A derrocada do voto de deboche
De campeão de votos a náufrago das urnas, a trajetória de Tiririca expõe o cansaço do brasileiro com a política transformada em picadeiro
Por Welinton BarrosColunistaPublicado em 07/10/2026, 11:11Atualizado em 07/10/2026, 11:11

Em 2010, mais de 1,3 milhão de eleitores paulistas decidiram rir de si mesmos e do próprio país ao carimbar nas urnas o lema "pior do que tá não fica". Francisco Everardo, o Tiririca, se transformou, naquele momento, no símbolo máximo do voto de protesto inconsequente. Foi a apoteose de uma narrativa populista que serviu com perfeição às engrenagens do velho sistema político. Sob o disfarce da irreverência, uma votação monumental funcionou como trator para arrastar bancadas inteiras e inchar o Parlamento com figuras meramente decorativas. A ironia, porém, costuma ter prazo de validade curto quando confrontada com a dura realidade do país.
Demorou, mas 16 anos depois a piada perdeu a graça. A matemática eleitoral desenhou, pleito após pleito, o retrato sem retoques da desilusão popular. Tiririca foi de 1,3 milhão de votos na estreia, para 1 milhão em 2014, caiu para 453 mil em 2018 e atingiu modestos 71 mil em 2022. O "puxador" de bancadas foi rebaixado à incômoda condição de "puxado", dependendo diretamente das sobras partidárias para salvar o mandato. A decadência dos números não ocorreu por acaso; foi o reflexo direto de uma sociedade que começou a perceber que o deboche institucional custa caro aos cofres públicos e nada entrega a quem realmente trabalha e produz.
Diante do evidente desgaste político em São Paulo, o humorista abandonou o eleitorado que sustentou por quatro mandatos consecutivos e transferiu o domicílio para o Ceará, seu estado de origem. A manobra incluiu a filiação ao PSD, acomodando-se ao pragmatismo do centrão governista que sustenta pautas de conveniência em Brasília. Tratou-se de uma tentativa calculada de trocar de palco sem alterar o roteiro.
O veredito das urnas, contudo, foi implacável. Apesar dos R$ 2 milhões recebidos para a campanha através do fundo eleitoral do PSD, Tiririca registrou míseros 5.523 votos. O eleitorado cearense recusou o papel de plateia para uma encenação gasta. Essa resposta sela o fim da passagem de Tiririca pelo Legislativo e oferece uma lição política basilar: não há conveniência partidária capaz de blindar quem trata a representação popular como caricatura.
A derrocada de Francisco Everardo extrapola o ocaso pessoal de um parlamentar; trata-se de um sintoma de amadurecimento cívico. O Brasil que precisa enfrentar o peso dos desmandos fiscais e estancar a farra de privilégios em Brasília não tem mais espaço para o comodismo da farsa. Exemplo disso, é que neste ano, o tal Caneta Azul não conseguiu emplacar sua candidatura. Manoel Gomes (Avante), disputou uma cadeira por São Paulo e somou 7.236 votos, perdeu por muito.
Para resgatar a dignidade da representação pública, o país exige quadros convictos e compromisso real com os freios e contrapesos do poder, não personagens de entretenimento pagos com o suor do pagador de impostos. O circo foi desmontado pelo próprio eleitor.
Comentários
Todos os comentários passam por moderação antes da publicação. Respeite as regras de convivência: não são permitidos discurso de ódio, ofensas ou spam.



