“O AGRO TEM QUE SE AJOELHAR E VOTAR EM LULA?”
Por Celso RicardoColunistaPublicado em 27/09/2026, 18:06Atualizado em 27/09/2026, 18:06

“O AGRO TEM QUE SE AJOELHAR E VOTAR EM LULA?”
A FALA DE LULA DIANTE DA REALIDADE DO PRODUTOR RURAL NO ATUAL GOVERNO
Por Celso Ricardo Ferreira – Consultor em Gestão Estratégica em Agronegócio
A fala de Lula foi feita em 19 de setembro de 2026, em Florianópolis, quando afirmou que, se dependesse do dinheiro destinado pelo governo à agricultura, o agronegócio deveria “não só votar, mas se ajoelhar” para ele. Na mesma declaração, afirmou que nunca houve tanto dinheiro para a agricultura.
A contraposição também precisa recuperar a declaração de 2022, quando Lula afirmou que “parte do agronegócio” era “fascista e direitista”, no contexto de uma resposta sobre meio ambiente.
A pauta, portanto, pode ser construída a partir de tudo aquilo que o produtor enfrentou durante o atual governo, especialmente aquilo que contrasta com a ideia de que deveria demonstrar gratidão eleitoral.
1. ENDIVIDAMENTO RURAL E DETERIORAÇÃO DA CAPACIDADE DE PAGAMENTO
Aumento expressivo da inadimplência do crédito rural.
CNA registrou inadimplência de 11,4% nas operações contratadas a taxas de mercado em outubro de 2025, maior nível da série histórica iniciada em 2011.
Pressão simultânea de custos, juros, preços agrícolas e problemas climáticos.
Produtor mantendo produção mediante aumento do endividamento.
Redução da capacidade de investimento e preservação de liquidez como estratégia defensiva.
2. JUROS E CUSTO FINANCEIRO
Selic elevada durante grande parte do governo.
Aumento do custo do crédito para produtores que dependem de financiamento.
Elevação das taxas de diversas linhas do Plano Safra.
Crédito mais caro justamente em um período de deterioração das margens.
Maior dificuldade para produtores endividados acessarem novas operações.
Crescimento do comprometimento da receita da propriedade com serviço da dívida.
3. CRÉDITO ANUNCIADO X CRÉDITO EFETIVAMENTE ACESSADO
Diferença entre volume anunciado pelo governo e dinheiro efetivamente contratado pelo produtor.
Queda das contratações em determinados períodos.
Maior exigência de garantias.
Restrição bancária para produtores considerados de maior risco.
Crescente dependência de instrumentos privados de financiamento.
A própria CNA chamou atenção para a diferença entre recursos anunciados e efetivamente acessados.
4. CRESCIMENTO DAS CPRs E FINANCIAMENTO PRIVADO
Maior utilização das Cédulas de Produto Rural (CPRs).
Produtor assumindo obrigações financeiras diretamente com agentes privados.
Necessidade de separar crédito público subsidiado de financiamento privado.
CPR não é dinheiro gratuito do governo: é obrigação financeira do produtor.
Parte importante do financiamento da produção passou a depender de mecanismos privados.
5. RENEGOCIAÇÃO DA DÍVIDA RURAL COM ALCANCE RESTRITO
MP 1.376/2026 criou mecanismos para composição, liquidação e amortização de dívidas.
Farsul apontou restrições importantes na abrangência da medida.
Necessidade de alterações para incluir maior número de produtores.
Problemas envolvendo CPRs.
Restrições relativas à origem e às datas das operações.
Restrição da medida justamente para produtores que utilizaram determinados mecanismos para manter pagamentos em dia.
6. CRISE DE DÍVIDAS NO RIO GRANDE DO SUL
Farsul vem tratando o endividamento rural gaúcho como uma crise de grandes proporções.
Estimativa apresentada pela entidade de R$ 55 bilhões em dívidas estressadas no estado.
Segundo a Farsul, grande parcela não se enquadrava inicialmente na MP 1.376.
Necessidade de ampliar o alcance da renegociação.
7. SEGURO RURAL
Contingenciamento e bloqueio de recursos do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural.
Redução da proteção financeira contra eventos climáticos.
Menor cobertura justamente em período de maior frequência de eventos extremos.
Maior transferência do risco climático para o produtor.
