Lula, o estadista do “progressismo” global: a velha revolução socialista sob uma nova bandeira
Por Karina MichelinColunistaPublicado em 26/10/2026, 13:41Atualizado em 26/10/2026, 13:41

O mundo progressista celebra, e a imprensa internacional reverencia. Luiz Inácio Lula da Silva, reeleito presidente do Brasil aos 80 anos, é apresentado como símbolo da resistência democrática e líder da extrema-esquerda mundial. O jornal italiano Corriere della Sera o descreve como o “líder incontestável da esquerda brasileira - e global”. Segundo a correspondente italiana, Sara Gandolfi, nas comemorações da Avenida Paulista, o ex-sindicalista barbudo tornou-se ali “mais famoso que Che Guevara” - em referência às imagens de Lula que estampavam as bandeiras vermelhas.
A comparação é reveladora. Lula é celebrado como um ícone contemporâneo da extrema-esquerda, enquanto sua trajetória política permanece profundamente ligada à tradição socialista latino-americana. A imagem do estadista moderado convive com a história do dirigente que ajudou a fundar, ao lado de Fidel Castro, o Foro de São Paulo, em 1990. A organização reuniu partidos comunistas, movimentos revolucionários e organizações como as FARC, guerrilha colombiana responsável por sequestros, assassinatos, atentados e envolvimento com o narcotráfico. Entre as forças políticas que participaram do Foro também estiveram a Frente Sandinista da Nicarágua e o Partido Comunista de Cuba, associados a regimes marcados por repressão política, censura e perseguição a opositores.
O chamado “progressismo” não surgiu do nada; na tradição política à qual Lula pertence, suas raízes estão no socialismo e na reorganização da esquerda revolucionária após a Guerra Fria. Com o colapso da União Soviética, partidos comunistas e movimentos socialistas latino-americanos reformularam suas estratégias, ampliaram suas alianças e passaram a disputar o poder também pelas urnas. O Foro de São Paulo, criado em 1990, tornou-se um dos espaços dessa articulação -a linguagem política mudou, mas as organizações que reivindicavam a herança revolucionária continuaram atuando sob novas estratégias e bandeiras.
O professor e filósofo Olavo de Carvalho denunciava justamente essa transformação da imagem pública de Lula. Em 2002, quando o candidato petista se apresentava como Lulinha Paz e Amor, Olavo questionava se a moderação do discurso representava uma mudança real de convicções ou apenas uma estratégia para conquistar o poder.
Mais de duas décadas depois, a pergunta tornou-se retórica. Lula chegou ao quarto mandato presidencial, o PT consolidou sua presença nas estruturas de poder e a trajetória política do partido oferece elementos concretos para compreender a dimensão do projeto que Olavo denunciava.
O PT governou o Brasil durante a maior parte deste século, enquanto Lula se consolidou como liderança da extrema-esquerda internacional. Sua trajetória inclui alianças com Fidel Castro, Hugo Chávez e Nicolás Maduro, dirigentes de regimes marcados por repressão política, censura e perseguição a opositores. São vínculos históricos que contrastam com a imagem de “defensor da democracia” projetada internacionalmente.
No Brasil, porém, a realidade revela contradições históricas que essa narrativa internacional omite.
O país chega ao novo mandato profundamente dividido, com adversários políticos condenados e presos políticos em processos relacionados à suposta tentativa de golpe de Estado e aos acontecimentos de 8 de janeiro. Essas prisões e condenações revelam um cenário de perseguição política, aparelhamento institucional e a utilização do aparato judicial contra opositores.
Nesse cenário, a prorrogação extraordinária do horário de votação no segundo turno das eleições presidenciais de 2026, determinada monocraticamente pelo ministro Cristiano Zanin, ex-advogado de Lula e praticamente considerado parte da família Silva, provocou dificuldades operacionais e levantou dúvidas sobre a previsibilidade das regras eleitorais.
A virada inesperada no pleito eleitoral e a vitória de Lula, com 51,79% dos votos válidos neste segundo turno, configuram um resultado eleitoral questionável, que não representa a aprovação unânime de seu projeto político.
A trajetória do PT, as prisões de adversários políticos e a crescente influência das decisões judiciais sobre a disputa eleitoral trazem à tona uma questão fundamental: a falta de independência das instituições neste regime e o desrespeito aos direitos da oposição.
O Brasil caminha para a tão almejada ditadura socialista à brasileira de Lula: sem partido único, mas com partidos que atuam como satélites do poder, preservando a aparência de pluralismo enquanto sustentam sua hegemonia. Nesse cenário, eleições e instituições continuariam existindo formalmente, mas a independência dos Poderes e os direitos da oposição seriam progressivamente sufocados. A questão central não é o nome adotado pelo movimento - socialismo, “progressismo” ou defesa da democracia. O nome não importa; o que importa é o exercício do poder sem limites.
Lula pode ser celebrado internacionalmente pelo establishment como o grande estadista do “progressismo” global, mas sua trajetória está enraizada no socialismo latino-americano, em suas alianças políticas com ditadores e movimentos revolucionários e nas contradições que acompanham sua “defesa da democracia”.
A consagração internacional de Lula como líder revolucionário global mostra que a extrema-esquerda mundial exalta seu líder e seu projeto ideológico de poder. Um modelo em que, quando a oposição vence nas urnas, existe um sistema judiciário capaz de cancelar essa vitória e entregá-la à esquerda. É esse o modelo que a esquerda radical mundial busca incessantemente reproduzir e que Lula da Silva conseguiu consagrar no Brasil. A vitória de um “estadista” que construiu seu próprio regime, com uma Suprema Corte para chamar de sua.
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