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Brasil

A CHINA PREPARA SUA INDEPENDÊNCIA ALIMENTAR. O BRASIL CONTINUA COMEMORANDO RECORDES E PODE ESTAR PRODUZINDO SUA PRÓPRIA DERROTA ECONÔMICA!

Celso Ricardo

Por Celso RicardoColunistaPublicado em 05/11/2026, 19:38Atualizado em 05/11/2026, 19:38

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A CHINA PREPARA SUA INDEPENDÊNCIA ALIMENTAR. O BRASIL CONTINUA COMEMORANDO RECORDES E PODE ESTAR PRODUZINDO SUA PRÓPRIA DERROTA ECONÔMICA!

A CHINA PREPARA SUA INDEPENDÊNCIA ALIMENTAR. O BRASIL CONTINUA COMEMORANDO RECORDES E PODE ESTAR PRODUZINDO SUA PRÓPRIA DERROTA ECONÔMICA!

ENQUANTO A CHINA PLANEJA COMO DEPENDER CADA VEZ MENOS DO MUNDO, O BRASIL CONTINUA AGINDO COMO SE O MUNDO FOSSE DEPENDER ETERNAMENTE DELE.

Por Celso Ricardo Ferreira – Consultor em Gestão Estratégica em Agronegócio

Essa é uma das contradições mais perigosas do agronegócio brasileiro. Enquanto a China investe bilhões em tecnologia, recuperação de solos, irrigação, infraestrutura agrícola, biotecnologia e segurança alimentar, o Brasil continua concentrando grande parte do seu discurso econômico nos recordes de produção e exportação.

A diferença é brutal: a China trabalha para transformar sua estrutura produtiva e reduzir vulnerabilidades futuras. O Brasil amplia sua produção, mas ainda enfrenta dificuldades históricas para transformar essa capacidade em eficiência financeira, competitividade sustentável e independência comercial.

E o mais preocupante é que a estratégia chinesa não está restrita aos discursos. Ela possui metas, investimentos, planejamento e horizontes definidos.

90 MILHÕES DE HECTARES: O TAMANHO DA AMBIÇÃO CHINESA

A China estabeleceu a meta de alcançar aproximadamente 90 milhões de hectares de terras agrícolas de alto padrão até 2030, por meio de investimentos em infraestrutura, modernização produtiva, melhoria dos solos e sistemas de irrigação.

É fundamental compreender a dimensão dessa iniciativa. Não se trata de irrigar 90 milhões de hectares novos de deserto, mas de ampliar e modernizar uma enorme base agrícola, tornando-a mais produtiva, resiliente e eficiente.

Paralelamente, o país desenvolve projetos de agricultura em regiões áridas e desérticas, utilizando tecnologias de irrigação, manejo dos solos e sistemas produtivos adaptados a condições ambientais extremamente difíceis.

Também existe a previsão de ampliar em aproximadamente 2,67 milhões de hectares as áreas irrigadas até 2030.

O significado estratégico desses investimentos é evidente: a China está utilizando ciência, tecnologia e planejamento para superar parte de suas limitações naturais e ampliar sua capacidade interna de produção de alimentos.

ENQUANTO A CHINA INVESTE PARA TRANSFORMAR LIMITAÇÕES NATURAIS EM CAPACIDADE PRODUTIVA, O BRASIL CONTINUA CONVIVENDO COM LIMITAÇÕES ESTRUTURAIS QUE JÁ DEVERIAM TER SIDO SUPERADAS.

Temos terras, água, clima, conhecimento técnico e produtores altamente capacitados. Entretanto, continuamos enfrentando deficiências de armazenagem, infraestrutura logística, crédito caro, insegurança financeira, fragilidades no seguro rural e políticas agrícolas excessivamente concentradas no aumento do volume produzido.

O Brasil não está estagnado em produção física. Nossa agropecuária avançou enormemente em produtividade e tecnologia. O que permanece perigosamente atrasado é a capacidade institucional de transformar esse avanço em rentabilidade para o produtor e segurança econômica para o país.

A CHINA JÁ PROJETA O AGRONEGÓCIO DE 2035. E O BRASIL?

As projeções agrícolas chinesas para 2035 apresentam números que deveriam provocar uma profunda reflexão nas autoridades brasileiras.