Necessidade de contratar crédito novamente depois de uma quebra de safra, muitas vezes sem cobertura suficiente.
8. PROAGRO E MECANISMOS DE PROTEÇÃO
Alterações nas regras de enquadramento.
Discussões sobre limites de cobertura.
Maior preocupação das entidades rurais com a capacidade dos instrumentos públicos de absorver perdas climáticas.
Necessidade de o produtor continuar financiando a atividade mesmo após perdas produtivas.
9. TARIFA ZERO PARA IMPORTAÇÃO DE ALIMENTOS
Em março de 2025, o governo zerou temporariamente o Imposto de Importação de 11 categorias de alimentos, incluindo carne bovina congelada, milho, café, açúcar, azeite, óleo de girassol, massas e biscoitos.
Pontos para explorar:
Governo utilizou importação como instrumento de combate aos preços internos.
Maior facilidade para entrada de produto estrangeiro.
Produtor brasileiro passou a competir com produto importado em determinadas cadeias.
Medida atingiu produtos agropecuários em um momento de pressão de custos.
Entidades do setor questionaram a eficácia da medida sobre os preços.
10. IMPORTAÇÃO DE LEITE E PRESSÃO SOBRE A PECUÁRIA LEITEIRA
Aumento das preocupações do setor com importações de lácteos, especialmente provenientes do Mercosul.
Pressão sobre preços recebidos pelos produtores nacionais.
Discussão recorrente sobre concorrência com produto importado.
Problema particularmente sensível para pequenos e médios produtores de leite.
Aqui vale entrar com dados específicos de importação por ano, origem e volume antes da entrevista, para transformar esse ponto em números e não apenas argumento.
11. IMPORTAÇÕES COMO INSTRUMENTO DE CONTROLE DA INFLAÇÃO
Governo priorizou aumento da oferta via importação em determinados momentos.
Produtor nacional pode absorver parte do custo dessa estratégia através de maior concorrência.
Necessidade de discutir quem suporta o custo quando o governo tenta reduzir preço ao consumidor através de produto externo.
Contradição entre proteger o consumidor no curto prazo e preservar renda e capacidade produtiva doméstica.
12. MARGENS DO PRODUTOR
Pressão simultânea de custos de produção e preços recebidos.
Produção física não necessariamente convertida em aumento de renda.
Margens comprimidas.
Redução da capacidade de reinvestimento.
Produtor utilizando patrimônio e crédito para manter atividade.
Risco de transformar crescimento da produção em descapitalização da propriedade.
13. REDUÇÃO DA CAPACIDADE DE INVESTIMENTO
Produtor priorizando caixa e sobrevivência financeira.
Menor capacidade de renovar máquinas.
Menor capacidade de investir em irrigação.
Menor capacidade de investir em genética.
Menor capacidade de ampliar armazenagem.
Menor capacidade de adotar tecnologia.
Menor capacidade de modernizar infraestrutura.
Consequência de longo prazo: perda de produtividade e competitividade.
QUESTÃO FUNDIÁRIA E SEGURANÇA DA PROPRIEDADE
14. INVASÕES DE PROPRIEDADES RURAIS
Retorno das invasões de propriedades rurais como tema central durante o governo.
CNA criou, em 2024, uma plataforma nacional de denúncia de invasões de terras.
A entidade afirmou que invasão de propriedade é crime e vinculou o problema diretamente à segurança jurídica do produtor.
Necessidade de proteção efetiva do direito de propriedade.
Custo econômico e psicológico da insegurança fundiária.
Risco de perda de produção.
Risco de danos a instalações, máquinas, lavouras e rebanhos.
Necessidade de discutir a velocidade da reintegração de posse.
15. RELAÇÃO DO GOVERNO COM O MST
Lula participou do encerramento do 14º Encontro Nacional do MST, em janeiro de 2026.
Na ocasião, o governo anunciou pacote de R$ 2,7 bilhões para ações relacionadas à reforma agrária.
O pacote incluía aquisição de terras, novos assentamentos, crédito e outras medidas.
O governo estimou atendimento de 6,3 mil famílias somente com aquisição de terras e novos assentamentos.
Ponto para a entrevista: discutir a percepção de produtores de que existe assimetria entre a atenção política dada aos movimentos de ocupação e a proteção ao proprietário rural.
