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Brasil

A Economia Rural Brasileira Precisa Voltar Para Dentro da Porteira

Celso Ricardo

Por Celso RicardoColunistaPublicado em 08/10/2026, 08:44Atualizado em 08/10/2026, 08:44

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A Economia Rural Brasileira Precisa Voltar Para Dentro da Porteira

A Economia Rural Brasileira Precisa Voltar Para Dentro da Porteira

Por Celso Ricardo Ferreira – Consultor em Gestão Estratégica em Agronegócio

Durante décadas, o Brasil consolidou uma das mais respeitadas comunidades técnicas dedicadas ao estudo da economia rural. Universidades formaram pesquisadores altamente qualificados, instituições públicas desenvolveram sofisticados modelos de análise econômica, entidades privadas passaram a produzir estudos cada vez mais detalhados sobre mercados agropecuários e inúmeros profissionais conquistaram reconhecimento nacional por sua capacidade de interpretar o comportamento do crédito rural, das políticas agrícolas, dos mercados internacionais, das oscilações cambiais, da formação de preços e das cadeias produtivas do agronegócio. Trata-se de um patrimônio intelectual inquestionável e que contribuiu significativamente para compreender a evolução do setor agropecuário brasileiro nas últimas décadas.

Entretanto, existe um paradoxo que não pode mais ser ignorado. Enquanto a capacidade técnica para analisar a economia do agronegócio evoluiu de forma extraordinária, a realidade financeira de milhares de propriedades rurais brasileiras tornou-se progressivamente mais frágil. O crescimento do endividamento, a dependência crescente do crédito oficial, as dificuldades de liquidez enfrentadas por produtores altamente eficientes, a redução das margens econômicas e a recorrente necessidade de renegociações financeiras demonstram que existe uma desconexão entre aquilo que tradicionalmente se discute como economia rural e aquilo que efetivamente determina a sustentabilidade econômica da atividade agropecuária.

Essa constatação não representa uma crítica aos profissionais que atuam na área. Pelo contrário, representa uma reflexão sobre o objeto que passou a ocupar o centro das discussões econômicas no Brasil. Grande parte da economia rural brasileira concentrou seus esforços em compreender os fatores externos que influenciam a atividade agropecuária. Estudaram-se políticas públicas, crédito rural, seguro agrícola, comércio internacional, comportamento das commodities, logística, tributação, infraestrutura, financiamento da produção, mercado de capitais, câmbio e juros. Todos esses temas possuem enorme relevância e continuarão sendo fundamentais para o desenvolvimento do setor.

O problema surge quando essa abordagem passa a representar quase toda a economia rural, deixando em segundo plano justamente o espaço onde o resultado econômico realmente acontece: a propriedade rural.

Existe uma diferença conceitual que raramente recebe a devida atenção. Uma coisa é estudar a economia do agronegócio. Outra, completamente diferente, é estudar a economia da propriedade rural.

A economia do agronegócio procura compreender o ambiente econômico que envolve a atividade produtiva. Analisa fatores externos, políticas governamentais, comportamento dos mercados, estrutura das cadeias produtivas e relações comerciais. Seu objeto de estudo está, predominantemente, fora da porteira.

Já a economia da propriedade rural possui um objeto completamente distinto. Seu foco está na capacidade do empreendimento rural transformar recursos produtivos em riqueza econômica. Ela procura compreender se o capital investido está sendo adequadamente remunerado, se o patrimônio cresce de forma sustentável, se a estrutura de custos permite a formação de resultado econômico consistente, se o risco financeiro encontra-se compatível com a capacidade de geração de caixa e se a eficiência operacional efetivamente produz prosperidade para quem exerce a atividade.

É exatamente nesse ponto que se encontra uma das maiores lacunas da economia rural contemporânea.

Ao longo dos últimos cinquenta anos, o Brasil tornou-se uma referência mundial em eficiência produtiva. Desenvolvemos tecnologias capazes de elevar a produtividade de praticamente todas as cadeias agropecuárias, expandimos nossa capacidade de produção, conquistamos mercados internacionais e transformamos o país em uma das maiores potências mundiais na oferta de alimentos. Aprendemos a medir produtividade em sacas por hectare, arrobas produzidas, litros de leite por vaca, ganho médio diário, conversão alimentar, rendimento industrial e inúmeros outros indicadores físicos que passaram a orientar decisões técnicas dentro das propriedades.

