DIZER QUE O AGRONEGÓCIO NÃO ESTÁ EM CRISE É UM DESRESPEITO A QUEM ESTÁ PERDENDO A CAPACIDADE DE PAGAR, PRODUZIR E PERMANECER NO CAMPO!
Por Celso RicardoColunistaPublicado em 31/10/2026, 06:51Atualizado em 31/10/2026, 06:51

DIZER QUE O AGRONEGÓCIO NÃO ESTÁ EM CRISE É UM DESRESPEITO A QUEM ESTÁ PERDENDO A CAPACIDADE DE PAGAR, PRODUZIR E PERMANECER NO CAMPO!
Por Celso Ricardo Ferreira – Consultor em Gestão Estratégica em Agronegócio
A declaração atribuída a Gilson Bittencourt, vice-presidente de Agronegócios e Agricultura Familiar do Banco do Brasil, de que o agronegócio brasileiro não está em crise, é de uma gravidade extraordinária. Não estamos falando de uma opinião qualquer, mas do posicionamento de um dirigente que ocupa uma das funções mais importantes do sistema de financiamento rural brasileiro e que, justamente por isso, deveria compreender profundamente a deterioração econômica e financeira enfrentada pelos produtores.
É inadmissível que alguém nessa posição trate a realidade do campo com tamanha superficialidade. O agronegócio brasileiro enfrenta um processo severo de compressão das margens, elevação dos custos de produção, perdas provocadas por eventos climáticos, juros elevados, restrição de liquidez e crescente comprometimento da capacidade de pagamento. Em diversas regiões, produtores estão recorrendo à renegociação de dívidas, vendendo patrimônio, reduzindo investimentos e comprometendo receitas futuras para tentar manter suas atividades.
Que realidade econômica está sendo considerada quando um dirigente do Banco do Brasil afirma que não existe crise? A dos números agregados de produção ou a das contas bancárias dos produtores que não conseguem fechar?
O problema é muito mais profundo do que uma divergência de interpretação. Estamos diante de uma visão institucional que corre o risco de confundir produção com prosperidade, faturamento com lucro, patrimônio com liquidez e adimplência com saúde financeira. Um produtor pode continuar plantando, colhendo e comercializando sua produção enquanto acumula prejuízos, posterga pagamentos e compromete o patrimônio construído durante décadas.
O fato de uma parcela dos produtores permanecer adimplente não significa que esteja financeiramente saudável. Muitos continuam pagando suas obrigações à custa de novos financiamentos, venda de ativos, redução do capital de giro ou sacrifício da própria capacidade de investimento. Pagar uma dívida não significa necessariamente ter rentabilidade. E continuar produzindo não significa estar economicamente sustentável.
A situação se agrava quando observamos o funcionamento do crédito rural. O financiamento está caro, as exigências de garantias aumentam, a seletividade bancária restringe o acesso aos recursos e produtores com dificuldades decorrentes de fatores climáticos e econômicos encontram obstáculos justamente quando mais precisam de instrumentos de recuperação financeira.
É nesse ambiente que o vice-presidente de Agronegócios do Banco do Brasil deveria demonstrar uma compreensão muito mais profunda da realidade econômica do setor. Afinal, o banco não é um observador distante dessa situação. É um dos principais agentes de financiamento da produção agropecuária brasileira e participa diretamente das decisões que podem permitir a recuperação de um produtor ou aprofundar sua insolvência.
O mais preocupante não é apenas a declaração. É o peso institucional de quem a faz.
Quando um dirigente dessa importância minimiza a existência de uma crise, sua manifestação pode influenciar a maneira como o problema é percebido pelas instituições financeiras, pelos formuladores de políticas públicas e pela sociedade. O risco é transformar uma situação concreta de deterioração financeira em uma dificuldade aparentemente isolada, como se o endividamento rural fosse resultado de problemas individuais de gestão e não também de uma combinação de fatores econômicos, financeiros, climáticos e estruturais.
Estamos diante de produtores que enfrentam perdas de produtividade por estiagens e enchentes, oscilações severas de preços, custos financeiros incompatíveis com suas margens e compromissos bancários que se acumulam sobre resultados insuficientes. A cada novo ciclo produtivo, parte desses produtores assume riscos maiores apenas para continuar na atividade.
E o que deveria ser uma política de recuperação econômica acaba frequentemente reduzido à discussão sobre garantias, prazos e condições de renegociação, sem enfrentar a questão central: qual é a capacidade real de geração de resultado econômico e fluxo de caixa do produtor rural?
É essa análise que deveria orientar o posicionamento de quem dirige uma área tão estratégica do Banco do Brasil. Não basta observar o volume financiado, a produção nacional ou a proporção de contratos em dia. É necessário compreender a margem líquida, o custo do capital, a relação entre dívida e receita, a capacidade de amortização e o risco de insolvência.
A crise financeira de um produtor não começa quando ele deixa de pagar a parcela. Ela começa muito antes, quando sua atividade perde a capacidade de gerar resultado suficiente para remunerar o capital, sustentar a família, financiar a próxima safra e cumprir os compromissos assumidos.
Esperar a inadimplência se transformar em insolvência para reconhecer a gravidade do problema é uma demonstração de incapacidade de antecipação econômica.
O agronegócio brasileiro não precisa de dirigentes que interpretem a continuidade da produção como prova de ausência de crise. Precisa de instituições capazes de identificar o comprometimento da rentabilidade, compreender a deterioração da capacidade de pagamento e construir soluções financeiras compatíveis com a realidade das atividades produtivas.
A declaração de Gilson Bittencourt merece uma crítica severa porque revela uma interpretação perigosamente limitada da saúde econômica do setor. O Banco do Brasil tem responsabilidade estratégica no financiamento rural, e seus dirigentes não podem reduzir a complexidade do agronegócio a indicadores que não mostram integralmente a situação financeira dos produtores.
O CAMPO NÃO PRECISA QUE O BANCO DO BRASIL NEGUE A CRISE. PRECISA QUE SEUS DIRIGENTES TENHAM CAPACIDADE DE RECONHECÊ-LA, COMPREENDER SUAS CAUSAS E PARTICIPAR EFETIVAMENTE DE SUA SOLUÇÃO.
Porque, enquanto autoridades financeiras discutem se existe ou não crise, há produtores tentando decidir como pagar suas dívidas, financiar a próxima safra e evitar a perda de suas propriedades.
E QUANDO O PRODUTOR PERDE A CAPACIDADE DE PAGAR, NÃO É APENAS UMA PARCELA QUE ESTÁ EM RISCO. É A CONTINUIDADE DE TODA UMA ATIVIDADE ECONÔMICA.
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