ENTIDADES DO AGRO COBRAM RESPONSABILIDADE FISCAL, MAS QUEM ESTÁ COBRANDO A RECUPERAÇÃO FINANCEIRA DO PRODUTOR RURAL?
Por Celso RicardoColunistaPublicado em 02/11/2026, 07:55Atualizado em 02/11/2026, 07:55

ENTIDADES DO AGRO COBRAM RESPONSABILIDADE FISCAL, MAS QUEM ESTÁ COBRANDO A RECUPERAÇÃO FINANCEIRA DO PRODUTOR RURAL?
Por Celso Ricardo Ferreira – Consultor em Gestão Estratégica em Agronegócio
O agronegócio brasileiro enfrenta uma contradição que merece ser discutida publicamente. Enquanto entidades representativas cobram do governo Lula responsabilidade fiscal para os próximos anos, produtores rurais já enfrentam endividamento, descapitalização, restrições de crédito e dificuldades para preservar sua capacidade de pagamento.
A cobrança por equilíbrio das contas públicas é legítima. Entretanto, ela não substitui a necessidade de uma agenda específica para recuperar a viabilidade econômica das propriedades rurais.
A responsabilidade fiscal não começa com um comunicado institucional. Ela depende de controle de despesas, planejamento orçamentário, sustentabilidade da dívida pública, qualidade do gasto e capacidade de investimento.
Da mesma forma, a recuperação financeira do produtor não começa com um anúncio de crédito ou com uma proposta de securitização. Ela exige diagnóstico econômico, recuperação de margens, geração de caixa e capacidade sustentável de pagamento.
O problema é que essas duas discussões não podem continuar desconectadas.
As entidades do agronegócio precisam demonstrar como suas reivindicações econômicas se traduzem em resultados concretos para a base produtiva.
Não basta cobrar responsabilidade fiscal de Brasília enquanto o produtor permanece sem uma resposta estrutural para o endividamento.
Não basta defender competitividade internacional enquanto parte da produção opera com margens insuficientes.
Não basta comemorar exportações enquanto a rentabilidade, a liquidez e a solvência das propriedades continuam comprometidas.
E não basta apoiar renegociações financeiras sem exigir estudos que demonstrem a capacidade real de pagamento após a reestruturação das dívidas.
A representação econômica do agronegócio precisa ser avaliada não apenas pelo volume de suas manifestações públicas, mas pela capacidade de formular propostas tecnicamente consistentes e produzir resultados verificáveis para os produtores rurais.
Os fatos recentes reforçam a necessidade dessa cobrança por resultados.
Em manifestações divulgadas entre 26 e 29 de outubro, Faesp, Abag, Aprosoja-MT e CropLife Brasil defenderam responsabilidade fiscal, segurança jurídica, redução de juros e competitividade. Algumas também abordaram crédito, seguro e renegociação de dívidas, portanto não seria correto afirmar que todas ignoraram essas questões.
Ao mesmo tempo, os números oficiais divulgados pelo Banco Central em 29 de outubro mostram a dimensão do problema fiscal brasileiro:
Dívida pública bruta: R$ 11,1 trilhões, ou 82,9% do PIB.
Juros nominais em doze meses: R$ 1,205 trilhão.
Déficit nominal em doze meses: R$ 1,275 trilhão, equivalente a 9,51% do PIB.
Banco Central do Brasil
Esses dados demonstram a gravidade do desequilíbrio, embora não permitam concluir que um ajuste fiscal seja impossível.
A questão decisiva para as entidades é outra: qual é o plano técnico, mensurável e economicamente viável para que o produtor rural endividado volte a gerar caixa, recuperar seu patrimônio e deixar de depender permanentemente dos bancos?
Enquanto essa pergunta não receber respostas concretas, continuará existindo uma distância entre as reivindicações institucionais e a recuperação financeira efetiva de parte da base produtiva.
Responsabilidade fiscal é necessária para o Brasil. Mas, para o produtor rural, a responsabilidade econômica também precisa chegar da porteira para dentro. E isso exige muito mais do que manifestações públicas, promessas de crédito e renegociações de dívidas.
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