Partido Novo : surfou a onda Bolsonaro, afastou-se, quase morreu afogado e voltou às raízes
Por Gerson GomesColunistaPublicado em 07/10/2026, 23:49Atualizado em 07/10/2026, 23:49

O Partido Novo foi registrado no TSE em setembro de 2015. Após dez anos de trajetória eleitoral, podemos estabelecer um arco histórico interessante: estreia em 2016 com quatro vereadores; pico em 2018 com oito deputados federais e o governo de Minas; queda em 2022; ressurgimento em 2026 — com dez deputados federais, três senadores e a cláusula de barreira superada.
A tese central é esta: o Novo nasceu dentro do movimento de rua a favor do impeachment de Dilma Rousssef, cresceu em 2018 integrado ao bolsonarismo, afastou-se, quase morreu em 2022 e voltou em 2026 corrigindo o rumo.
O afastamento dos movimentos conservadores foi quase fatal. Ainda em 2018, João Amoêdo defraudou seus eleitores e não apoiou Bolsonaro no segundo turno. Em 2022, foi ainda mais longe: declarou voto em Lula e foi suspenso pela Comissão de Ética do partido (por 4 a 3) e se desfiliou. Nessa fase de independência e tentativa de se posicionar como "terceira via", o partido encolheu para três deputados federais e cinco estaduais, ficou fora da cláusula de barreira, perdeu acesso ao fundo partidário e ao tempo de TV.
A variação de cadeiras na Câmara dos Deputados é um indicador irrefutável da trajetória claudicante do Novo. Em 2018, o partido elegeu oito federais. Em 2022, isolado do Planalto, caiu para três. O conhecido deputado federal Marcel van Hattem é um exemplo: nesse período, caiu de 349 mil (2018) para 256 mil votos em 2022.
Em 2026, aliado novamente ao campo bolsonarista, o Novo alcança sua maior marca com 10 deputados federais. O próprio partido se autodefine hoje como “o partido mais à direita do Brasil e que mais faz oposição ao governo Lula” — e o GPS Partidário, que mede posicionamento por votações e coligações, o coloca em primeiro lugar com 97,8 pontos, à frente do próprio PL.
A saída de Amoêdo foi salutar e abriu espaço para a guinada municipal. Durante seu domínio do Diretório Nacional, o partido negligenciou a descentralização, sufocando a maioria dos diretórios municipais. Em 2024, liberto de sua influência, o partido lançou 7.604 candidaturas — contra 620 em 2020 — elegendo 19 prefeitos e 263 vereadores. Um crescimento de 1.800% em prefeituras e 800% em vereadores.
As filiações dobraram, de 31 mil em janeiro de 2023 para 63 mil em setembro de 2024, e hoje passam de 83 mil. Os candidatos de 2024 se colocaram explicitamente contra as pautas "progressistas" da esquerda, retomando um perfil liberal clássico e conservador. Não foi uma guinada acidental, foi um retorno à identidade inicial do partido.
Em 2026, a aliança ideológica de 2018 foi retomada. O partido lançou 1.309 candidaturas, recebeu 63 milhões de reais em recursos públicos e repassou mais de 100 milhões a 1.021 candidatos. O resultado: 2,91 milhões de votos para deputado federal, 2,56% do nacional, e a cláusula de barreira superada — com 1,5% em nove estados, incluindo o Distrito Federal. A bancada triplicou: de 3 para 10 deputados federais, de 5 para 15 estaduais, e elegeu três senadores (contra zero em 2022).
A geografia do crescimento confirma a estratégia. No Paraná, em coligação com o PL e sob a liderança de Deltan Dallagnol, o Novo elegeu sete deputados — quatro federais e três estaduais — e teve o deputado federal mais votado do estado, Jeffrey Chiquini, com 425 mil votos. No Rio Grande do Sul, van Hattem elegeu-se senador com impressionantes 3,5 milhões de votos, também coligado ao PL de Flávio Bolsonaro.
No Maranhão, Lahesio Bonfim foi eleito senador com 1,47 milhão de votos, coligado ao PSD de Eduardo Braide (opositor ferrenho de Flávio Dino no estado). Ao Norte, o padrão se repetiu: no Amapá, o Novo integrou a coligação do Dr. Furlan (PSD), que derrotou as alianças apoiadas por Alcolumbre e Lula no primeiro turno, com 62,75% dos votos; em Roraima, Haroldo Cathedral, do Novo, foi eleito vice-governador na chapa do PL de Arthur Henrique.
