TRUMP DEFENDE OS EUA. XI DEFENDE A CHINA. LULA ESTÁ DEFENDENDO O QUÊ?
Por Celso RicardoColunistaPublicado em 04/10/2026, 08:18Atualizado em 04/10/2026, 08:18

TRUMP DEFENDE OS EUA. XI DEFENDE A CHINA. LULA ESTÁ DEFENDENDO O QUÊ?
Por Celso Ricardo Ferreira – Consultor em Gestão Estratégica em Agronegócio
Donald Trump e Xi Jinping representam sistemas políticos, visões de mundo e projetos nacionais completamente diferentes. Um lidera os Estados Unidos; o outro lidera a China. Um se apresenta como defensor do capitalismo americano e utiliza de forma agressiva instrumentos de proteção comercial; o outro conduz uma economia de Estado que combina planejamento estratégico, forte presença governamental e participação intensa no comércio internacional. Não é necessário concordar com nenhum dos dois para reconhecer uma característica que merece ser observada: ambos colocam de maneira explícita os interesses nacionais no centro de suas estratégias econômicas.
Donald Trump não esconde sua disposição de utilizar tarifas, sobretaxas e outros instrumentos comerciais para proteger interesses econômicos e estratégicos dos Estados Unidos. Em fevereiro de 2026, por exemplo, seu governo estabeleceu uma sobretaxa geral de importação de 10% e justificou a medida como instrumento de proteção da economia e da segurança nacional americana.
Xi Jinping conduz uma estratégia diferente, mas igualmente orientada pelos interesses chineses. A legislação chinesa de comércio exterior revisada em 2025 passou a estabelecer expressamente que o comércio exterior deve servir ao desenvolvimento econômico e social e aos interesses de soberania, segurança e desenvolvimento da China. Ao mesmo tempo, Pequim continua defendendo a ampliação de sua inserção comercial e a abertura de novos mercados.
Há uma lição importante nessa aparente contradição: proteger os interesses nacionais não significa fechar as portas para o mundo. Significa negociar com o mundo sem abrir mão dos próprios interesses.
Estados Unidos e China podem disputar mercados, aplicar barreiras, defender setores estratégicos, pressionar parceiros e, ao mesmo tempo, sentar-se à mesa para negociar. Trump e Xi fizeram isso em 2026, quando os dois governos retomaram entendimentos sobre a relação bilateral e questões comerciais.
É exatamente nesse ponto que o Brasil precisa fazer uma reflexão profunda.
O Brasil possui território, água, energia, biodiversidade, capacidade agrícola, reservas minerais, uma das maiores produções de alimentos do planeta e uma posição geográfica privilegiada. Somos capazes de produzir soja, milho, café, açúcar, carne bovina, carne de frango, celulose, minério, petróleo e uma infinidade de outros produtos essenciais para a economia mundial. Temos condições objetivas para exercer uma posição muito mais estratégica no comércio internacional.
O problema não está na falta de capacidade brasileira. Está na forma como essa capacidade é transformada em poder econômico, influência comercial e riqueza nacional.
O Brasil não pode construir sua política externa a partir da preferência política por determinado país, bloco ou corrente ideológica. Uma nação da dimensão brasileira precisa conversar com Washington, Pequim, Bruxelas, Moscou, Nova Delhi, Tóquio, Buenos Aires e com qualquer outro centro relevante da economia mundial sempre que isso atender aos seus interesses.
Relação diplomática não pode significar alinhamento automático. Parceria comercial não pode significar dependência. Afinidade ideológica não pode estar acima do interesse econômico brasileiro.
E aqui está uma das maiores diferenças que precisam ser discutidas no Brasil: enquanto as grandes potências estruturam suas relações internacionais para defender seus próprios interesses, o Brasil precisa evitar qualquer política externa que reduza sua capacidade de negociação ou transforme sua enorme capacidade produtiva em dependência de mercados, governos ou alianças específicas.
Não se trata de ser contra a China. Muito menos de ser contra os Estados Unidos. A China é um dos maiores parceiros comerciais do Brasil, enquanto os Estados Unidos também possuem enorme importância para nossas exportações, investimentos e relações econômicas. O próprio governo brasileiro reconhece a dimensão estratégica dessas relações e, diante das novas tarifas americanas, retomou negociações com Washington em 2026.
O que está em discussão é algo muito maior: o Brasil precisa deixar de ser apenas fornecedor e passar a ser estrategista.
Não podemos aceitar que nossa força econômica seja medida apenas pela quantidade de toneladas produzidas, pelo tamanho da safra ou pelo volume exportado. Precisamos transformar produção em margem, margem em capital, capital em investimento, investimento em tecnologia e tecnologia em poder econômico.
O produtor rural brasileiro não pode ser tratado apenas como fornecedor de matéria-prima barata para o mundo. A indústria brasileira não pode ser condenada a disputar permanentemente mercados pela menor margem. O país não pode comemorar recordes de produção enquanto uma parcela significativa da riqueza gerada permanece fora da propriedade, fora da indústria nacional ou é capturada em etapas posteriores da cadeia.
O Brasil precisa construir relações internacionais a partir de uma posição de força econômica, e não de necessidade.
Isso significa negociar com a China sem depender exclusivamente da China. Negociar com os Estados Unidos sem depender exclusivamente dos Estados Unidos. Ampliar mercados na Europa, Ásia, Oriente Médio e África. Agregar valor àquilo que produzimos. Desenvolver tecnologia. Fortalecer nossa indústria. Proteger setores estratégicos quando necessário. Criar condições para que o produtor rural tenha renda e capital para continuar produzindo.
O mundo não precisa apenas do alimento brasileiro. O mundo precisa de energia, minerais, proteína, fibras, tecnologia, serviços e biodiversidade brasileira. Essa realidade deveria colocar o Brasil em uma posição de enorme capacidade de negociação.
Por isso, a discussão que precisamos fazer não é sobre qual potência devemos seguir.
É sobre quanto o Brasil está disposto a defender os seus próprios interesses.
Donald Trump coloca os interesses americanos no centro de sua política econômica. Xi Jinping coloca os interesses chineses no centro da estratégia chinesa. O Brasil também precisa colocar o Brasil no centro da estratégia brasileira.
Não significa romper com ninguém. Significa não depender de ninguém.
Não significa abandonar parceiros. Significa ampliar parceiros.
Não significa fechar a economia. Significa abrir o Brasil para o mundo com capacidade de negociação.
Não significa escolher Washington contra Pequim ou Pequim contra Washington. Significa fazer Washington e Pequim compreenderem que o Brasil também possui interesses, poder de mercado e capacidade de negociação.
O Brasil tem condições de ser uma das grandes potências econômicas do século XXI. Mas potência não é aquela que apenas produz muito. Potência é aquela que transforma sua capacidade de produção em riqueza, soberania, influência e poder de negociação.
O Brasil aprendeu a produzir.
Agora precisa aprender a defender o valor daquilo que produz.
O mundo não precisa escolher o lado do Brasil. É o Brasil que precisa aprender a escolher o lado do Brasil.
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