A candidata de Gilmar Mendes ao Senado
Homenagens, encontros e “Gilmarpalooza” marcam relação pública entre Janaína Riva e Gilmar Mendes
Por Deborah SenaColunistaPublicado em 29/09/2026, 00:19Atualizado em 29/09/2026, 00:19

Janaína Riva (MDB-MT) é candidata ao Senado por Mato Grosso. Gilmar Mendes não é candidato a nada. Ainda assim, o ministro do Supremo Tribunal Federal conseguiu um lugar nessa campanha sem precisar pedir voto, gravar vídeo ou subir em palanque.
A explicação está numa história que não começou nesta eleição. Nem no ano passado. Quando se puxam os fios, eles levam a encontros públicos, homenagens, viagens a Lisboa — e, bem antes de tudo isso, a duas decisões do Supremo envolvendo José Riva, pai da candidata.
Um dos registros dessa proximidade é quase prosaico. Em março de 2022, Janaína encontrou Gilmar durante uma passagem do ministro por Mato Grosso e lhe entregou uma camisa do Cuiabá personalizada com seu nome. A fotografia foi feita na sede do Tribunal de Contas do Estado. Era apenas uma camisa de futebol. Com o passar dos anos, vieram outros encontros.
Em março de 2024, Gilmar voltou a dividir uma agenda pública com Janaína. O ministro foi a Cuiabá para participar de um seminário sobre violência doméstica promovido pela Procuradoria Especial da Mulher da Assembleia Legislativa. Desta vez, não havia camisa. Havia microfone, plateia e os dois na programação de um evento oficial.
No ano seguinte, Janaína transformou a deferência em homenagem formal. Em fevereiro de 2025, concedeu a Gilmar a Medalha Lenine Póvoas de Honra ao Mérito Cultural, uma das honrarias da Assembleia Legislativa de Mato Grosso. A justificativa foi a contribuição do ministro à cultura jurídica e sua atuação na Academia Mato-grossense de Letras.
Janaína apareceu em Portugal na 13ª edição do Fórum Jurídico de Lisboa. O evento reúne ministros de tribunais superiores, políticos, empresários e integrantes do mundo jurídico e é organizado pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), do qual Gilmar é um dos fundadores. A concentração de autoridades brasileiras do outro lado do Atlântico lhe rendeu um apelido muito menos solene: “Gilmarpalooza”.
Janaína gostou da agenda o suficiente para voltar.
Já em pré-campanha ao Senado, em 2026, ela se reuniu novamente com Gilmar, agora em Diamantino, cidade natal do ministro. O encontro teve a presença dos prefeitos de Diamantino e Alto Paraguai e foi registrado pela própria deputada nas redes sociais. A pauta divulgada foi o desenvolvimento do Médio-Norte de Mato Grosso, com discussões sobre emprego e infraestrutura.
Depois, Lisboa outra vez.
Na 14ª edição do “Gilmarpalooza”, Janaína já não estava apenas entre os participantes. Entrou oficialmente na programação como debatedora do painel “Agronegócio e soberania sobre o processo de produção e distribuição de mercadorias”.
A camisa havia virado medalha. A medalha foi seguida por Lisboa. Vieram Diamantino e Lisboa novamente. Nenhum desses episódios, sozinho, prova uma aliança política. Juntos, porém, documentam uma relação pública cultivada ao longo dos anos.
Foi sobre esse terreno que Eduardo Bolsonaro lançou uma frase feita sob medida para uma campanha eleitoral. Chamou Janaína de “candidata de Gilmar Mendes”.
A autoria da frase importa: Eduardo é adversário político de Janaína. Não há, nos episódios descritos, prova de que Gilmar Mendes apoie sua candidatura ao Senado. Mas existe uma parte dessa história que antecede a camisa, a medalha e Lisboa. Para encontrá-la, é preciso voltar a 2015 e trocar a filha pelo pai.
José Riva presidiu a Assembleia Legislativa de Mato Grosso e se tornou nacionalmente conhecido como o “maior ficha-suja do país”. Respondeu a mais de uma centena de processos e acumulou condenações relacionadas a desvios de dinheiro público.
Em junho de 2015, estava preso havia quatro meses, acusado de participar de um esquema de desvio de R$ 60 milhões, quando seu habeas corpus chegou à Segunda Turma do Supremo.
Quatro ministros votaram. Cármen Lúcia e Teori Zavascki queriam Riva preso. Gilmar Mendes e Dias Toffoli votaram para soltá-lo. Dois a dois. Riva saiu.
Gilmar sustentou que a prisão preventiva já se prolongava e que o ex-deputado, então fora do mandato, não tinha mais ingerência sobre a Assembleia Legislativa. A liberdade, porém, durou pouco.
Em 1º de julho, a Justiça de Mato Grosso decretou uma nova prisão. Riva voltou para a cadeia. E o processo encontrou Gilmar Mendes pela segunda vez. Naquela mesma noite, o ministro concedeu uma liminar e mandou soltá-lo novamente.
Desta vez, não houve empate. A decisão foi de Gilmar. O ministro considerou que o novo decreto aparentava ser uma tentativa de contornar o que o Supremo havia acabado de decidir. Havia, portanto, uma fundamentação jurídica expressa para a ordem.
Depois disso, o calendário avançou uma década. O pai saiu de cena. A filha cresceu na política. Vieram a camisa, o evento em Cuiabá, a medalha, Lisboa, Diamantino, Lisboa novamente. Agora, Janaína Riva quer deixar a Assembleia Legislativa e ocupar uma cadeira no Senado.
É preciso fazer uma distinção fundamental. Não há elemento que permita afirmar que as decisões de Gilmar em favor de José Riva tenham qualquer relação causal com a proximidade pública que, anos depois, se estabeleceu entre o ministro e Janaína. Também não há prova, nesses fatos, de que Gilmar esteja apoiando a candidatura dela.
O que existe é a cronologia. E ela dispensa enfeites. Há ainda uma ironia institucional que não depende de interpretação política. Janaína quer chegar justamente ao Senado — a Casa à qual a Constituição entrega a competência para processar e julgar ministros do Supremo Tribunal Federal por crimes de responsabilidade.
Gilmar está no Supremo. Janaína quer estar no Senado.
Foi assim que, na eleição de Mato Grosso, Janaína Riva ganhou dos adversários um sobrenome político que não aparece no registro de candidatura. Mendes.
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