O AGRO NÃO ESTÁ EM CRISE? VENHO ALERTANDO HÁ ANOS, MAS AGORA ATÉ AS FEIRAS ESTÃO SENDO CANCELADAS PARA 2027!
Por Celso RicardoColunistaPublicado em 07/11/2026, 08:05Atualizado em 07/11/2026, 08:05

O AGRO NÃO ESTÁ EM CRISE? VENHO ALERTANDO HÁ ANOS, MAS AGORA ATÉ AS FEIRAS ESTÃO SENDO CANCELADAS PARA 2027!
Por Celso Ricardo Ferreira – Consultor em Gestão Estratégica em Agronegócio
Há anos venho alertando publicamente sobre a deterioração econômica e financeira do agronegócio brasileiro, especialmente sobre a situação cada vez mais preocupante dos produtores rurais. Tenho apresentado análises, diagnósticos e indicadores que demonstram os riscos do endividamento crescente, da compressão das margens, dos custos elevados, das dificuldades de acesso ao crédito e da progressiva perda da capacidade financeira das propriedades rurais. Entretanto, esses alertas continuam sem receber a atenção necessária de grande parte das autoridades públicas, instituições financeiras e lideranças responsáveis pelas decisões estratégicas do setor.
O mais preocupante é que, enquanto venho defendendo a necessidade de uma profunda mudança na maneira como o Brasil avalia a saúde econômica do agronegócio, continuamos assistindo à repetição de discursos sobre produção, exportações e crescimento, como se esses indicadores fossem suficientes para comprovar a prosperidade de quem produz.
O RESULTADO ESTÁ APARECENDO: A CRISE FINANCEIRA DO PRODUTOR RURAL JÁ ULTRAPASSA AS PORTEIRAS E COMEÇA A COMPROMETER OUTROS SEGMENTOS DA ECONOMIA DO AGRONEGÓCIO.
Agora, os cancelamentos de eventos agropecuários previstos para 2027 representam novos sinais de alerta. A Parecis SuperAgro, em Campo Novo do Parecis, Mato Grosso, e a Exposul, em Chapadão do Sul, Mato Grosso do Sul, tiveram suas edições canceladas em meio a dificuldades econômicas, custos elevados e condições desfavoráveis de mercado.
Esses acontecimentos não representam, isoladamente, uma comprovação de crise generalizada em todas as atividades agropecuárias brasileiras. Entretanto, reforçam uma realidade que venho apontando há muito tempo: quando o produtor rural perde sua capacidade econômica e financeira, os efeitos não ficam restritos à propriedade. Eles alcançam a indústria, o comércio, os fornecedores, os prestadores de serviços, os investimentos e toda a estrutura empresarial que depende da atividade agropecuária.
E é justamente nesse cenário que precisamos recordar uma declaração que considero profundamente equivocada.
Gilson Bittencourt, vice-presidente de Agronegócios e Agricultura Familiar do Banco do Brasil, declarou que o agronegócio brasileiro não estaria quebrado, não estaria em crise e continuaria pujante.
COMO É POSSÍVEL NEGAR A EXISTÊNCIA DE UMA CRISE FINANCEIRA NO CAMPO QUANDO UMA PARCELA DOS PRODUTORES ENFRENTA DIFICULDADES CRESCENTES PARA PAGAR SUAS DÍVIDAS, FINANCIAR A PRODUÇÃO E PRESERVAR SEU PATRIMÔNIO?
É exatamente esse tipo de interpretação que venho questionando há anos. A análise da economia agropecuária brasileira não pode continuar limitada ao volume produzido, ao valor exportado ou ao crescimento das grandes empresas que integram a cadeia produtiva. O desempenho comercial do agronegócio não representa, necessariamente, o desempenho financeiro do produtor rural.
PRODUÇÃO RECORDE NÃO SIGNIFICA RENTABILIDADE RECORDE. EXPORTAÇÃO RECORDE NÃO SIGNIFICA LUCRO RECORDE. E PATRIMÔNIO RURAL NÃO SIGNIFICA DINHEIRO DISPONÍVEL PARA PAGAR AS CONTAS.
Um produtor pode continuar movimentando milhões de reais, mantendo sua atividade, produzindo e comercializando, enquanto suas margens desaparecem, seu endividamento aumenta e sua capacidade de pagamento diminui. Pode possuir terras, máquinas, instalações e rebanhos e, mesmo assim, enfrentar dificuldades para honrar compromissos financeiros. Confundir patrimônio com liquidez e produção com rentabilidade é um erro gravíssimo de interpretação econômica.
E esse erro não é apenas conceitual. Ele influencia diretamente a formulação das políticas agrícolas, a concessão de crédito, os programas de renegociação e a maneira como as instituições financeiras avaliam a verdadeira situação econômica das propriedades.
Ao longo dos anos, venho defendendo que o Brasil precisa abandonar a obsessão pelos indicadores exclusivamente produtivos e passar a considerar a eficiência financeira como um dos principais parâmetros de avaliação do agronegócio. É necessário compreender quanto efetivamente permanece com o produtor depois de pagar os custos de produção, os encargos financeiros, os investimentos necessários e os compromissos assumidos.