16. DESAPROPRIAÇÕES PARA REFORMA AGRÁRIA
Em março de 2025, Lula assinou decretos de interesse social para fins de reforma agrária envolvendo 13.307 hectares, com previsão de R$ 189 milhões em investimentos.
Pontos:
Expansão das ações de reforma agrária.
Novos decretos de desapropriação.
Percepção de insegurança patrimonial entre proprietários rurais.
Discussão sobre critérios objetivos para desapropriação.
Discussão sobre produtividade, função social e direito de propriedade.
17. MARCO TEMPORAL E INSEGURANÇA FUNDIÁRIA
Conflito entre legislação aprovada pelo Congresso e decisões do STF.
Discussões sobre demarcações de terras indígenas.
Preocupação da CNA com segurança jurídica.
Possibilidade de produtores serem afetados por disputas fundiárias envolvendo áreas ocupadas ou reivindicadas.
Necessidade de indenização justa e prévia quando houver retirada de proprietário de área titulada, segundo a posição defendida pela CNA.
18. TERRAS INDÍGENAS, QUILOMBOLAS E OUTRAS DEMARCAÇÕES
A CNA identifica como temas de segurança fundiária:
demarcação de terras indígenas;
territórios quilombolas;
regularização fundiária;
áreas de fronteira;
terrenos marginais e de marinha;
integração cadastral e tributária.
Ponto central: risco de sobreposição de direitos, indefinição fundiária e insegurança sobre patrimônio produtivo.
AMBIENTALIZAÇÃO DO CRÉDITO E CUSTO REGULATÓRIO
19. RESTRIÇÕES AMBIENTAIS PARA ACESSO AO CRÉDITO
Crédito rural passou a depender de verificações ambientais.
Embargos podem bloquear financiamento.
CAR precisa estar em determinadas condições.
Produtor pode precisar apresentar documentação adicional.
Pendências ambientais podem afetar diretamente a capacidade de financiamento.
O próprio governo informa que imóveis com determinados embargos podem ter o crédito rural bloqueado e estabelece uma série de condições para eventual acesso.
20. CAR COMO ELEMENTO DE RESTRIÇÃO FINANCEIRA
Cadastro Ambiental Rural deixa de ser apenas instrumento cadastral.
Informações ambientais passam a ter consequências sobre acesso ao crédito.
Inconsistências cadastrais podem gerar problemas financeiros.
Produtor precisa manter regularidade documental para preservar acesso ao financiamento.
21. EMBARGOS AMBIENTAIS E BLOQUEIO DE CRÉDITO
Área embargada pode impedir utilização do crédito.
Exigência de regularização.
Necessidade de pagamento de multas em determinadas situações.
Necessidade de projeto técnico de recuperação.
Necessidade de comprovar isolamento da área.
Cruzamento automático de dados ambientais e cadastrais pelo sistema de crédito.
22. AUMENTO DA BUROCRACIA REGULATÓRIA
Mais documentos.
Mais cruzamentos cadastrais.
Mais exigências ambientais.
Mais obrigações fiscais.
Maior custo de conformidade.
Maior dependência de contador, advogado, engenheiro agrônomo e consultoria especializada.
TRIBUTAÇÃO
23. REFORMA TRIBUTÁRIA E NOVA ESTRUTURA DE TRIBUTAÇÃO DO AGRO
A reforma tributária aprovada durante o atual ciclo de governo criou:
CBS;
IBS;
Imposto Seletivo;
transição de PIS/Cofins, ICMS e ISS para o novo sistema.
Para o produtor:
novos procedimentos fiscais;
novas obrigações acessórias;
necessidade de adaptação dos sistemas;
mudança na formação dos créditos tributários;
necessidade de reorganização contábil e fiscal;
transição até 2033.
A própria CNA criou uma calculadora específica para produtores porque os efeitos tributários variam conforme atividade, faturamento e estrutura da propriedade.
Aqui não devemos afirmar simplesmente que a reforma aumentou a carga do produtor. O correto é colocar como ponto de tensão: complexidade, transição, custo de adaptação e impacto tributário ainda diferenciado conforme o perfil do produtor.
MERCADO EXTERNO E DEPENDÊNCIA
24. CONCENTRAÇÃO DAS EXPORTAÇÕES NA CHINA
China respondeu por aproximadamente 32,7% das exportações brasileiras do agronegócio em 2025.
