzida anualmente pelo agronegócio não representa dinheiro automaticamente disponível para financiar uma instituição bancária. Entretanto, sua dimensão econômica demonstra a existência de uma base produtiva capaz de sustentar a mobilização de poupança, investimentos e instrumentos financeiros especializados. A proposta consiste precisamente em criar mecanismos para que uma parcela maior dos recursos financeiros gerados e movimentados pelo setor seja reinvestida em suas próprias necessidades.

A discussão também exige uma revisão profunda da forma como os recursos públicos destinados ao agronegócio são apresentados à sociedade. O dinheiro utilizado pelo governo não nasce no orçamento federal; sua principal origem está na atividade econômica e na tributação da riqueza gerada por produtores, empresas, trabalhadores e consumidores. Por isso, não se pode confundir a administração de recursos públicos com uma concessão pessoal ou política de benefícios. O subsídio, quando existente, é um instrumento de política econômica financiado pela sociedade, e sua eficácia deve ser avaliada pelo retorno econômico e social produzido, não pela dimensão dos anúncios oficiais.

Minha crítica à gestão federal é justamente essa: considero economicamente inadequado um modelo que utiliza a força produtiva do agronegócio como indicador de prosperidade nacional, mas não consegue assegurar instrumentos permanentes e suficientes de estabilidade financeira ao produtor. A repetição de renegociações, a dependência de decisões orçamentárias para o seguro rural, as dificuldades de financiamento e a insuficiência de armazenagem são problemas concretos que precisam ser confrontados com os resultados econômicos extraordinários do setor. O governo anuncia recursos, mas o produtor continua assumindo grande parte dos riscos, dos custos financeiros e das consequências de um sistema que privilegia o volume produzido sem garantir a sustentabilidade econômica de quem produz.

É importante reconhecer que o agronegócio contribui para o financiamento do Estado por meio de sua atividade econômica e dos tributos associados à cadeia produtiva, enquanto também recebe benefícios de políticas públicas. Para determinar rigorosamente quem realiza a maior transferência financeira líquida, seria necessário consolidar a arrecadação atribuível ao setor e confrontá-la com os gastos públicos efetivamente destinados a ele. Entretanto, a inexistência dessa comparação consolidada não impede uma conclusão estratégica: a capacidade de geração de riqueza do agronegócio brasileiro justifica a construção de um sistema financeiro próprio, mais autônomo, especializado e comprometido com a permanência do produtor na atividade.

O Brasil precisa abandonar a lógica de transformar o financiamento da produção rural em instrumento de propaganda governamental. O agronegócio não pode continuar sendo apresentado como um setor que sobrevive exclusivamente graças à intervenção financeira do Estado, quando sua contribuição econômica é uma das principais forças de sustentação do país. A prioridade deve ser assegurar que uma parcela maior da riqueza e dos recursos financeiros mobilizados por essa cadeia permaneça disponível para financiar produção, inovação, armazenagem, industrialização, seguro rural, recuperação financeira e agregação de valor.

O agronegócio brasileiro não precisa apenas de mais anúncios de crédito, de novas renegociações ou de programas emergenciais que se repetem a cada crise. Precisa de uma estrutura econômica e financeira capaz de transformar sua extraordinária capacidade produtiva em estabilidade, rentabilidade, patrimônio e autonomia.

A grande mudança de paradigma é deixar de tratar o produtor rural como dependente permanente das decisões financeiras do governo e passar a reconhecê-lo como integrante de um sistema econômico que possui capacidade para estruturar seus próprios instrumentos de financiamento e proteção.

O agronegócio brasileiro já demonstrou que sabe produzir riqueza para o país. O que falta é construir um modelo de gestão que permita transformar essa riqueza em segurança financeira para quem efetivamente produz.

Referências institucionais: Cepea/Esalq-USP e CNA, PIB do Agronegócio de 2025, divulgado em abril de 2026; Ministério da Agricultura e Pecuária, Balança Comercial do Agronegócio de 2025, publicada em janeiro de 2026; Ministério da Agricultura e Pecuária, informações sobre crédito rural e equalização de juros do Plano Safra 2026/2027.

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