Fifa teria permitido que goleiro irregular disputasse a Copa pela RD Congo
Documentos revelados por jornais apontam que entidade sabia que Lionel Mpasi não havia concluído o processo de troca de associação; goleiro participou das Eliminatórias e do Mundial
Por Júlio CésarColunistaPublicado em 06/10/2026, 11:31Atualizado em 06/10/2026, 11:31

Foto: Jordan Godfree/Reuters
A Fifa enfrenta uma nova controvérsia envolvendo a Copa do Mundo de 2026. Documentos obtidos pelos jornais The New York Times e Le Monde indicam que a entidade tinha conhecimento de que o goleiro Lionel Mpasi, da República Democrática do Congo, não havia concluído corretamente o processo necessário para defender a seleção africana, mas permitiu que o jogador disputasse as Eliminatórias e o Mundial.
Nascido na França, Mpasi defendeu as seleções francesas de base e disputou partidas oficiais pelas categorias sub-16 e sub-17. Em 2021, a Federação Congolesa de Futebol iniciou o processo para que o goleiro pudesse trocar de associação e passar a representar a RD Congo, mas, segundo documentos analisados pelos jornais, o procedimento não foi concluído.
Mesmo assim, Mpasi passou a defender a seleção congolesa e participou de partidas importantes da campanha que levou o país à Copa do Mundo. O goleiro esteve em campo na repescagem africana contra a Nigéria e também no confronto intercontinental diante da Jamaica, que garantiu à RD Congo uma vaga no Mundial pela primeira vez em 52 anos.
Fifa identificou a irregularidade antes da repescagem
De acordo com o Le Monde, integrantes do departamento jurídico da Fifa analisaram a situação de Mpasi e concluíram que o processo de mudança de associação não havia sido finalizado. Os documentos também indicam que a entidade identificou o problema antes da partida contra a Jamaica.
O próprio Código Disciplinar da Fifa prevê punição para uma seleção que utilize um jogador considerado inelegível após uma reclamação. Entre as medidas previstas está a derrota por W.O., além de multa. A comissão disciplinar também pode abrir um procedimento por iniciativa própria, levando em consideração a integridade da competição.
Apesar disso, nenhuma punição esportiva foi aplicada à RD Congo, e Mpasi participou normalmente da partida que classificou a seleção para a Copa.
Nigéria contestou a classificação
A situação ganhou ainda mais peso porque a Federação Nigeriana de Futebol já havia apresentado uma reclamação à Fifa após a derrota para a RD Congo nas Eliminatórias africanas.
Os nigerianos questionaram a elegibilidade de jogadores congoleses e pediram uma revisão do resultado. Posteriormente, a Fifa considerou a reclamação inadmissível por questões técnicas relacionadas ao procedimento e ao prazo para apresentação do recurso.
Segundo os documentos revelados, entretanto, a própria estrutura jurídica da Fifa havia identificado o problema envolvendo Mpasi.
Goleiro disputou a Copa
Com a decisão de não aplicar uma punição, Lionel Mpasi participou da Copa do Mundo de 2026 pela RD Congo. O goleiro esteve em campo na campanha da seleção africana no torneio, inclusive no duelo contra a Inglaterra, pela fase eliminatória.
A RD Congo avançou de fase após vencer o Uzbequistão, mas acabou eliminada pela Inglaterra por 2 a 1.
Fifa nega interferência
Questionada sobre o caso, a Fifa afirmou que a comissão disciplinar analisou a reclamação apresentada pela Federação Nigeriana e que o processo foi considerado inadmissível. A entidade declarou ainda que a decisão foi comunicada à federação da Nigéria em março de 2026 e se tornou definitiva após a ausência de recurso válido.
A Fifa também rejeitou qualquer sugestão de interferência de seu presidente, Gianni Infantino, nos procedimentos disciplinares. A entidade sustenta que seus órgãos jurisdicionais são independentes e analisam os casos com base nos regulamentos e nas circunstâncias específicas de cada processo.
O caso, porém, levanta questionamentos sobre a aplicação das próprias regras da entidade e sobre a participação da RD Congo nas Eliminatórias e na Copa do Mundo de 2026.
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