US$ 55,3 bilhões destinados ao mercado chinês.
Forte dependência comercial de um único mercado.
Exposição a decisões de compra, preços, exigências sanitárias e políticas comerciais chinesas.
Não dizer “China domina o agro”. O dado correto é concentração de mercado e risco de dependência.
25. VULNERABILIDADE A PREÇOS INTERNACIONAIS
Produtor brasileiro fica exposto a ciclos internacionais.
Queda de preços externos reduz receita.
Custos domésticos não caem necessariamente na mesma velocidade.
Dívidas permanecem mesmo quando a cotação internacional cai.
26. ABERTURA DE MERCADOS NÃO SIGNIFICA AUTOMATICAMENTE RENDA PARA O PRODUTOR
Esse ponto é essencial porque Lula citou justamente a abertura de mercados em sua fala de 19 de setembro.
Separar:
abertura de mercado → exportação → faturamento da cadeia → preço recebido pelo produtor → margem → lucro → patrimônio.
São etapas diferentes.
PROBLEMAS ESPECÍFICOS QUE PRECISAM SER LEVANTADOS POR CADEIA
27. PECUÁRIA DE CORTE
Pressão sobre margem do pecuarista.
Custo de reposição.
Custo de alimentação.
Custo financeiro.
Concentração na indústria frigorífica.
Dependência de mercados externos.
Assimetria na formação de preços.
Discussão sobre rastreabilidade e exigências ambientais.
Necessidade de agregar valor à carne brasileira em vez de simplesmente ampliar volume.
28. PECUÁRIA LEITEIRA
Importações de leite e derivados.
Pressão sobre preço recebido pelo produtor.
Competição com produto externo.
Custo elevado de alimentação.
Custo de energia.
Custo de mão de obra.
Pequena margem.
Endividamento de pequenos produtores.
Risco de abandono da atividade.
29. GRÃOS
Queda de preços em determinados ciclos.
Custo de fertilizantes.
Custo de defensivos.
Custo de máquinas.
Custo financeiro.
Problemas climáticos.
Dependência de financiamento.
Necessidade crescente de capital de giro.
30. O GOVERNO CONFUNDE VOLUME DE CRÉDITO COM RIQUEZA DO PRODUTOR
Crédito não é renda.
Crédito não é lucro.
Crédito não é patrimônio.
Crédito é obrigação financeira.
E, portanto, o argumento “liberei muito dinheiro, então o agro deveria votar em mim” precisa ser confrontado com:
inadimplência;
juros;
garantias;
restrição bancária;
CPR;
renegociação;
seguro;
custos;
margens;
importações;
insegurança fundiária;
exigências ambientais;
tributação;
risco climático;
concentração comercial.
31. A GRANDE CONTRADIÇÃO DOS RECORDES
O governo pode apresentar:
recorde de exportações;
abertura de mercados;
volume elevado de crédito;
crescimento da produção;
expansão do agronegócio.
Mas isso não responde à pergunta econômica fundamental:
quanto da riqueza gerada permanece efetivamente na propriedade rural?
O próprio contraste entre recordes de exportação e deterioração de indicadores financeiros do produtor é suficiente para colocar essa questão na mesa.
32. O AGRO NÃO É UMA EMPRESA DO GOVERNO
O produtor investe capital próprio.
Assume risco climático.
Assume risco de mercado.
Assume risco financeiro.
Assume risco patrimonial.
Paga impostos.
Gera empregos.
Compra máquinas e insumos.
Movimenta comércio e serviços.
Produz para o mercado interno e externo.
Portanto, política pública não cria uma “dívida eleitoral” do produtor com o governo.
33. E A CONTRADIÇÃO POLÍTICA FINAL
2022: Lula associa parte do agronegócio a “fascista e direitista”.
2026: Lula diz que o agronegócio deveria “não só votar, mas se ajoelhar” diante dele pelos recursos destinados ao setor.
Entre uma fala e outra, o produtor enfrentou:
endividamento, inadimplência, juros, restrição de crédito, margens pressionadas, redução de investimento, insuficiência de seguro rural, problemas nas renegociações, importações favorecidas por tarifa zero, insegurança fundiária, invasões, desapropriações, conflitos envolvendo terras indígenas, exigências ambientais vinculadas ao crédito, aumento da complexidade tributária e elevada exposição a mercados externos.

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