Blog do Lanza: Brasil inicia novo ciclo com velhos problemas
Brasil empata com a Austrália e inicia o ciclo para 2030 repetindo velhos problemas: pouca criatividade, falta de identidade e futebol pobre.
Por LanzaColunistaPublicado em 25/09/2026, 11:58Atualizado em 25/09/2026, 11:58

Começou um novo ciclo para a Seleção Brasileira. Pelo menos no calendário.
Porque dentro de campo, sinceramente, parece que pouca coisa mudou.
O empate por 1 a 1 diante da Austrália, nesta sexta-feira, em Townsville, marcou o primeiro compromisso do Brasil depois da frustrante Copa do Mundo de 2026. Era amistoso. Era começo de trabalho. Era momento de testar jogadores. Tudo isso é verdade.
Mas também é verdade que foi muito pouco.
Muito pouco para uma Seleção Brasileira.
E principalmente muito pouco diante da Austrália.

O problema não é empatar
É importante separar as coisas.
Empatar um amistoso em setembro de 2026 não significa absolutamente nada pensando na Copa do Mundo de 2030. Se existe um momento para errar, testar, mudar esquema e descobrir jogadores, é agora.
Portanto, o 1 a 1 não deveria provocar nenhum terremoto.
O que preocupa é como o Brasil empatou.
A Seleção teve enorme dificuldade para transformar sua superioridade técnica individual em superioridade coletiva. Faltou criatividade, faltou aproximação, faltou velocidade na circulação da bola e, principalmente, faltou aquela sensação de que existe uma ideia clara sendo construída.
O Brasil teve Vini Jr., Raphinha, Estêvão e Endrick no setor ofensivo. É talento demais para produzir tão pouco.
A Austrália fez o básico.
Marcou, competiu, fechou espaços e esperou suas oportunidades.
E durante boa parte da partida isso foi suficiente para incomodar uma Seleção pentacampeã mundial.

Quatro atacantes não significam um time ofensivo
Talvez esteja aí uma das principais discussões deixadas pela partida.
Colocar quatro jogadores ofensivos em campo não significa necessariamente atacar mais.
Às vezes significa justamente o contrário.
Sem um meio-campo capaz de controlar a partida, aproximar os setores e abastecer os homens da frente, o Brasil ficou muitas vezes partido.
Tinha jogador de qualidade.
Faltava time.
E essa talvez seja a frase que melhor resuma a Seleção Brasileira dos últimos anos.
Porque ninguém discute a qualidade individual do jogador brasileiro. Vini Jr., Raphinha, Estêvão, Endrick, Bruno Guimarães e tantos outros atuam ou têm condições de atuar no mais alto nível do futebol mundial.
A questão é fazer essas peças funcionarem juntas.

E o fantasma de 2026?
É impossível assistir ao Brasil desta sexta-feira sem lembrar do que aconteceu há poucos meses.
A eliminação nas oitavas de final da Copa do Mundo para a Noruega deveria representar o encerramento de um ciclo e, principalmente, provocar uma reflexão profunda sobre o futebol apresentado pela Seleção.
Não bastava trocar algumas peças.
Era necessário mudar o funcionamento.
Por isso o primeiro amistoso pós-Copa carregava uma curiosidade maior do que normalmente carregaria um jogo desse tipo.
Não pelo resultado.
Mas para descobrir que Brasil começaria a ser construído para 2030.
A resposta, pelo menos nesta primeira apresentação, não foi animadora.
Pareceu muito com aquilo que acabamos de assistir na última Copa: uma equipe dependente de lampejos individuais e com enormes dificuldades para funcionar coletivamente.
O gramado estava ruim. E daí?
Sim, o gramado em Townsville estava ruim.
A bola quicava, placas se soltavam e claramente não era o cenário ideal para uma partida de futebol.
Ancelotti tem razão quando reclama das condições.
Mas existe uma diferença enorme entre reconhecer um problema e transformá-lo em desculpa.
O gramado era ruim para os dois lados.
E existe uma diferença técnica gigantesca entre Brasil e Austrália que deveria ser suficiente para produzir algo melhor, mesmo em condições adversas.
Seleção Brasileira não pode precisar de cenário perfeito para conseguir jogar futebol contra a Austrália.
Rayan salvou o placar. Não a atuação
Quando a derrota parecia consumada, apareceu Rayan.
Aos 49 minutos do segundo tempo, o atacante marcou de cabeça e evitou que o primeiro jogo pós-Copa terminasse com uma derrota.
Ótimo para ele.

Um jovem aproveitando a oportunidade e mostrando personalidade justamente no momento em que a Seleção mais precisava.
Mas o gol não pode apagar os 90 minutos anteriores.
O Brasil escapou da derrota.
Não escapou da péssima atuação.
E talvez seja até melhor que seja assim.
O pior que poderia acontecer neste início de ciclo seria começar a mascarar problemas porque os resultados aparecem.
Agora é hora de enxergá-los.
Paciência? Claro. Comodismo? Jamais.
Depois da partida, Carlo Ancelotti pediu paciência ao torcedor.
E ele tem razão.
Estamos falando do primeiro jogo de um ciclo de quatro anos. Haverá jogadores entrando, jogadores saindo, mudanças táticas, experiências que funcionarão e outras que darão completamente errado.
Paciência será necessária.
Só que paciência não significa aceitar qualquer coisa.
Existe tempo para construir uma Seleção competitiva até 2030.
Mas quatro anos passam rápido no futebol.
E o Brasil sabe disso melhor do que ninguém.
Desde o pentacampeonato em 2002, acumulamos eliminações, mudanças de treinadores, promessas de renovação e novos ciclos que quase sempre começam com o mesmo discurso.
Talvez esteja na hora de o novo ciclo realmente parecer novo.
O empate com a Austrália não é uma tragédia.
Nem perto disso.
Mas a atuação serve como um primeiro aviso.
Porque o calendário mudou.
A Copa mudou.
Alguns jogadores mudaram.
Mas, nesta sexta-feira, os velhos problemas continuaram exatamente no mesmo lugar.
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