A república da pornochanchada: Lula, Master e os bilhões de uma política deem pudor
Por Karina MichelinColunistaPublicado em 29/09/2026, 23:04Atualizado em 29/09/2026, 23:04

O Brasil se consolida como a República da pornochanchada. Não aquela das telas de cinema, da era em que provocação, escracho e transgressão eram transformados em entretenimento, mas uma versão institucional, muito mais cara e infinitamente menos divertida, em que o obsceno não está na nudez, mas na relação cada vez mais despudorada entre poder, dinheiro e conveniência política. É uma espécie de sexo explícito com a máquina pública; sem constrangimento, sem pudor e com a conta entregue ao contribuinte.
Basta observar o Brasil das últimas semanas. De um lado, bilhões de reais circulam em medidas anunciadas ou ampliadas na reta final da eleição, enquanto o governo Lula rejeita a acusação de uso eleitoral dessas políticas. De outro, uma canetada presidencial muda abruptamente as regras das bets, atingindo contratos, empresas, clubes e emissoras depois de o próprio Estado ter regulamentado o setor e arrecadado bilhões com licenças. No meio disso tudo, surgem os bastidores do Banco Master; empresários com trânsito entre autoridades, contratos milionários, lobistas, mensagens de intimidade, encontros, jatinhos, festas, hotéis, uísque e charutos.
Até o uísque entrou para o folclore dessa República. Em mensagem a Daniel Vorcaro, seu então advogado, Walfrido Warde, contou que Lula havia perguntado pelo banqueiro, agradecido “mais uma vez” o presente e mandado um abraço. O Planalto negou que o presidente tivesse recebido a garrafa, mas, quando confrontado por jornalistas, Lula disse não saber se recebeu o uísque e, com um deboche incompatível com a seriedade do cargo, assumiu que, se recebeu, “já bebeu”. A frase pode parecer piada; mas a desfaçatez diante de algo que deveria exigir transparência, não.
A pornochanchada institucional começa justamente aí: quando desaparecem as fronteiras entre o público e o privado, entre o interesse político e o dinheiro, entre a autoridade e a intimidade; e essa promiscuidade passa a ser tratada com tamanha naturalidade que quase ninguém parece mais se constranger.
O caso Master apenas escancarou a porta para esse submundo. Pelas mensagens de Daniel Vorcaro desfilaram personagens do centro do poder da República, numa sucessão desconcertante de relações pessoais, encontros, contratos e intimidades. Os citados apresentam suas justificativas, enquanto as próprias engrenagens institucionais se protegem. E chegamos ao ponto mais grave: acostumamo-nos tanto a perguntar apenas se há crime nas ações, que esquecemos de exigir algo que vem antes do Código Penal e deveria ser elementar para quem exerce o poder - o pudor institucional.
Uma República saudável não precisa esperar uma condenação criminal para reconhecer aquilo que a degrada. O mesmo vale para o dinheiro público.Quando centenas de bilhões passam a integrar medidas de caráter eleitoreiro, anunciadas ou ampliadas justamente às vésperas das eleições, fica evidente o perigo de transformar a máquina pública em instrumento de propaganda sem qualquer compromisso com a responsabilidade fiscal.
Na República da pornochanchada, porém, tudo parece poder ser explicado por uma conveniência diferente. Se é gasto, chama-se investimento. Se acontece às vésperas da eleição, chama-se coincidência. Se uma regra construída pelo próprio governo é virada de cabeça para baixo por uma canetada, invoca-se o interesse público. Se lobistas circulam pelas salas do poder, são apenas relações pessoais. Se aparecem contratos milionários envolvendo pessoas próximas a autoridades, tudo pode ser perfeitamente legal e legítimo.
E esse é o aspecto mais corrosivo do momento brasileiro; um país no qual dinheiro, poder, influência e intimidade perderam suas fronteiras. O problema não está apenas naquilo que eventualmente seja ilegal, mas naquilo que, de tão banalizado, deixou de causar vergonha.
O pudor institucional é uma espécie de cerca invisível da democracia. Ele impede que uma autoridade faça determinadas coisas não apenas porque o Código Penal proíbe, mas porque o cargo exige distância, compostura e respeito pelo patrimônio que não lhe pertence - quando essa cerca desaparece, começa a lógica do “posso porque posso”.
E o cidadão assiste a tudo isso do lado de fora; para ele existem impostos, regras, multas, juros, burocracia e a obrigação de explicar cada centavo. Nos andares de cima, o cenário que emerge é outro: milhões e bilhões, acesso privilegiado, relações pessoais, mudanças abruptas de regras, contratos, encontros reservados e uma extraordinária capacidade de tratar como absolutamente normal aquilo que, visto de baixo, parece cada vez mais indecoroso.
É por isso que “República da pornochanchada” não é apenas uma provocação.
É a metáfora de um país em que o poder perdeu completamente o pudor. A obscenidade brasileira não precisa mais tirar a roupa - ela usa terno, ocupa gabinetes, assina decretos, movimenta bilhões e ainda manda a conta para quem está do lado de fora da festa.
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