Tentaram enterrar Jair Bolsonaro, mas as urnas de 2026 mostraram que o bolsonarismo está mais vivo do que nunca
Por Karina MichelinColunistaPublicado em 06/10/2026, 09:51Atualizado em 06/10/2026, 09:51

Durante quatro anos, políticos, jornalistas e analistas repetiram o mesmo mantra: o bolsonarismo morreu. Jair Bolsonaro “perdeu” a eleição de 2022, tornou-se inelegível, foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal por um golpe que nunca cometeu e retirado da disputa presidencial. Foi sufocado política, psicológica e fisicamente, perdeu seus direitos políticos e se tornou um preso político - refém do Estado. Para seus adversários e inimigos, restava apenas escrever o epitáfio: sem Bolsonaro nas urnas, o bolsonarismo também morreria. Era uma conclusão confortável e superficial para quem passou anos acreditando que aquele movimento político dependia exclusivamente de um homem e que, eliminado o homem da disputa, milhões de brasileiros simplesmente desapareceriam com ele.
Essa certeza produziu dois movimentos curiosamente complementares. De um lado, o PT e seus aliados apostaram que chegariam a 2026 diante de uma direita órfã, fragmentada e enfraquecida pela ausência de Jair Bolsonaro. Do outro, setores da própria direita começaram a disputar antecipadamente o espólio político daquele que julgavam acabado. Em novembro de 2025, Renan Santos, presidente do recém-criado Missão, partido originado de lideranças do MBL, resumiu essa convicção em uma frase: “O bolsonarismo morreu”. Não era apenas uma provocação; o Missão surgia propondo justamente uma alternativa dentro da direita, e Renan se preparava para disputar a Presidência em 2026. Enquanto uns queriam derrotar definitivamente o bolsonarismo, outros se apresentavam para substituí-lo. O funeral estava organizado, os herdeiros políticos já disputavam espaço e parecia faltar apenas um detalhe: perguntar ao eleitor brasileiro se ele concordava com o enterro.
A resposta veio em 4 de outubro, com uma dimensão que torna impossível tratar o resultado como simples sobrevivência eleitoral. Sem Jair Bolsonaro como candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro recebeu 56.104.268 votos, 47,03% dos votos válidos, terminou o primeiro turno em primeiro lugar e avançou para enfrentar Lula no segundo turno. O presidente da República, candidato à reeleição, recebeu 53.876.617 votos, ou 45,16% - uma diferença superior a 2,2 milhões de votos. O dado mais importante está naquilo que esses 56 milhões de votos em Flávio Bolsonaro representam: depois de quatro anos de desgaste, processos, condenações, inelegibilidade e da ausência de seu pai da disputa presidencial, o eleitorado bolsonarista não desapareceu - pelo contrário.
As urnas trouxeram uma resposta ainda maior: o PL elegeu 121 deputados federais e terá a maior bancada da Câmara a partir de fevereiro de 2027, 24 cadeiras a mais do que conquistou em 2022. A federação formada por PT, PCdoB e PV ficou com 82 deputados. No Senado, onde estavam em disputa 54 das 81 cadeiras, o resultado foi ainda mais expressivo: o PL elegeu 19 senadores e deverá iniciar a próxima legislatura com 28, tornando-se a maior bancada partidária a começar uma legislatura no Senado desde a Constituição de 1988. O recorde anterior era do então PMDB, que começou 1999 com 27 senadores. Nunca, desde a Constituição de 1988, um único partido havia elegido 19 senadores em uma mesma eleição. Além disso, o PL conseguiu conquistar simultaneamente as duas cadeiras no Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Rondônia e Santa Catarina.
É aqui que a eleição de 2026 deixa de ser apenas uma disputa entre Flávio Bolsonaro e Lula e passa a exigir uma reflexão maior sobre o fenômeno político que o Brasil tentou enterrar antes da hora. Evidentemente, nem todo eleitor de direita é bolsonarista, assim como nem todo voto no PL representa adesão pessoal e irrestrita a Jair Bolsonaro. Mas também seria impossível olhar para o conjunto dos resultados e ignorar que existe uma força eleitoral potente em torno desse campo político. A ausência de Jair Bolsonaro da urna não provocou - como esperado - o desaparecimento automático de seu eleitorado; ao contrário, uma parcela expressiva dele transferiu seu voto para outro Bolsonaro, enquanto o partido diretamente associado ao movimento ampliou expressivamente sua presença no Congresso.
Esse foi o maior erro de cálculo dos adversários do bolsonarismo: confundir a tentativa de neutralizar politicamente Jair Bolsonaro com a capacidade de neutralizar aquilo que ele passou a representar para milhões de brasileiros. Durante anos, discutiu-se o bolsonarismo como se fosse uma anomalia passageira da política brasileira, algo que desapareceria quando Bolsonaro deixasse de ocupar o Palácio do Planalto ou fosse impedido de voltar às urnas. O primeiro turno de 2026 mostrou que essa explicação estava completamente equivocada.
Enquanto os adversários preparavam o funeral e os oportunistas disputavam sua herança política, eis que surgiu o eleitor, mantendo vivo aquilo que todos eles já haviam declarado morto. A eleição não devolveu Jair Bolsonaro à urna, mas demonstrou que retirar seu nome da cédula não significava apagar sua influência política. Pela primeira vez, o bolsonarismo atravessou uma eleição presidencial sem Jair Bolsonaro como candidato e conseguiu transferir dezenas de milhões de votos para outro nome, ao mesmo tempo em que o PL ampliou sua representação na Câmara e alcançou uma força inédita no Senado.
O segundo turno de 25 de outubro decidirá quem governará o Brasil pelos próximos quatro anos. Pode-se gostar ou não do bolsonarismo, combatê-lo politicamente, criticá-lo ou tentar construir uma direita que não dependa dele - isso faz parte da democracia. Tentaram sepultar Jair Bolsonaro politicamente, esperando que seu eleitorado fosse enterrado junto com ele, mas as urnas mostraram outra realidade; milhões de brasileiros rasgaram o atestado de óbito que o sistema emitiu e deixaram nas urnas uma mensagem impossível de ignorar: O bolsonarismo não morreu, ele está mais vivo do que nunca!
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