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Brasil

O PRODUTOR RURAL PRECISA OLHAR PARA A PRÓXIMA DÉCADA

Como será a próxima década para o produtor rural brasileiro?

Celso Ricardo

Por Celso RicardoColunistaPublicado em 27/09/2026, 18:01Atualizado em 27/09/2026, 18:01

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O PRODUTOR RURAL PRECISA OLHAR PARA A PRÓXIMA DÉCADA

O PRODUTOR RURAL PRECISA OLHAR PARA A PRÓXIMA DÉCADA

Por Celso Ricardo Ferreira – Consultor em Gestão Estratégica em Agronegócio

O problema financeiro que hoje atinge uma parcela significativa dos produtores rurais brasileiros não pode ser analisado apenas pelo comportamento de uma safra, pelo preço recebido em determinado momento ou pela disponibilidade de crédito. Existe uma questão estrutural muito mais profunda, construída ao longo de décadas, na qual o Brasil concentrou grande parte de sua estratégia agrícola na expansão permanente da produção, da produtividade e do volume exportado, mantendo o produtor rural excessivamente exposto à lógica internacional das commodities, em mercados nos quais o aumento contínuo da oferta tende a limitar a capacidade de formação de preços e transferir para dentro da propriedade uma parcela cada vez maior do risco econômico.

O Brasil se tornou uma potência mundial de produção e exportação, mas produção elevada não significa, necessariamente, geração de riqueza na propriedade rural. Quando o aumento da produtividade é acompanhado por expansão de oferta em escala global, o resultado pode ser exatamente o contrário do que muitos imaginam: o produtor produz mais, movimenta mais volume, investe mais capital, aumenta sua exposição financeira e, ainda assim, encontra preços reais pressionados e margens cada vez mais estreitas. O crescimento físico da produção pode ser extraordinário enquanto o retorno econômico sobre o capital investido permanece insuficiente para sustentar a atividade no longo prazo.

Esse cenário precisa ser observado com ainda mais atenção diante das projeções internacionais para a próxima década. O OECD-FAO Agricultural Outlook 2026–2035, principal referência conjunta da OCDE e da FAO para os mercados agrícolas globais, projeta redução dos preços reais de diversas commodities ao longo do período, resultado de fatores como crescimento da produtividade, expansão da produção e aumento da oferta global. No mercado de carnes, por exemplo, a projeção indica que os preços reais da carne bovina poderão recuar aproximadamente 16% até 2035, enquanto as carnes suína e de aves apresentam queda projetada próxima de 20%.

Isso não significa que os preços nominais necessariamente cairão na mesma proporção, porque inflação, câmbio, energia, custos de produção, geopolítica e eventos climáticos continuarão interferindo nos mercados. O ponto central é outro: em termos reais, a tendência estrutural apontada pelas projeções internacionais é de pressão sobre os preços agrícolas, justamente em um ambiente no qual a produção mundial continua avançando e a produtividade segue aumentando. Nos cereais, por exemplo, a produção mundial deverá atingir novo recorde até 2035, enquanto os preços internacionais reais tendem a sofrer leve redução.

O segundo grande risco está dentro da própria porteira. Sempre que uma commodity apresenta valorização, o mercado produz um sinal que frequentemente é interpretado pelo produtor como autorização para ampliar imediatamente a produção, comprar máquinas, adquirir terras, aumentar área, contratar crédito, elevar o uso de tecnologia e assumir novos compromissos financeiros. O problema é que um aumento de preço não representa necessariamente aumento de lucro. Muitas vezes ele representa apenas uma reação temporária do mercado diante de uma restrição de oferta, de uma quebra de safra, de um movimento cambial ou de uma alteração conjuntural na demanda.

Quando o produtor transforma uma valorização temporária da commodity em investimento permanente de capital, existe o risco de tomar decisões estruturais com base em uma condição que pode desaparecer antes de o investimento produzir o retorno esperado. O mercado sobe, o produtor investe; a oferta aumenta, os preços recuam; os custos financeiros permanecem; as parcelas continuam vencendo e o capital investido precisa ser remunerado mesmo quando a margem desaparece. É exatamente nesse intervalo entre preço de mercado e eficiência econômica que muitos problemas financeiros começam a ser construídos.

Por isso, o grande desafio do agronegócio brasileiro para os próximos anos não será simplesmente produzir mais. O Brasil já demonstrou ao mundo que possui capacidade extraordinária de produzir em escala. O desafio será transformar produção em margem, fluxo de caixa, retorno sobre o capital investido, geração de patrimônio e sustentabilidade financeira da propriedade rural.

O produtor precisa começar a tomar decisões olhando menos para o recorde de produção e mais para a capacidade econômica de cada investimento. Uma atividade que aumenta a produção, mas reduz a margem, aumenta o endividamento e diminui o retorno sobre o capital, não representa necessariamente evolução econômica. Pode representar apenas crescimento físico acompanhado de deterioração financeira.

O modelo baseado exclusivamente em volume, produtividade e expansão precisa ser substituído por uma visão de eficiência econômica. O produtor rural brasileiro precisa saber exatamente quanto custa produzir, qual é sua margem real, quanto capital está imobilizado, qual é o retorno desse capital, qual é sua capacidade de geração de caixa e qual será sua resistência financeira diante de um ciclo prolongado de preços menores.

A próxima década poderá exigir do produtor muito mais capacidade de gestão econômica do que capacidade de produção.

Porque o mundo continuará precisando de alimentos, mas isso não significa que o produtor continuará recebendo preços suficientes para remunerar automaticamente todo o capital necessário para produzi-los.

O Brasil aprendeu a produzir em escala. Agora precisa aprender a proteger a margem, administrar o capital e transformar produção em riqueza dentro da porteira.

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