Crise financeira, suspeitas de fraude e dívida milionária ameaçam futuro do Rio Branco de Americana
Clube do interior paulista enfrenta dificuldades para pagar credores, aguarda valores da venda do lateral Vanderson ao Monaco e negocia parceria com o Sertãozinho para continuar no futebol profissional em 2027.
Por Júlio CésarColunistaPublicado em 16/10/2026, 09:48Atualizado em 16/10/2026, 09:48

Foto: Anderson Lira/Ag. Paulistão
O Rio Branco de Americana vive um dos momentos mais delicados de sua história. Afundado em uma grave crise financeira, o clube enfrenta disputas judiciais, questionamentos sobre movimentações financeiras e dificuldades para garantir sua participação nas competições profissionais do futebol paulista na próxima temporada.
Tradicional revelador de talentos do interior de São Paulo, o Rio Branco disputa atualmente a Série A-3 do Campeonato Paulista. A diretoria avalia uma parceria com o Sertãozinho como alternativa para manter o clube ativo, diante da falta de recursos para custear a disputa da competição em 2027.
Dívidas e suspeitas de irregularidades
O clube está em recuperação judicial desde 2023, quando apresentou uma lista com 41 credores e dívidas de aproximadamente R$ 6,6 milhões. Entre os débitos, estão compromissos trabalhistas que somam R$ 664 mil.
A situação se agravou após questionamentos sobre transferências bancárias realizadas entre as contas do Rio Branco e da empresa Manager, que tem como sócio o presidente do clube, Cláudio Bonaldo.
Documentos apresentados à Justiça indicam que valores recebidos pelo clube, incluindo pagamentos do Grêmio, foram transferidos em seguida para a empresa. O caso levou à determinação de uma auditoria e também motivou o Ministério Público a solicitar à Polícia Civil uma investigação preliminar para apurar possíveis irregularidades.
O Rio Branco nega irregularidades e afirma que a empresa foi escolhida para centralizar a administração das receitas e despesas diante das dificuldades financeiras. Até o momento, segundo as informações divulgadas pelo ge, não havia sido instaurado inquérito policial sobre o caso.
Venda de Vanderson ainda gera disputa
Outro ponto central da crise envolve o lateral-direito Vanderson, revelado nas categorias de base do clube e atualmente jogador do Monaco, da França. O atleta foi convocado recentemente para a Seleção Brasileira.
O Rio Branco detinha 30% dos direitos econômicos do jogador quando o Grêmio o negociou com o clube francês, em 2021, por 11 milhões de euros, valor equivalente a aproximadamente R$ 70 milhões na cotação da época.
Parte dos valores foi paga, mas ainda existem pendências financeiras relacionadas à negociação. Em junho de 2026, a Câmara Nacional de Resolução de Disputas condenou o Grêmio a pagar R$ 1,9 milhão ao Rio Branco.
Posteriormente, o clube gaúcho conseguiu uma decisão que permite o pagamento coletivo de suas dívidas no âmbito da CNRD, o que deixou o Rio Branco sem uma previsão definida para receber os valores.
A disputa também envolve o ex-atacante Sandro Hiroshi, responsável por uma parceria nas categorias de base do clube. Ele e sua empresa alegam ter valores a receber. Uma decisão judicial determinou que 70% do montante relacionado à dívida seja destinado à empresa de Hiroshi, enquanto os 30% correspondentes à participação do Rio Branco sejam encaminhados à recuperação judicial. A decisão ainda pode ser contestada.
Parceria com o Sertãozinho é alternativa para 2027
Sem condições financeiras de arcar com os custos da Série A-3, o Rio Branco negocia uma parceria que prevê a transferência das atividades do Sertãozinho para Americana.
Pelo modelo apresentado à Justiça, o Rio Branco cederia temporariamente seus símbolos, como escudo e uniforme, enquanto a empresa responsável pelo futebol do Sertãozinho utilizaria a estrutura para disputar a Série A-2 do Campeonato Paulista em 2027. O clube de Americana, por sua vez, pediria licença da Federação Paulista de Futebol.
A proposta busca preservar a presença do futebol profissional na cidade sem comprometer ainda mais as finanças do Rio Branco. Entretanto, o acordo depende de análise judicial e ainda precisa ser formalizado.
O administrador judicial manifestou-se favoravelmente à continuidade das negociações, mas ressaltou a necessidade de apresentação do contrato para avaliação. A Justiça também deixou claro que a autorização para negociar não significa permissão automática para vender ou comprometer bens e direitos do clube.
Outra possibilidade discutida é disputar a Série A-3 com jogadores das categorias de base, alternativa que permitiria manter o Rio Branco em atividade caso a parceria não avance.
Um passado de tradição e revelações
Fundado em Americana, o Rio Branco construiu parte de sua história revelando jogadores que chegaram ao futebol nacional e internacional. Entre os nomes associados ao clube estão Flávio Conceição, Marcelinho Paraíba e Marcos Assunção.
A equipe permaneceu por 17 temporadas consecutivas na elite do Campeonato Paulista, até ser rebaixada em 2007. Depois de um breve retorno à primeira divisão, em 2010, o clube iniciou uma trajetória de queda que o levou às divisões inferiores.
Agora, a instituição tenta evitar um desfecho ainda mais grave. Sem recursos suficientes, pressionado por credores e diante de questionamentos judiciais, o Rio Branco precisa encontrar uma solução para seguir no futebol profissional e preservar o patrimônio esportivo construído ao longo de décadas.
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