A produção de grãos da China, estimada em aproximadamente 715 milhões de toneladas em 2025, poderá alcançar:

  • 733 milhões de toneladas em 2030.

  • 753 milhões de toneladas em 2035.

Isso representa uma ampliação projetada de aproximadamente 38 milhões de toneladas em uma década.

Entretanto, o dado mais preocupante para o Brasil não está apenas no crescimento da produção chinesa.

ESTÁ NA REDUÇÃO PROJETADA DAS IMPORTAÇÕES.

As projeções chinesas indicam que, até 2035, as importações de grãos poderão diminuir aproximadamente 25,5%, enquanto as importações de soja poderão cair cerca de 21,5%, em comparação com a média de referência de 2023 a 2025.

Mesmo nesse cenário, a China ainda importaria aproximadamente 82,55 milhões de toneladas de soja.

Ou seja, não estamos falando de uma China que necessariamente deixará de comprar alimentos do exterior.

Estamos falando de uma potência econômica que trabalha para aumentar sua produção, reduzir sua exposição ao mercado internacional e ampliar sua capacidade de negociação diante dos países fornecedores.

E O BRASIL PRECISA ENTENDER UMA COISA: A CHINA NÃO PRECISA SE TORNAR 100% AUTOSSUFICIENTE PARA PROVOCAR UMA TRANSFORMAÇÃO PROFUNDA NO AGRONEGÓCIO BRASILEIRO.

Basta reduzir significativamente a necessidade de importar determinados produtos para alterar preços, fluxos comerciais, investimentos e a rentabilidade de milhares de propriedades rurais.

O BRASIL PODE ESTAR CONFUNDINDO DEPENDÊNCIA COM OPORTUNIDADE

Durante anos, o Brasil ampliou sua presença no mercado chinês, especialmente nas exportações de soja e carne bovina.

Essa relação comercial foi importante para o crescimento do agronegócio brasileiro. Entretanto, a concentração excessiva em um grande comprador também representa uma vulnerabilidade estratégica.

Quanto maior a dependência comercial, maior a exposição às decisões econômicas, sanitárias, políticas e produtivas desse comprador.

E existe uma diferença fundamental entre a estratégia dos dois países.

A CHINA TRABALHA PARA REDUZIR SUA DEPENDÊNCIA. O BRASIL CONTINUA EXPOSTO À DEPENDÊNCIA DE UM DOS SEUS PRINCIPAIS COMPRADORES.

Enquanto os chineses planejam aumentar sua autonomia alimentar, o Brasil precisa perguntar o que acontecerá com parte de sua estrutura produtiva caso a demanda chinesa cresça menos do que o esperado ou passe a diminuir em determinados segmentos.

O que acontecerá com os preços agrícolas?

O que acontecerá com a rentabilidade das propriedades?

Como ficará a capacidade de pagamento dos produtores que realizaram investimentos e assumiram dívidas considerando uma demanda externa continuamente crescente?

E, principalmente, quais mercados estarão preparados para absorver eventuais excedentes brasileiros?

Essas perguntas deveriam ocupar posição central no planejamento econômico do agronegócio nacional.

O MAIOR PROBLEMA NÃO É A CHINA PRODUZIR MAIS. É O BRASIL CONTINUAR SEM UMA ESTRATÉGIA À ALTURA.

Há anos venho defendendo que o Brasil precisa abandonar a interpretação de que aumentar a produção representa, automaticamente, melhorar o desempenho econômico do agronegócio.

Produção elevada não significa rentabilidade elevada.

Exportação recorde não significa lucro recorde.

Aumento de faturamento não significa recuperação financeira.

E ampliar a oferta de produtos sem considerar a capacidade de absorção dos mercados pode pressionar preços e comprometer ainda mais as margens dos produtores.

O AGRONEGÓCIO BRASILEIRO NÃO PODE CONTINUAR SENDO AVALIADO EXCLUSIVAMENTE PELO QUE PRODUZ E EXPORTA. PRECISA SER AVALIADO TAMBÉM PELO RESULTADO ECONÔMICO E FINANCEIRO QUE ENTREGA A QUEM PRODUZ.

Enquanto a China projeta suas necessidades alimentares e seus investimentos para 2035, o Brasil continua enfrentando problemas que comprometem a sobrevivência financeira de parte dos seus produtores.

