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Brasil

SAFRA RECORDE NÃO É SINÔNIMO DE RIQUEZA: O BRASIL PRECISA PARAR DE MEDIR O AGRO PELO VOLUME E COMEÇAR A MEDIR PELA EFICIÊNCIA FINANCEIRA

Celso Ricardo

Por Celso RicardoColunistaPublicado em 28/09/2026, 08:09Atualizado em 28/09/2026, 08:09

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SAFRA RECORDE NÃO É SINÔNIMO DE RIQUEZA: O BRASIL PRECISA PARAR DE MEDIR O AGRO PELO VOLUME E COMEÇAR A MEDIR PELA EFICIÊNCIA FINANCEIRA

SAFRA RECORDE NÃO É SINÔNIMO DE RIQUEZA: O BRASIL PRECISA PARAR DE MEDIR O AGRO PELO VOLUME E COMEÇAR A MEDIR PELA EFICIÊNCIA FINANCEIRA

Por Celso Ricardo Ferreira – Consultor em Gestão Estratégica em Agronegócio

Durante décadas, o Brasil construiu sua imagem no agronegócio mundial a partir de uma lógica que parece incontestável à primeira vista: quanto maior a produção, maior seria a força econômica do setor. A expansão da área cultivada, o aumento da produtividade por hectare, o crescimento dos rebanhos, a ampliação das exportações e a sucessão de safras recordes passaram a ser utilizados como principais indicadores da evolução do agronegócio nacional. Essa trajetória consolidou o Brasil como uma das maiores potências mundiais na produção de commodities agrícolas e proteínas, mas também criou uma distorção importante na avaliação do desempenho econômico de quem está na origem dessa produção: passou-se a confundir eficiência produtiva com eficiência financeira.

Produzir mais é importante, mas produzir mais não significa necessariamente gerar mais riqueza para quem produz. Essa distinção é fundamental para compreender o momento econômico vivido pelo setor rural brasileiro. O resultado econômico de uma propriedade não é determinado pela quantidade física produzida, mas pela relação entre receita, custos, capital empregado, estrutura financeira, capacidade de comercialização, logística, riscos e margem obtida ao final do ciclo produtivo. No final das contas, não é a quantidade de toneladas, sacas ou arrobas produzidas que determina a capacidade de sobrevivência econômica de uma propriedade, mas o resultado financeiro que permanece depois de todos os custos e compromissos assumidos.

É justamente nessa diferença que está um dos principais problemas do modelo de desenvolvimento que o agronegócio brasileiro vem seguindo. O país comemora cada novo recorde de produção como demonstração inequívoca de força, mas uma safra recorde não representa, por si só, um recorde de rentabilidade. O aumento da produção física pode ocorrer simultaneamente ao aumento dos custos, da necessidade de capital, da exposição ao crédito e da pressão sobre os preços. Quando isso acontece, o produtor pode produzir mais, movimentar mais recursos e ainda assim terminar o ciclo com uma margem financeira insuficiente para acompanhar o crescimento de suas necessidades.

Essa realidade precisa ser compreendida porque grande parte da produção brasileira está inserida em mercados de commodities, nos quais o produtor individual possui capacidade limitada de determinar o preço de venda. O produtor pode controlar uma parcela significativa dos seus custos e das suas decisões produtivas, mas não controla individualmente o comportamento da oferta mundial, a demanda internacional, as condições cambiais, os estoques, os movimentos dos grandes compradores ou as oscilações dos mercados internacionais. Quando milhares de produtores aumentam simultaneamente a oferta de um produto padronizado, o aumento do volume produzido não garante remuneração proporcionalmente maior.

É por isso que a obsessão por produtividade física precisa dar lugar a uma visão mais ampla de eficiência. A produtividade por hectare continua sendo um indicador fundamental e jamais deve ser desprezada, mas ela precisa estar subordinada a um indicador ainda mais importante para a sustentabilidade econômica da propriedade: quanto resultado financeiro esse hectare efetivamente consegue gerar.

O conceito de eficiência financeira por hectare precisa ocupar o centro da gestão do agronegócio brasileiro. Isso significa avaliar a capacidade de cada hectare produzir resultado econômico depois de considerados os custos operacionais, o custo do capital, os investimentos, a depreciação, a logística, a comercialização, as perdas e os riscos envolvidos na atividade. Significa compreender que produzir mais fisicamente não representa necessariamente produzir melhor economicamente.