Entretanto, a pergunta economicamente mais importante continua recebendo pouca atenção.

Toda essa eficiência produtiva está sendo convertida em eficiência financeira?

Essa pergunta parece simples, mas modifica completamente a lógica da análise econômica.

Uma propriedade pode apresentar produtividade recorde e, ainda assim, destruir patrimônio se os custos totais, o custo do capital, o nível de endividamento, a estrutura financeira e os riscos assumidos não forem adequadamente administrados. Da mesma forma, outra propriedade pode produzir menos, mas construir riqueza de forma muito mais consistente por utilizar melhor seus ativos, controlar seus custos financeiros e obter maior retorno sobre o capital investido.

Em outras palavras, produzir mais não significa, necessariamente, enriquecer mais.

Essa talvez seja a maior confusão existente dentro da economia rural brasileira.

Durante muito tempo, a eficiência produtiva foi tratada como sinônimo de sucesso econômico. Na prática, porém, produção representa apenas uma etapa do processo econômico. O verdadeiro objetivo de qualquer atividade empresarial nunca foi produzir o maior volume possível, mas transformar recursos escassos em resultado econômico sustentável.

Essa é, inclusive, uma das bases da própria Ciência Econômica.

Desde seus fundamentos clássicos, a economia dedica-se ao estudo da utilização eficiente dos recursos para maximizar bem-estar, riqueza e retorno econômico. Quando essa lógica é aplicada ao ambiente rural, torna-se evidente que a missão da economia rural não pode limitar-se à análise do ambiente institucional, dos mecanismos de financiamento ou das políticas agrícolas. Sua responsabilidade também inclui desenvolver métodos capazes de medir a qualidade econômica da gestão realizada dentro da propriedade.

É justamente nesse espaço que surge uma agenda científica ainda pouco explorada.

Enquanto praticamente todos os indicadores tradicionais medem produção física, poucos procuram mensurar, de forma objetiva, a eficiência financeira da atividade rural. Ainda são escassos os instrumentos capazes de responder perguntas fundamentais, como o retorno econômico efetivo do capital investido, a velocidade de formação patrimonial, a eficiência da estrutura financeira da propriedade, a capacidade de geração de caixa no longo prazo ou o verdadeiro desempenho econômico do negócio independentemente do volume produzido.

Talvez isso explique por que tantas propriedades altamente produtivas convivem com dificuldades financeiras permanentes. O problema não está, necessariamente, na capacidade de produzir. O problema pode estar na ausência de indicadores capazes de orientar decisões econômicas que transcendam os tradicionais índices de produtividade física.

A economia rural do século XXI precisa ampliar seu horizonte. Continuará sendo indispensável compreender mercados, crédito, políticas públicas e comércio internacional. Contudo, será igualmente necessário devolver a economia rural ao lugar onde ela realmente produz seus resultados: dentro da porteira.

A propriedade rural não pode continuar sendo apenas o destino final das análises econômicas elaboradas em escritórios, universidades ou instituições de pesquisa. Ela precisa transformar-se no principal laboratório da economia rural brasileira, porque é ali que se decide se uma safra produzirá patrimônio ou endividamento, liquidez ou insolvência, crescimento sustentável ou dependência permanente de crédito.

O verdadeiro avanço da economia rural brasileira não ocorrerá quando produzirmos mais uma safra recorde, nem quando conquistarmos novos mercados internacionais. O avanço acontecerá quando a principal medida de sucesso deixar de ser exclusivamente o volume produzido e passar a ser a capacidade de cada propriedade rural gerar riqueza, remunerar adequadamente o capital investido, fortalecer seu patrimônio e garantir sustentabilidade econômica às futuras gerações.

Somente nesse momento a economia rural deixará de ser predominantemente uma ciência voltada para explicar o ambiente econômico do agronegócio e passará a cumprir sua missão mais importante: explicar, medir e aperfeiçoar a eficiência econômica da atividade rural onde ela realmente acontece — dentro da porteira.

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