Por outro lado, Romeu Zema, presidenciável do partido, obteve apenas 0,27% dos votos válidos em 2026, repetindo o erro estratégico de Amoedo em 2018. A cláusula de barreira foi superada pelo proporcional, não pela campanha majoritária. O partido cresceu onde deu as mãos ao bolsonarismo — e encolheu onde se afastou dele.
Zema pagou um elevado preço ao rejeitar uma aliança nacional com Flávio Bolsonaro. Reconduzido ao governo de MG no primeiro turno em 2022 (com impressionantes 72,8% dos votos), não elegeu, em 2026, nenhum deputado federal, ou senador, no estado que governou por quase 8 anos.
Mateus Simões, seu vice-governador e primeiro vereador do Novo em Minas, da safra histórica de 2016, deixou o partido em outubro de 2025, filiando-se ao PSD. Simões assumiu o governo em março de 2026, quando Zema se afasta para candidatar-se à Presidência e o partido elege apenas dois deputados estaduais em MG, desperdiçando o elevado capital político de Zema junto aos mineiros.
A estrutura financeira do Novo é uma das partes mais interessantes dessa história. Perder a cláusula de barreira em 2022 não significou ficar totalmente sem recursos públicos. O Novo, por filosofia contrária ao uso do fundo partidário, acumulou cerca de 94 milhões de reais desse fundo em aplicações no Banco do Brasil desde 2018. Esses valores não podiam ser legalmente devolvidos ao Tesouro e ficaram retidos no caixa do partido.
Em 2023, com a saída de Amoêdo (que financiava parte da estrutura do partido com recursos pessoais), a convenção nacional aprovou, com 85% dos votos, o uso dos rendimentos dessas aplicações, cerca de 2,3 milhões por mês, para custear salários e estrutura. Em 2024, autorizou o uso do fundo eleitoral, que naquele ano repassou cerca de 43 milhões para as campanhas municipais, turbinando o desempenho do partido.
Agora, em 2026, o Novo recebeu 63,3 milhões em recursos públicos — 37,2 milhões do fundo eleitoral e 26 milhões do fundo partidário — e repassou mais de 100 milhões a 1.021 candidatos, complementando com doações privadas. Ou seja: o Novo passou quatro anos sem receber o rateio mensal do fundo partidário, mas viveu dos juros do dinheiro acumulado e da cota mínima do fundo eleitoral, que todo partido registrado recebe.
O balanço eleitoral de 2026 fecha o arco de nossa análise: 3 senadores, 10 deputados federais, 15 estaduais — 28 parlamentares no total, além de 1 vice-governador. A reaproximação com o bolsonarismo não foi apenas uma correção de rumo ideológica: foi a estratégia que devolveu ao Novo a merecida relevância na política nacional.
A sobrevivência institucional do partido foi assegurada ao reconhecer, dez anos após sua estréia eleitoral, que uma via independente e alternativa ao bolsonarismo segue politicamente inviável no seio da direita.
Desempenho leitoral do NOVO 30 em 2026, por estado:
Senadores — 3
Paraná: Deltan Dallagnol, 2.904.594 votos
Rio Grande do Sul: Marcel van Hattem, 3.499.053 votos
Maranhão: Lahesio Bonfim, 1.471.859 votos
Deputados federais — 10
São Paulo: Marina Helena (230.866) e Adriana Ventura (69.083)
Rio de Janeiro: Luiz Lima (79.249)
Paraná: Jeffrey Chiquini (425.399), Guilherme Kilter (269.832), Henrique Mecabô (65.706) e Paulo Martins (44.029)
Rio Grande do Sul: Felipe Camozzato (85.167)
Santa Catarina: Gilson Marques (117.179)
Pernambuco: Eduardo Moura (113.482)
Deputados estaduais — 15
São Paulo: Henrique Kringer (66.512)
Minas Gerais: Dr. Maurício (64.692) e Zé Laviola (62.970)
Rio de Janeiro: Gabriel Costenaro (121.780)
Paraná: Bruno Secco (82.898), Luiz Fernando Guerra (64.788) e Deivid Wisley (31.935)
Rio Grande do Sul: Ramiro Rosário (54.903)
Santa Catarina: Odair Tramontin (32.134)
Goiás: Dr. Amarildo (43.130) e Neto Karfan (18.628)
Pernambuco: Renato Antunes (32.200)
Rondônia: Dr. Luís do Hospital (20.718) e Dr. Gilber (9.553)
• Acre: Emerson Jarude (9.434)
Vice-governador — 1
Roraima: Haroldo Cathedral, na chapa do PL de Arthur Henrique, que venceu com 69,13% no primeiro turno.
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