Trump perde as eleições de midterm para si mesmo e pode virar “Mr. Veto” até 2028
Democratas conquistam Câmara e Senado. Derrota republicana expõe o desgaste do presidente Trump e abre dois anos de disputa sobre custo de vida, proteção social e contas públicas.
Por Karina MichelinColunistaPublicado em 04/11/2026, 06:43Atualizado em 04/11/2026, 06:43

Donald Trump colocou sua presidência no centro das eleições de meio de mandato e recebeu uma resposta dura. Os democratas conquistaram o controle da Câmara dos Representantes e do Senado, segundo as projeções da Associated Press. O avanço alcançou redutos republicanos e retirou do presidente o apoio parlamentar que sustentava sua agenda - a apuração ainda definirá o tamanho final das bancadas.
A dimensão da derrota aparece no mapa: James Talarico venceu no Texas; Adam Hamilton rompeu uma sequência de vitórias republicanas no Kansas que remontava a 1932; Annie Andrews conquistou uma cadeira na Carolina do Sul; e Troy Jackson derrotou Susan Collins em Maine. Vitórias em territórios tão distintos reforçam a leitura de um desgaste nacional do governo.
Trump parece ter perdido para as consequências de suas próprias escolhas; ao concentrar a identidade do governo em sua liderança, concentrou também a responsabilidade pelos resultados. Os democratas aproveitaram esse desgaste sem depender de um adversário nacional com força comparável à do presidente.
O custo de vida foi decisivo. Antes da votação, uma pesquisa AP-NORC apontava que cerca de oito em cada dez eleitores registrados desaprovavam a atuação de Trump nessa área. Os democratas também demonstravam maior disposição para comparecer às urnas. Antes da eleição, cerca de 75% dos democratas consideravam extremamente importante ir às urnas, contra 60% dos republicanos. A combinação entre frustração econômica e mobilização da oposição tornou o cenário especialmente desfavorável aos republicanos.
As tarifas comerciais e a guerra no Irã colocaram as decisões presidenciais no centro da discussão sobre os preços. O próprio Trump reconheceu, em entrevista à Fox News após a votação, que o conflito contribuiu para a derrota. Uma estratégia apresentada como necessária à segurança nacional passou a ser julgada também pelo preço dos combustíveis e por seus efeitos no orçamento familiar.
Para defender o governo, a Casa Branca destaca medidas de controle da fronteira, redução de impostos, segurança e acesso a medicamentos. Os republicanos sustentam que os benefícios dessas políticas precisam de mais tempo para chegar à população. Nas urnas, porém, prevaleceu a insatisfação com as condições atuais de vida. Embora os efeitos de longo prazo ainda estejam em aberto, os resultados percebidos até agora não foram suficientes para manter o Congresso sob controle republicano.
A vitória democrata recoloca em disputa um projeto que atribui ao Estado maior responsabilidade pela proteção econômica e pela equidade. A defesa de programas de saúde e de medidas contra o peso das dívidas médicas expressa essa diferença de orientação, mas seria precipitado interpretar o resultado como adesão integral à esquerda: os democratas também enfrentavam uma imagem desfavorável entre aproximadamente metade dos eleitores antes da votação. Recuperaram “poder”; mas ainda precisam consolidar confiança.
Com a posse do novo Congresso, em janeiro de 2027, Trump terá de governar com Câmara e Senado nas mãos da oposição. Após a vitória democrata, o presidente sinalizou disposição para trabalhar com os adversários e buscar acordos, mas também afirmou que vetará propostas que considerar inaceitáveis. É entre essas duas possibilidades que seu governo deverá se mover: a negociação para aprovar medidas e o veto quando não houver entendimento, Trump poderá se tornar “Mr. Veto”, mas isso dependerá da relação que construir com a nova maioria. Os democratas, por sua vez, poderão bloquear projetos e ampliar a fiscalização do governo. O orçamento será um dos principais testes dessa convivência.
A disputa entre Trump e o Congresso democrata terá um teste importante no orçamento: decidir como financiar as despesas do governo diante de uma dívida crescente. Em fevereiro, o Congressional Budget Office, órgão técnico do Congresso, projetava que os gastos federais superariam a arrecadação em US$ 1,9 trilhão em 2026, um déficit equivalente a 5,8% do PIB. A dívida em poder dos investidores chegaria a 101% do PIB, valor ligeiramente superior ao que a economia americana produz em um ano. Essas estimativas refletiam as condições consideradas naquele momento, mas já mostravam o desafio que exigirá dos dois partidos decisões sobre impostos, gastos e financiamento do governo.
Republicanos terão de explicar como financiar suas prioridades e reduções tributárias, enquanto democratas precisarão demonstrar como sustentar a proteção social que defendem. O risco é que ambos preservem promessas populares e adiem escolhas sobre receitas e despesas - os dois partidos evitam enfrentar o problema das contas públicas. Embora o déficit não explique sozinho o custo de vida, ele limita a capacidade de resposta do governo.
É nesse terreno que começa a disputa de 2028. Trump terá dois anos para tentar mudar a avaliação de seu legado; os democratas terão o mesmo prazo para transformar a rejeição ao presidente em confiança na própria capacidade de governar. Se esse tempo se perder em vetos, bloqueios e contas adiadas, os dois partidos terão de responder pelo fracasso. O eleitor que acaba de punir quem governa poderá voltar às urnas para punir também os democratas que prometeram fazer melhor.
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