Uma propriedade que produz mais sacas por hectare, mas precisa utilizar proporcionalmente mais capital, mais insumos e mais crédito para alcançar esse resultado, pode apresentar uma eficiência financeira inferior à de uma propriedade que produz menos fisicamente, mas consegue preservar uma margem maior. A diferença entre os dois modelos está justamente na capacidade de transformar recursos empregados em riqueza efetivamente acumulada pelo produtor.

Essa mudança de perspectiva também é indispensável para compreender o crescimento da necessidade de crédito no setor. O crédito rural é essencial para a agricultura e para a pecuária brasileiras e continuará sendo uma ferramenta fundamental para custeio, investimento, modernização, tecnologia e expansão da produção. O problema não está na existência do crédito, mas na possibilidade de o crédito passar de instrumento de desenvolvimento para mecanismo permanente de sustentação de um sistema cuja rentabilidade não acompanha a evolução dos custos e das necessidades financeiras.

Quando a cada novo ciclo o produtor precisa de mais capital para continuar produzindo, enquanto sua margem não cresce na mesma proporção, é necessário olhar para a estrutura econômica da atividade. A simples ampliação do volume de crédito disponível não resolve uma deficiência estrutural de rentabilidade. Crédito pode financiar uma atividade eficiente, mas não pode transformar uma margem insuficiente em uma margem adequada.

Essa é uma questão que precisa ser considerada também na discussão sobre o Plano Safra. O tamanho dos recursos disponibilizados pelo governo é importante, mas não deveria ser o único indicador utilizado para avaliar a saúde financeira do setor. É necessário observar por que a necessidade de crédito cresce, como esses recursos estão sendo utilizados, qual é o custo financeiro assumido pelo produtor e, principalmente, se a atividade produtiva está gerando renda suficiente para que esse capital seja remunerado e devolvido de maneira sustentável.

Um sistema produtivo economicamente saudável deveria utilizar o crédito principalmente como ferramenta de investimento e crescimento, e não como condição permanente para continuar produzindo. Quanto maior a eficiência financeira da propriedade, maior tende a ser sua capacidade de gerar caixa próprio, reinvestir, formar patrimônio e reduzir gradualmente sua dependência de capital de terceiros.

O problema é que o atual modelo frequentemente estimula o produtor a buscar escala antes de buscar eficiência econômica. A lógica passa a ser produzir mais, aumentar a área, aumentar a produtividade, comprar mais máquinas, utilizar mais tecnologia, ampliar o volume de insumos e buscar mais capital para financiar esse crescimento. Entretanto, se o preço da commodity não acompanha a elevação dos custos e se o produtor não possui capacidade suficiente para agregar valor ou escolher o melhor momento de comercialização, a escala pode aumentar sem que a riqueza acumulada aumente na mesma proporção.

É nesse contexto que a expressão "safra recorde" precisa ser analisada com muito mais responsabilidade. Uma safra recorde é positiva quando o aumento da produção consegue ser convertido em aumento de renda, patrimônio e capacidade financeira para quem produz. Porém, quando o aumento do volume ocorre em um ambiente de preços pressionados, custos elevados, necessidade de crédito, limitações de armazenagem e dificuldades de comercialização, o recorde físico pode não se transformar em recorde econômico.

O produtor rural brasileiro enfrenta ainda uma restrição que muitas vezes é pouco discutida: ele precisa produzir, mas nem sempre possui liberdade econômica para decidir quando vender. A deficiência de armazenagem, os custos logísticos, os compromissos financeiros e a necessidade de geração imediata de caixa podem obrigá-lo a comercializar parte da produção em momentos nos quais as condições de mercado não são necessariamente as mais favoráveis. Produzir muito e precisar vender rapidamente são duas condições que podem reduzir significativamente o poder de negociação de quem está na origem da cadeia.

Essa situação é particularmente preocupante porque o produtor trabalha com uma commodity que, por definição, possui menor diferenciação. Quando o produto chega ao mercado sem atributos suficientes que permitam capturar valor adicional, a negociação tende a ficar concentrada no preço. E quando o produtor precisa vender, ele não pode simplesmente esperar indefinidamente por uma condição melhor, porque existem parcelas de financiamento, fornecedores, despesas operacionais, custos de produção e compromissos familiares e empresariais que precisam ser honrados.

