Tsunami azul: Trump perdeu o Congresso, mas não a caneta
Por Paulo Henrique (PHVox)ColunistaPublicado em 04/11/2026, 15:56Atualizado em 04/11/2026, 15:56

Na noite de terça-feira, com a apuração avançando estado por estado, o Texas fez algo que não fazia desde 1988: mandou um democrata para o Senado. James Talarico, deputado estadual de 37 anos, derrotou Ken Paxton, o candidato escolhido por Donald Trump. Horas depois, Gina Hinojosa encerrou a era Greg Abbott e se tornou a primeira latina a governar o estado. No Kansas, que não elegia um senador democrata desde 1932, Adam Hamilton venceu. A onda azul que as pesquisas anunciavam chegou com força de tsunami.
Os democratas conquistaram as duas casas do Congresso. No Senado, tomaram sete cadeiras republicanas: Texas, Kansas, Iowa, Ohio, Maine, Carolina do Norte e Carolina do Sul. Ohio é o estado do vice-presidente JD Vance. Os democratas também mantiveram a Geórgia e o Michigan, que estavam sob risco. As projeções apontam 54 cadeiras para democratas e independentes alinhados, contra 44 republicanas. Alasca e Mississippi ainda estão em contagem. Na Câmara, os democratas ultrapassaram as 218 cadeiras necessárias e viraram mais de duas dezenas de distritos republicanos. A partir de janeiro, Trump governará com um Congresso controlado pela oposição.
O Texas é o retrato mais eloquente da noite. Agora os republicanos terão de responder a uma pergunta incômoda: o partido perdeu o estado porque o eleitorado mudou, ou porque lançou um candidato vulnerável num ambiente nacional hostil? Paxton chegou à eleição geral depois de derrotar o senador John Cornyn nas primárias, com o apoio de Trump. Carregava um impeachment na Câmara estadual, do qual foi absolvido pelo Senado estadual, além de anos de investigações. A explicação da migração vinda de estados como a Califórnia tem peso em Houston e Dallas, mas não basta sozinha. Há um fator pouco comentado no Brasil: a pecuária. Em agosto, dias depois de um encontro no Salão Oval com o empresário brasileiro Joesley Batista, da JBS, Trump suspendeu tarifas sobre parte da carne bovina importada. O preço do gado caiu, e os pecuaristas reagiram com dureza. Num estado que vive de gado e petróleo, esse desgaste pode ter pesado. É uma hipótese que os números finais ainda vão medir.
No Michigan aconteceu o inverso. Abdul El-Sayed, da ala progressista do partido, defensor do Medicare for All e crítico duro do governo israelense, havia derrotado a deputada Haley Stevens nas primárias. Dois dias antes da eleição, Stevens rompeu com o próprio partido e declarou apoio ao republicano Mike Rogers. Era tarde demais: boa parte dos votos antecipados já estava nas urnas. El-Sayed será o primeiro muçulmano eleito para o Senado americano.
O que explica a derrota? Os primeiros dados da pesquisa de boca de urna da Associated Press apontam para o bolso. A maioria dos eleitores relatou ao menos dificuldade moderada com a inflação no último ano, e a guerra contra o Irã encareceu a energia. Cerca de dois terços dos moderados votaram nos democratas. Entre os latinos, o apoio aos republicanos caiu para cerca de um terço, contra quatro em cada dez que votaram em Trump em 2024. Entre os homens negros, caiu de um quarto para um em cada dez. Trump deu sua versão: “Eu não estava na cédula. Se estivesse, teríamos vencido de lavada.” A frase alimenta exatamente a dúvida que o partido terá de enfrentar até 2028: a coalizão de 2024 era republicana ou era de Donald Trump?
A noite também redesenhou a disputa interna pela sucessão de Trump, e o grande perdedor foi o vice-presidente JD Vance. Ohio, o estado dele, entregou aos democratas a cadeira que ele deixou no Senado: Jon Husted, nomeado para substituí-lo, perdeu para Sherrod Brown. Na manhã seguinte, Vance foi às redes e apontou o culpado sem rodeios: “A razão de termos perdido é a guerra.” E desafiou quem pensasse diferente a argumentar que perder o Senado pelos próximos seis anos tinha valido a pena. Na prática, é um distanciamento público de uma decisão do próprio governo. Marco Rubio, secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional, saiu da noite em posição oposta. Manteve-se leal a Trump, segue como o rosto da política externa e, segundo relatos de bastidores, já é o preferido de boa parte dos grandes doadores republicanos. Na Flórida, sua base, o partido segurou a cadeira do Senado. As pesquisas públicas ainda colocam Vance à frente para 2028. Mas, num partido em que a bênção de Trump continua decisiva, quem rompeu com o presidente na derrota pode ter pago um preço que só aparecerá nas primárias.
Trump perdeu o poder? Não. Ele segue no comando do Executivo e das Forças Armadas, do Departamento de Estado, do Pentágono e do Departamento de Justiça, e mantém ampla autonomia para negociar com outros governos. O que perdeu foi o Congresso aliado, que controla o dinheiro, as leis e a fiscalização. Com as comissões nas mãos da oposição, a administração Trump deve passar os próximos dois anos respondendo a audiências, intimações e pedidos de documentos. Juízes federais, embaixadores e secretários dependerão agora de um Senado democrata. O Irã tende a ser o primeiro teste, e a Ucrânia vem logo depois: o apoio a ela é majoritário nos dois partidos, e a aproximação com Vladimir Putin custou caro a muitos republicanos.
Resta a arma mais poderosa da Casa Branca: o veto. Para derrubá-lo, são necessários dois terços da Câmara e do Senado, e os democratas não têm esses números. A palavra que deve marcar os próximos dois anos é justamente essa, veto. A campanha de 2028 começa agora. Os democratas provaram que sabem vencer fora de casa. Os republicanos precisam descobrir se a coalizão de Trump sobrevive quando o nome dele não estiver na cédula.
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