Temos produtores endividados, custos elevados, crédito seletivo, seguro rural insuficiente e margens que nem sempre acompanham o crescimento da produção.

E existe um risco adicional: se a China ampliar sua autonomia produtiva, o produtor brasileiro poderá enfrentar um ambiente comercial ainda mais competitivo justamente quando sua capacidade financeira estiver fragilizada.

2035 PODE SER O ANO EM QUE O BRASIL COMEÇARÁ A PAGAR A CONTA DA FALTA DE PLANEJAMENTO

Não é possível afirmar que a China alcançará autossuficiência alimentar completa em dez, quinze ou vinte anos. A disponibilidade de água, a qualidade dos solos, a demanda por proteínas e a necessidade de importação de soja continuam representando limitações importantes.

Entretanto, 2035 já representa um horizonte estratégico concreto para avaliar a redução da dependência chinesa de importações agrícolas.

E é justamente isso que deveria preocupar o Brasil.

Se as projeções chinesas se confirmarem, poderemos enfrentar uma mudança relevante na dinâmica de um dos principais mercados consumidores dos nossos produtos agropecuários.

Não significa que as exportações brasileiras necessariamente diminuirão na mesma proporção. Outros fatores, como competitividade, participação de mercado e demanda mundial, também determinarão os resultados.

Mas significa que continuar apostando no crescimento permanente das compras chinesas, sem diversificar mercados e agregar valor à produção brasileira, representa um risco econômico que não pode ser ignorado.

O Brasil precisa ampliar acordos comerciais, conquistar mercados de maior valor agregado, fortalecer a industrialização, investir em diferenciação de produtos e desenvolver uma política agrícola orientada à eficiência financeira.

Precisa compreender que a competitividade internacional não será determinada apenas pela quantidade produzida, mas também pelos custos, pela qualidade, pela tecnologia, pela segurança comercial e pela capacidade de entregar produtos de maior valor.

A CHINA ESTÁ CONSTRUINDO O FUTURO. O BRASIL NÃO PODE CONTINUAR ADMINISTRANDO O PASSADO.

A China não é o Brasil.

Ela possui suas próprias dificuldades econômicas, demográficas, ambientais e produtivas. Entretanto, demonstra capacidade de estabelecer objetivos estratégicos de longo prazo e direcionar investimentos para alcançá-los.

O Brasil também possui enorme capacidade tecnológica e produtiva, construída principalmente pelo trabalho de seus produtores, pesquisadores e empresas. O que falta é transformar esse potencial em uma estratégia nacional integrada, capaz de proteger a rentabilidade, reduzir vulnerabilidades comerciais e preparar o setor para as transformações do mercado mundial.

A CHINA NÃO ESTÁ ESPERANDO O BRASIL DECIDIR SE QUER MODERNIZAR SUA POLÍTICA AGRÍCOLA. ELA ESTÁ INVESTINDO PARA PRECISAR CADA VEZ MENOS DAS IMPORTAÇÕES QUE HOJE SUSTENTAM UMA PARTE IMPORTANTE DO NOSSO AGRONEGÓCIO.

O risco não está apenas em perder mercados.

Está em descobrir que continuamos aumentando a produção enquanto nossos principais compradores trabalham para reduzir sua dependência externa.

Está em perceber que investimentos realizados hoje poderão enfrentar condições comerciais muito diferentes daquelas projetadas.

E está em permitir que o produtor rural brasileiro continue assumindo os riscos financeiros de um sistema que celebra volumes, mas ainda oferece proteção insuficiente à rentabilidade.

O BRASIL PRECISA ACORDAR ANTES QUE A ESTRATÉGIA CHINESA TRANSFORME NOSSA DEPENDÊNCIA COMERCIAL EM UMA CRISE DE RENTABILIDADE AINDA MAIOR NO CAMPO.

Porque o futuro do agronegócio brasileiro não será garantido por recordes de produção.

Será determinado pela capacidade de antecipar mudanças, proteger a saúde financeira dos produtores, conquistar novos mercados e transformar nossa produção em riqueza efetiva.

ENQUANTO A CHINA SE PREPARA PARA COMPRAR MENOS, O BRASIL NÃO PODE CONTINUAR SE PREPARANDO APENAS PARA PRODUZIR MAIS.

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