É justamente nesse ponto que a agregação de valor passa a ser estratégica. O Brasil possui uma extraordinária capacidade de produzir matéria-prima, mas precisa ampliar sua capacidade de transformar essa matéria-prima em produtos de maior valor econômico. Isso vale para grãos, carnes, leite e praticamente todas as cadeias do agronegócio. Diferenciação, qualidade, rastreabilidade, origem, processamento, industrialização, segmentação de mercado e desenvolvimento de produtos específicos podem aumentar a capacidade de captura de valor ao longo da cadeia.

Isso não significa abandonar as commodities, que continuarão sendo fundamentais para a economia brasileira. Significa deixar de depender exclusivamente da expansão do volume produzido como principal estratégia de crescimento. O Brasil pode continuar sendo um dos maiores produtores mundiais e, simultaneamente, construir um modelo no qual uma parcela maior do valor gerado permaneça com o produtor e fortaleça sua estrutura patrimonial.

O verdadeiro problema não é o Brasil produzir muito. O problema é produzir muito sem garantir que o crescimento da produção esteja acompanhado de crescimento proporcional da eficiência financeira. Um setor pode apresentar números extraordinários de produção e exportação e, ainda assim, possuir uma base produtiva financeiramente fragilizada. Produção nacional elevada e produtor rural capitalizado são indicadores diferentes e precisam ser tratados como tal.

A força do agronegócio brasileiro não deveria ser medida apenas pela quantidade de alimentos que o país consegue produzir, mas também pela capacidade de transformar essa produção em renda, patrimônio, competitividade e autonomia econômica para quem assume o risco da atividade. Se o produtor precisa aumentar continuamente sua produção apenas para manter sua renda, existe uma clara necessidade de revisão do modelo de gestão.

O próximo salto do agronegócio brasileiro precisa ser um salto de eficiência econômica. O objetivo não deve ser simplesmente produzir mais toneladas, mais sacas ou mais arrobas, mas produzir com maior resultado financeiro por hectare e por unidade de capital empregado. Essa mudança pode permitir que o produtor aumente sua capacidade de geração de caixa, reduza sua dependência de crédito, preserve patrimônio e tenha maior capacidade de enfrentar os ciclos naturais de preços e custos que caracterizam a atividade agropecuária.

A eficiência produtiva continuará sendo importante, mas precisa estar a serviço da eficiência financeira. A produtividade deve contribuir para aumentar a margem, e não simplesmente para aumentar o volume. A tecnologia deve contribuir para gerar resultado, e não apenas para aumentar a produção. O crédito deve financiar eficiência e crescimento sustentável, e não simplesmente permitir que o produtor continue repetindo um ciclo econômico cada vez mais dependente de capital externo.

O Brasil já provou que sabe produzir em escala. Já provou que possui tecnologia, capacidade empresarial, condições naturais e conhecimento técnico para ocupar uma posição de liderança mundial na produção de alimentos e commodities. O desafio agora é muito maior: precisamos provar que sabemos transformar essa capacidade produtiva em riqueza sustentável para quem produz.

O verdadeiro indicador de força do agro brasileiro não deveria ser apenas o recorde de produção anunciado a cada safra, mas a capacidade de cada hectare gerar resultado econômico suficiente para remunerar o produtor, remunerar o capital empregado, formar patrimônio e permitir que a propriedade continue crescendo sem depender permanentemente de novos ciclos de endividamento.

Produzir mais pode fazer o Brasil crescer nas estatísticas de produção. Produzir com eficiência financeira é o que pode fazer o produtor crescer economicamente.

Essa precisa ser a próxima grande mudança de gestão do agronegócio brasileiro: deixar de perseguir exclusivamente recordes de produção e começar a perseguir recordes de eficiência financeira, porque a verdadeira potência agropecuária não é aquela que simplesmente produz mais alimentos, mas aquela que consegue transformar cada hectare produzido em maior geração de riqueza, maior capacidade de investimento e maior autonomia para quem está na origem de toda essa cadeia.

O Brasil não precisa apenas ser reconhecido como um dos maiores produtores de alimentos do mundo. Precisa ser reconhecido como um país capaz de produzir alimentos com eficiência econômica, agregar valor à sua produção e garantir que o produtor rural seja fortalecido pelo próprio crescimento do agronegócio que ele sustenta.

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