O PRODUTOR RURAL NÃO SOBREVIVE DE FATURAMENTO. SOBREVIVE DA CAPACIDADE DE TRANSFORMAR SUA PRODUÇÃO EM RESULTADO ECONÔMICO E FINANCEIRO.
O que estamos observando agora é a possibilidade de uma reação em cadeia. Quando o produtor reduz seus investimentos, a indústria de máquinas e equipamentos sente os efeitos. Quando enfrenta dificuldades financeiras, fornecedores de insumos e prestadores de serviços também são atingidos. Quando a capacidade de compra diminui, eventos comerciais podem perder atratividade econômica, patrocinadores reconsideram investimentos e organizadores passam a enfrentar dificuldades para sustentar suas estruturas.
É nesse contexto que os cancelamentos de feiras agropecuárias para 2027 precisam ser interpretados. Eles não devem ser tratados apenas como decisões administrativas isoladas, mas analisados dentro de um cenário mais amplo de dificuldades financeiras que já atingem diferentes segmentos do agronegócio.
O que mais me preocupa é que esses acontecimentos reforçam problemas sobre os quais venho alertando repetidamente, enquanto o debate nacional continua excessivamente concentrado nos resultados de produção, nas exportações e nos anúncios de recursos financeiros.
NÃO FALTOU ALERTA SOBRE A DETERIORAÇÃO FINANCEIRA DO CAMPO. O QUE CONTINUA FALTANDO É TRANSFORMAR ESSES ALERTAS EM POLÍTICAS ECONÔMICAS CAPAZES DE RECUPERAR QUEM PRODUZ.
O Brasil precisa reconhecer que o endividamento rural não será resolvido apenas com novos financiamentos ou sucessivas renegociações. Alongar dívidas sem recuperar a capacidade de pagamento pode simplesmente transferir o problema para os anos seguintes. Da mesma forma, estimular aumentos de produção sem avaliar custos, preços, margens e riscos pode ampliar a exposição financeira das propriedades.
É necessária uma mudança estrutural na política agrícola brasileira, com prioridade para recuperação financeira, proteção da renda, eficiência econômica, gestão de riscos, acesso sustentável ao crédito e acompanhamento permanente dos indicadores de saúde financeira do produtor.
A situação exige mais do que discursos otimistas. Exige conhecimento econômico, responsabilidade institucional e capacidade de compreender o agronegócio como um sistema complexo, no qual o produtor rural representa a base econômica de inúmeras atividades industriais, comerciais e de serviços.
Se essa base continuar perdendo capacidade financeira, os efeitos poderão se aprofundar nos próximos anos, com redução de investimentos, comprometimento da produção, dificuldades empresariais, concentração econômica, perda patrimonial e saída de produtores da atividade.
E É EXATAMENTE SOBRE ESSE RISCO QUE VENHO ALERTANDO HÁ ANOS.
Não se trata de negar a importância econômica do agronegócio brasileiro, muito menos de desconsiderar sua capacidade produtiva. Trata-se de reconhecer que a força de uma cadeia econômica não pode ser avaliada apenas pelos resultados de seus segmentos mais capitalizados, enquanto parte dos produtores enfrenta dificuldades para permanecer economicamente viável.
Os cancelamentos de eventos para 2027 representam mais um motivo para aprofundar essa discussão. O Brasil precisa deixar de confundir a capacidade de produzir com a capacidade de prosperar.
E aqueles que ocupam posições estratégicas em instituições financeiras, órgãos públicos e entidades representativas precisam compreender que reconhecer a existência de dificuldades financeiras não significa desvalorizar o agronegócio. Significa assumir a responsabilidade de enfrentar seus problemas.
O MAIOR PERIGO PARA O AGRONEGÓCIO BRASILEIRO NÃO É APENAS UMA EVENTUAL REDUÇÃO DA PRODUÇÃO. É CONTINUAR PRODUZINDO ENQUANTO O PRODUTOR PERDE SUA RENTABILIDADE, SUA CAPACIDADE DE PAGAMENTO E, EM SITUAÇÕES EXTREMAS, SEU PATRIMÔNIO.
Venho defendendo essa mudança de visão há anos porque considero que o futuro do agronegócio brasileiro depende fundamentalmente da recuperação da capacidade econômica e financeira de quem produz.
Não podemos continuar celebrando resultados produtivos enquanto ignoramos os indicadores financeiros que determinam a sobrevivência das propriedades rurais.
O AGRONEGÓCIO BRASILEIRO NÃO PRECISA APENAS CONTINUAR PRODUZINDO. PRECISA GARANTIR QUE QUEM PRODUZ TENHA CONDIÇÕES ECONÔMICAS DE CONTINUAR NO CAMPO.
E quanto mais tempo o Brasil demorar para reconhecer essa realidade, maiores poderão ser os custos econômicos e sociais dessa omissão.
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