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Brasil

LULA COMEMORA EXPORTAÇÕES RECORDES NA GLOBO ENQUANTO PRODUTORES RURAIS ENFRENTAM DÍVIDAS E RECUPERAÇÕES JUDICIAIS

Celso Ricardo

Por Celso RicardoColunistaPublicado em 24/10/2026, 10:54Atualizado em 24/10/2026, 10:54

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LULA COMEMORA EXPORTAÇÕES RECORDES NA GLOBO ENQUANTO PRODUTORES RURAIS ENFRENTAM DÍVIDAS E RECUPERAÇÕES JUDICIAIS

LULA COMEMORA EXPORTAÇÕES RECORDES NA GLOBO ENQUANTO PRODUTORES RURAIS ENFRENTAM DÍVIDAS E RECUPERAÇÕES JUDICIAIS

O DISCURSO POLÍTICO DAS EXPORTAÇÕES E A REALIDADE FINANCEIRA DO CAMPO

No debate presidencial da Rede Globo, realizado em 23 de outubro de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva utilizou os recordes de exportações brasileiras para defender os resultados de seu governo no agronegócio. Entretanto, essa comemoração deixa de enfrentar uma das questões mais graves da economia rural brasileira: a distância entre o crescimento das receitas comerciais do país e a situação financeira de milhares de produtores que enfrentam endividamento, margens reduzidas, dificuldades de liquidez e processos de recuperação judicial.

O problema não está na existência dos recordes, mas na tentativa de transformar indicadores comerciais em demonstração de prosperidade econômica generalizada. Essa associação não se sustenta sem uma análise dos resultados financeiros efetivamente obtidos pelas propriedades rurais.

O Brasil pode registrar exportações históricas enquanto parte de sua base produtiva enfrenta uma crise financeira profunda. Uma realidade não anula a outra.

O aumento dos pedidos de recuperação judicial no agronegócio é um sinal concreto dessa contradição. A expansão desse instrumento entre produtores e empresas do setor revela dificuldades de reorganização financeira, pressões sobre o fluxo de caixa e problemas de capacidade de pagamento. Embora os pedidos não representem, isoladamente, a situação de todos os produtores brasileiros, sua evolução exige respostas econômicas muito mais específicas do que a apresentação de recordes comerciais.

Enquanto o governo destaca bilhões de dólares exportados, produtores precisam renegociar compromissos, enfrentar custos financeiros elevados, administrar margens insuficientes e, em determinados casos, recorrer ao Judiciário para tentar preservar suas atividades.

A comemoração presidencial não responde à questão fundamental: de que adianta o país exportar volumes recordes se parte dos produtores não consegue transformar sua produção em rentabilidade suficiente para manter a própria atividade?

O modelo econômico brasileiro continua fortemente apoiado na comercialização de commodities. O produtor assume riscos climáticos, sanitários, produtivos, comerciais e financeiros, mas não controla individualmente a formação dos preços internacionais nem possui necessariamente condições de negociação equivalentes às dos grandes compradores.

A indústria exportadora, as tradings e os demais agentes comerciais operam com estruturas e mecanismos de gestão de risco diferentes daqueles disponíveis a muitos produtores. Isso significa que o crescimento das exportações pode produzir resultados econômicos distintos ao longo da cadeia, sem garantir que a receita adicional se transforme em maior lucro na produção primária.

É justamente essa distribuição da riqueza que deveria ocupar o centro da discussão nacional.

O governo apresenta os números das exportações, mas não demonstra, por meio deles, quanto aumentou a margem líquida do produtor, quanto melhorou sua capacidade de pagamento ou quanto foi reduzido seu comprometimento financeiro.

Também não basta anunciar o crescimento do faturamento externo quando o custo do capital, as despesas operacionais e as obrigações acumuladas continuam pressionando a atividade rural. Produzir mais e comercializar mais não significa necessariamente gerar mais caixa. Em determinadas condições, a expansão da produção exige novos financiamentos e aumenta a exposição financeira de propriedades que já enfrentam dificuldades.

O debate presidencial deveria ter tratado dessa contradição com a mesma importância atribuída aos recordes comerciais.

Quantos produtores conseguiram reduzir seu endividamento? Quantos recuperaram suas margens de rentabilidade? Quantos passaram a gerar caixa suficiente para amortizar suas dívidas? Quantos estão conseguindo preservar seu patrimônio sem depender de sucessivas renegociações?

Esses são os indicadores que permitem avaliar a situação econômica da produção rural.

A insistência em apresentar exportações recordes como principal evidência do sucesso da política agropecuária representa uma visão limitada do funcionamento do agronegócio. O setor não é apenas um conjunto de mercadorias destinadas ao mercado internacional. É um sistema econômico complexo, sustentado por propriedades rurais, investimentos, trabalho, infraestrutura, capital, tecnologia e relações comerciais que precisam apresentar resultados financeiros sustentáveis.

O produtor rural não vive da estatística das exportações brasileiras. Vive da diferença entre aquilo que recebe pela produção e aquilo que precisa desembolsar para produzir, financiar sua atividade e cumprir suas obrigações.

Essa é a realidade que precisa ser incorporada ao debate político nacional.

Não é tecnicamente aceitável utilizar o crescimento da balança comercial como resposta suficiente às dificuldades econômicas do campo. Os indicadores de exportação e os indicadores de solvência, liquidez e rentabilidade medem fenômenos diferentes. Confundi-los produz uma interpretação incompleta da situação do setor.

A elevação dos pedidos de recuperação judicial e as dificuldades de endividamento rural tornam ainda mais necessária essa distinção.

O discurso das exportações recordes não substitui uma política de recuperação da capacidade financeira dos produtores. Não reduz automaticamente os juros, não reestrutura dívidas, não garante margens remuneradoras e não assegura a preservação patrimonial das propriedades.

A discussão precisa abandonar a ideia de que o crescimento das exportações é suficiente para demonstrar o sucesso econômico de toda a cadeia agropecuária.

O Brasil precisa parar de medir a prosperidade do agronegócio apenas pelos dólares que entram no país e começar a medir a situação financeira de quem sustenta a produção.

Enquanto os números das exportações forem apresentados sem os indicadores econômicos das propriedades, permanecerá uma questão central sem resposta: o país está ampliando sua riqueza comercial, mas está garantindo condições para que seus produtores também prosperem?

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